Porque as histórias sobre Tchernóbil não são só sobre o desastre nuclear

Eurogamer:

So what makes Chernobyl different? The answer, as is also demonstrated by the recent, astonishing HBO miniseries, is that Chernobyl is about far more than the nuclear disaster. Its significance is not merely scientific. It is also cultural, humanitarian, environmental, even architectural. The brutalist tower blocks of Pripyat, the dilapidated villages inside the exclusion zone, partly reclaimed by nature, the military cemetery filled with rusting trucks and discarded Hind helicopters, are all as much a part of Chernobyl as its ominous red-and-white chimney stacks.

Eu terminei o Vozes de Tchernóbil, que inspirou alguns dos personagens da minissérie da HBO, e tive essa mesma impressão do artigo da Eurogamer. É tão difícil pra jogos (e filmes, inclusive) capturarem todo o peso de um desastre como esse. A repercussão política e social, o peso histórico. Acho que o livro de Svetlana Alexievich e a minissérie são janelas pra essa percepção.

O The Ringer é mais poético:

Nuclear fission is Prometheus’s fire, updated and amplified for modernity. Under specific conditions, it’s a revolutionary source of power; out of control, it’s deadly and devastating. The first practical use of nuclear energy was as a weapon, designed for the express purpose of killing tens of thousands with the push of a button, and that legacy has enraptured humanity’s collective imagination ever since. Atomic power could save human civilization or destroy it, perhaps even accidentally, and we’ve lived under that threat for 75 years now.

Tanto Vozes de Tchernobil e Chernobyl levam o desastre pra narrativas íntimas — como vidas individuais foram afetadas por ele —, mas esse evento é tão imenso que até mesmo as menores histórias, como a de um pai que precisa entrar na Zona de novo pra pegar a porta da sua casa, dão uma ideia do seu impacto. O que Tchernóbil1 revela sobre a limitação do humano e da sociedade é o seu maior legado.

O The Ringer continua:

A nuclear meltdown is not only more alien and irresistible than a natural disaster, it’s entirely anthropogenic. Fires, storms, and earthquakes occurred before industrialized society and will continue to occur after it ends. They can be written off on some level as acts of God, even when they’re caused, intensified, or exacerbated by human carelessness or malfeasance. Not so with a nuclear meltdown; nothing like it exists in nature. It doesn’t matter that nuclear power plants have a better safety record than fossil fuel power plants for the same reason it doesn’t matter that air travel is safer than driving: The deaths in those accidents are caused by something we all know humans weren’t designed to do.

Chernobyl me fez pensar que nenhum filme sobre o onze de setembro feito até hoje entende isso. Pra um evento que foi abraçado por Hollywood — quase todo o blockbuster tem uma cena de destruição onde as pessoas são engolidas pelas cinzas da destruição —, é meio incrível como eles ainda tem medo de observar os resultados da queda do World Trade Center. Aquele As Torres Gêmeas com o Nicholas Cage erra porque o atentado é todo o filme, não tem nada ali além de tentar sobreviver a um prédio caindo. Isso transforma o evento em um filme de resgate, como esses que o The Rock faz todo ano, mas não consegue capturar a transformação que o evento causou. É como se ele vivesse numa bolha temporal.

O mais próximo que eu consigo pensar é o A Hora Mais Escuta, um filmão da Kathryn Bigelow, mas os EUA estão mais explorando o 11/09 na alegoria ainda, e na TV mais do que no cinema. Lost e, principalmente, The Leftovers são sobre um luto comunal que é difícil de compreender, e difícil de superar por causa disso.

  1. Eu escrevi esse post usando “Chernobyl” pra me referir ao evento, mas tanto o livro quanto esse artigo explicam que “Tchernóbil” é mais correto. Eu prefiro seguir a dica da galera inteligente. 

Porque as histórias sobre Tchernóbil não são só sobre o desastre nuclear

Eurogamer:

So what makes Chernobyl different? The answer, as is also demonstrated by the recent, astonishing HBO miniseries, is that Chernobyl is about far more than the nuclear disaster. Its significance is not merely scientific. It is also cultural, humanitarian, environmental, even architectural. The brutalist tower blocks of Pripyat, the dilapidated villages inside the exclusion zone, partly reclaimed by nature, the military cemetery filled with rusting trucks and discarded Hind helicopters, are all as much a part of Chernobyl as its ominous red-and-white chimney stacks.

Eu terminei o Vozes de Tchernóbil, que inspirou alguns dos personagens da minissérie da HBO, e tive essa mesma impressão do artigo da Eurogamer. É tão difícil pra jogos (e filmes, inclusive) capturarem todo o peso de um desastre como esse. A repercussão política e social, o peso histórico. Acho que o livro de Svetlana Alexievich e a minissérie são janelas pra essa percepção.

