A noite tardia

Miriam Leitão, G1:

Hoje vejo o irremediável da vida. Volto para pegar o último pertence que deixei para trás e entender, mais uma vez, o que ela tentou me dizer. Eu tinha esquecido a simples verdade de que o mundo dá voltas e, por ser assim, em volteios e redemoinhos chega-se, às vezes, ao ponto inicial. Eu penso: como recomeçar se já não tenho mais o brilho dos seus olhos e aqueles sonhos que sonhamos juntos e a certeza de que havia um longo caminho à frente, mas nele seríamos donos do nosso destino.

Destino já destinado, voltamos. Falta pouco tempo agora. É preciso recolher velhos pertences, antigas certezas mas ter mais pressa. Tenho para mim que quando anoitece no amanhecer das vidas pode-se esperar a aurora, porque tempo, tempo haverá. Mas, a noite tardia tem mais assombrações. Na travessia da primeira noite, apenas intuíamos os riscos. Hoje sabemos onde moram os fantasmas.

Logo a Miriam, que já suportou tanto, tentando nos mostrar com um texto delicado e pessoal assim aquilo que ela sofreu e o que está sofrendo de novo. Caramba de pesadelo esse que a gente tá vivendo.