Ieda Marcondes, hoje pra Folha:

Dada a extinção das videolocadoras e a iminente morte da mídia física, é possível que ocorra um novo blecaute do cinema, assim como houve com a produção do período mudo —e, desta vez, não será culpa de um tsunami ou de uma bomba atômica, mas do canibalismo catastrófico da indústria.

O tom apocalíptico é resultado, sobretudo, da dicotomia entre a posse da mídia física e a aquisição do acesso ao conteúdo —isto é, entre o permanente e o revogável.

“Alguns amigos meus ficam perplexos, pois continuo comprando DVDs e Blu-rays”, comentou o cineasta britânico Edgar Wright após o cancelamento do FilmStruck. “Aí está o motivo: esses canais de streaming podem desaparecer num instante.”

O historiador e crítico Wheeler Winston Dixon foi ainda mais enfático ao declarar que o cinema do século 20 está sendo apagado: “Esses filmes desaparecem do olhar público porque não há como recomendá-los.”

As sucessivas mudanças de suporte, mais o desinteresse econômico dos estúdios em valorizar e divulgar os próprios acervos, transformaram cinéfilos e pesquisadores em arqueólogos, escavando os cantos da internet na tentativa de encontrar obras cada vez mais obscuras.

Sem a contínua preservação da memória, estamos fadados à ignorância. Afinal, não teríamos a ficção cinematográfica sem pioneiros como Georges Méliès. Sem ele, não haveria o cinema de gênero ou “2001 – Uma Odisseia no Espaço”. Mais do que isso, os filmes também servem para lembrar o que já passamos, quem somos e aonde podemos chegar —como seres humanos e também como sociedade— revelando as nossas identidades históricas, culturais e políticas.

“O streaming não chegou aos filmes de uma maneira integral. Acho importante a distribuição e a preservação nos suportes de discos, mas esses mercados estão minguando a olhos vistos”, comenta André Gatti, professor e pesquisador de audiovisual. “Os filmes brasileiros têm poucos leitos de preservação adequados, e o público não tem muito acesso a eles, pois raramente são exibidos pela televisão ou até mesmo em locais como cinematecas, cineclubes, museus e institutos culturais.”

Eu gosto de pensar que o streaming, principalmente o MUBI nos últimos anos, me ajudou muito com o meu repertório e com a minha coleção de filmes. Mas ele ainda é um suporte, e não a forma como eu ainda adquiro os filmes que eu amo. É preocupante ver os acervos físicos minguando — e sempre uma alegria descobrir um acervo que ainda sobrevive e que tá tentando se expandir, como a OPC, onde eu comprei o meu box da obra do Jacques Tati no início desse mês.

É uma pena que as distribuídoras tão cada vez menos interessadas na mídia física, mas acho que já é algo irreversível. É algo que me assusta, na verdade, e por isso eu acabei comprando muito mais DVDs e blu-rays (quando esses ainda chegam) nesses últimos seis meses. Enquanto tiver, eu tenho que aproveitar.

Aliás, a edição impressa dessa matéria é lindíssima. Parabéns, Folha.