O The Ringer é mais poético:

Nuclear fission is Prometheus’s fire, updated and amplified for modernity. Under specific conditions, it’s a revolutionary source of power; out of control, it’s deadly and devastating. The first practical use of nuclear energy was as a weapon, designed for the express purpose of killing tens of thousands with the push of a button, and that legacy has enraptured humanity’s collective imagination ever since. Atomic power could save human civilization or destroy it, perhaps even accidentally, and we’ve lived under that threat for 75 years now.

Tanto Vozes de Tchernobil e Chernobyl levam o desastre pra narrativas íntimas — como vidas individuais foram afetadas por ele —, mas esse evento é tão imenso que até mesmo as menores histórias, como a de um pai que precisa entrar na Zona de novo pra pegar a porta da sua casa, dão uma ideia do seu impacto. O que Tchernóbil1 revela sobre a limitação do humano e da sociedade é o seu maior legado.

O The Ringer continua:

A nuclear meltdown is not only more alien and irresistible than a natural disaster, it’s entirely anthropogenic. Fires, storms, and earthquakes occurred before industrialized society and will continue to occur after it ends. They can be written off on some level as acts of God, even when they’re caused, intensified, or exacerbated by human carelessness or malfeasance. Not so with a nuclear meltdown; nothing like it exists in nature. It doesn’t matter that nuclear power plants have a better safety record than fossil fuel power plants for the same reason it doesn’t matter that air travel is safer than driving: The deaths in those accidents are caused by something we all know humans weren’t designed to do.

Chernobyl me fez pensar que nenhum filme sobre o onze de setembro feito até hoje entende isso. Pra um evento que foi abraçado por Hollywood — quase todo o blockbuster tem uma cena de destruição onde as pessoas são engolidas pelas cinzas da destruição —, é meio incrível como eles ainda tem medo de observar os resultados da queda do World Trade Center. Aquele As Torres Gêmeas com o Nicholas Cage erra porque o atentado é todo o filme, não tem nada ali além de tentar sobreviver a um prédio caindo. Isso transforma o evento em um filme de resgate, como esses que o The Rock faz todo ano, mas não consegue capturar a transformação que o evento causou. É como se ele vivesse numa bolha temporal.

O mais próximo que eu consigo pensar é o A Hora Mais Escuta, um filmão da Kathryn Bigelow, mas os EUA estão mais explorando o 11/09 na alegoria ainda, e na TV mais do que no cinema. Lost e, principalmente, The Leftovers são sobre um luto comunal que é difícil de compreender, e difícil de superar por causa disso.

  1. Eu escrevi esse post usando “Chernobyl” pra me referir ao evento, mas tanto o livro quanto esse artigo explicam que “Tchernóbil” é mais correto. Eu prefiro seguir a dica da galera inteligente. 

Eu fiz um atalho pro iOS que envia fotos direto do iPhone pro blog no GitHub, então esse post é um teste. :)

Olha essa foto da Vivi acordando no frio:

Vivi enrolada nos cobertores dentro do cesto

Aparentemente Joy-Con Drift é um problema geral

Kotaku:

Recently I’ve been doing nothing but playing the upcoming Switch game Fire Emblem: Three Houses, to finish the game in time for my upcoming review. I, too, have started noticing something funny about my Joy-Con. When I was in the combat screen, where the stick on the right Joy-Con controls the overhead angle of the camera, the camera angle would slowly drift until it was directly overhead. In the school phase of the game, the camera would do the same thing, drifting away from the optimal position unless I kept my thumb on it.

I thought it was just me. Then four other Kotaku staffers mentioned that they’ve also been having problems with Joy-Con drift. That’s about a quarter of us.

O Joy-Con que veio com o meu Switch começou a apresentar esse problema com uns dois ou três meses de uso (o par adicional que eu comprei ainda não começou a dar problemas, mas eu não joguei tanto com eles pra observar).

Eu achava que era só eu, que eu tinha comprado um Switch que sobrou da leva de lnaçamento (eu esperei até agosto porque a Nintendo é líder em lançar uma primeira leva de hardware com problemas — a tampa da entrada dos controles do GameCube no meu Wii nunca fechou), mas pelo visto isso é um problema geral. Fico mais tranquilo que não é mal uso, mas tá aí mais um problema de design do Switch que só vai ser resolvido em uma revisão de hardware, e vai custar pra resolver.

Melhorias visuais entre o iOS 12 e 13

Ryan Burnett publicou uma série de tuítes muito bacana com as mudanças visuais do iOS 13.

Eu sempre tive essa impressão de que a interface do iOS é meio bagunçada. Botões não tem contraste o suficiente e alguns elementos em comum variam de visual dependendo do aplicativo, enquanto o macOS sempre fez muito sentido. Tu sabe qual o comportamento de um elemento instintivamente porque eles são padronizados através dos aplicativos. É bom de ver que o iOS 13 dá um passo em direção dessa consistência.

Sobre a WWDC19

No geral, a WWDC 2019 foi o evento mais interessante da Apple em anos. Acho que desde a WWDC de 2013 eu não me interessava tanto pelo que a Apple tinha pra mostrar pros desenvolvedores. Um Mac Pro realmente bom, uma atualização do macOS que dá um salto gigante, novas ferramentas de desenvolvimento poderosíssimas e uma prioridade na segurança que continua, infelizmente, sendo única na indústria.

E, mesmo assim, a Apple continua derrapando feio no iOS. O sistema tá numa situação complicada — eu vou falar disso mais abaixo —, e acabou de receber mais um fork. É às custas do iOS, porém, que o iPadOS parece tão interessante. E é porque o ano tá fraco pro iOS que o macOS teve a chance de brilhar.

Mas vamos por partes.

tvOS e watchOS

Eu não acredito que a Apple não conseguiu bolar um design melhor para a navegação nas TVs. Nós passamos tempo demais navegando pelos menus das dezenas de apps de streaming que estamos acumulando nas smart TVs e sticks de streaming por aí, e eu suspeito muito que isso não é porque há muita opção, e sim porque esses apps são horríveis de navegar e encontrar aquilo que realmente nos interessa. Pelo visto o tvOS não tá aí pra resolver esse problema. Mas tem suporte à múltiplas contas! Antes do iOS! Por essa eu não esperava.

O watchOS ganhou uma App Store, o que eu acho impressionante. É bom de ver que o sistema tá se separando de vez do iOS. Ele é o novo iOS da Apple: o sistema onde a empresa não tem nenhum outro concorrente à altura, e pode dar a louca e vir com ideias realmente boas. As inovações dos medidores de saúde e condicionamento físico dessa nova versão são incríveis.

O problema do iOS

A Apple tá numa situação delicada com o iOS. É o seu sistema mais importante comercialmente — ele literalmente opera o dispositivo mais bem sucedido do mundo — mas é onde eles tem mais dificuldade de inovar nos últimos anos. O Android tem a seu favor um data mining sem precedentes, o que permite criar sugestòes melhores e previsòes comportamentais às custas da privacidade e do bem estar dos seus clientes, que não parecem se importar com as notícias diárias de que metade do mundo consegue rastrear cada ação que é feita em seus dispositivos. E, ao invés de a Apple mirar para outro lado e tentar inovar em outras áreas igualmente úteis, eles ficam correndo atrás.

Eu acho louvável o que a Apple tenta fazer: eles sabem que tem alguns dos hardwares mais potentes e bem construídos do mundo, e sabem que esse hardware dá conta do processamento neural que o Google aposta em seus servidores. Fazer essas previsões e sugestões localmente, ao invés de centralizá-las e rastreá-las como a concorrência faz, dá à Apple a vantagem de poder se vangloriar de privacidade se segurança (algo que essa indústria já deveria ter regulamentado, porque aí sim Android e iOS poderiam voltar a inovar sem recorrer à atitudes que beiram o criminoso). Porém os resultados ainda não são bons o suficiente. Enquanto pro Google não falta amostragens para aprimorar esses sistemas inteligentes, a Apple continua investindo em áreas questionáveis para melhorá-lo. Eu não sei se a Siri deveria ser o núcleo de tudo isso como vem sendo na mais de meia década pra cá. Talvez o Shortcuts seja o caminho.

O que acontece então é que o iOS é mais um sistema reativo para a Apple, precisando criar soluções aprimoradas de algo que o Google já se vangloria à tempos de ter, mesmo que mal e porcamente. Eu não pude deixar de rir de quando eles enxeram o peito pra falar do novo recurso de Look Around do Mapas.

Não é à toa que o iPad está ganhando um fork pra chamar de seu. É onde a Apple ainda pode inovar no iOS porque o Android em tablets é só um grande fracasso. O iPadOS, que tem um nome ridículo, parece ser uma das tentativas da Apple de aproximar um sistema móvel com o ancião do macOS — uma iniciativa de duas pontas, e que eu não tenho muita certeza no que vai acabar acontecendo quando essa divisão ficar menor. A linha de MacBooks tá confusíssima, os teclados tão piores do que nunca e, enquanto isso, tanto o iPad de 9 polegadas e o iPad Pro estão surgindo como alternativas viáveis graças ao Smart Keyboard e o Apple Pencil.

O retorno do Mac

Demorou pra Apple voltar a acertar com o Mac, e aí está. O Mac Pro é um acerto tão grande que eu me pergunto se a Apple não deveria desistir da linha de MacBooks e manter só os iPads e se dedicar à linha de Macs mini, iMacs e o novo rei da cocada (não vai acontecer, porque as vendas do iPad estagnaram enquanto as do MacBook ainda são muito saudáveis, mesmo com os teclados vergonhosos).

Eu sou um early adopter de software, mas não de hardware. Eu espero e analiso com paciência sempre que vou investir em um novo computador ou celular ou qualquer outro dispositivo. Eu demorei quase quatro meses pra comprar o Nintendo Switch, por exemplo, por causa da má fama da Nintendo de lançar restos de protótipos nas primeiras levas de seus videogames (eu tenho quase certeza que um dos meus Joy-Cons tem essa má sorte).

Mas quando a Apple apresentou o Mac Pro, minha empolgação foi lá em cima. Eu nem sabia que eu ainda podia me empolgar assim por um computador. E de mesa, ainda por cima. A última vez que eu comprei um desktop foi em 2005, porcaria. E aqui tô eu, esperando anciosamente pela review do Ars Technica pra poder investir todas as minhas economias em um gabinete.

Um pequeno desvio pra falar do Pro Display XDR: Lindo, belíssimo. Parece ter uma imagem inegualável. Mas depois das grandes surpresas do Mac Pro, ver que a Apple vai cobrar mil dólares só pelo suporte do painel é uma loucura.

O Mac Pro parece ser de uma Apple que eu nem sabia que ainda existia. É modular. É prático. É feito pra quem quiser investir em melhorar ele no futuro. Nem mesmo a lixeirinha do Mac Pro anterior parecia tão revolucionário pra Apple quanto esse ralador de queijo gigante. Eu tô muito empolgado em ver se a Apple decide que o Mac Pro é o caminho que eles vão querer seguir pro hardware deles daqui pra frente. Vai ser demais.

A outra e importantíssima notícia da WWDC esse ano é o macOS Catalina. E eu ainda tô esperando pra ver o que o Catalyst (ex-Marzipan) vai causar no ecossistema da Apple. Apps do iPad e iPhone no Mac parecem uma boa iniciativa, mas é o tempo e a execução que vão julgar os resultados. Eu só espero que isso não acabe se transformando em uma situação como esse bando de apps baseados em Electron que acabam sendo grandes Chromes que só sabem fazer uma coisa e ficam ocupando o meu disco com inutilidades.

Das tecnologias e frameworks que vimos, realidade aumentada e realidade virtual são algo que eu ainda não consigo entender. Eu vejo o grande apelo comercial que elas tem, mas eu acho difícil de ver alguma execução que realmente vai fazer essas tecnologias fazerem parte do nosso dia-a-dia. Elas serem algo que adiciona publicidade na nossa vida não é utilitário e essencial. Acho que ainda precisamos de algum produto revolucionário — e não é Pokémon Go — pra nos mostrar que essas tecnologias são mais que um parquinho de anunciantes.

Já o SwiftUI? Incrível. Quando a Apple quer oferecer tecnologia pros seus desenvolvedores, ela faz como ninguém. O SwiftUI é prático e claro, e tem toda a possibilidade de se transformar no verdadeiro impulso pra pessoas se inspirarem e aprenderem a desenvolver. Tem a capacidade de ser bastante visual e rápido ao mesmo tempo, um balanço em que muitas tecnologias ainda se perdem. Mas acredito que a Apple acertou em cheio aqui.

Agora eu tô recarregando freneticamente a página do Mac Pro no site da Apple Brasil pra ver quantos zeros vão ter atrás do preço.

Onde tá o post que ficava aqui?

Eu aproveitei o redesign que eu tava querendo fazer há tempo nesse blog pra fazer uma limpa no arquivo dele, também.

O Irrelefante existe desde meados de 2009, mas nos últimos anos isso aqui virou só uma série de links pros meus posts no Pão com Mortadela, o blog colaborativo que eu edito desde 2012. Como o PCM é mais pra posts sobre cultura, e porque me faz bem escrever, eu decidi voltar a blogar. Mas aquele arquivo de posts antigos tava me incomodando um bocado.

Então! Eu limpei esse blog, mas se alguém precisar de algum post ou algum tutorial que existia aqui antes, esse conteúdo não sumiu de vez. Eu criei um branch no repositório do Irrelefante pra guardar esses posts antigos.