Jardins Digitais

Há umas semanas eu li A Brief History & Ethos of the Digital Garden, um post de Maggie Appleton sobre a história de “jardins digitais”, e como criar um ajudou ela a escrever mais e melhor. Essa parte me chamou bastante a atenção:

Um jardim é uma coleção de ideias em evolução que não estão organizadas apenas por sua data de publicação. Elas são inerentemente exploratórias – notas são linkadas através de associações contextuais. Elas não são refinadas ou completas – notas são publicadas como ideias não terminadas que vão crescer e evoluir com o tempo. Elas são menos rígidas, menos performativas, e menos perfeitas que os sites pessoais que estamos acostumados a ver.

Appleton cita uma apresentação de Mike Caulfield, que relaciona wikis como “jardins digitais” e blogs, timelines e feeds como “correntezas”:

O Jardim é uma metáfora antiga associada ao hipertexto. Aqueles familiares com sua história vão reconhecer isso. O Jardim dos Caminhos Bifurcados da metade do século 20. O conceito de jardineiro de wikis dos anos 90. O ensaio Hypertext Gardens de Mark Bernstein publicado em 1998.

  • O Jardim dos Caminhos Bifurcados é um conto do autor argentino Jorge Luis Borges publicado em 1941. Uma versão traduzida para o português está nesse blog, com um link para a versão original em espanhol.
  • Hypertext Gardens é um experimento de como “passear” pelo hipertexto de um site sem o site te dizer por onde você deve ir. Ele indica caminhos, mas não guia o visitante por um caminho preferencial. Explorar e descobrir algo na internet é uma experiência própria do hipertexto.

O Jardim é a web como topologia. A web como espaço. É a web integrativa, iterativa, a web como um arranjo e rearranjo de coisas em outras coisas.

Coisas no Jardim não colapsam em um único conjunto de relações ou sequências canônicas, e isso é parte do que queremos dizer da “web como topologia” ou “web como espaço”. Cada caminhada pelo jardim cria novos caminhos, novos significados, e quando adicionamos coisas ao jardim nós adicionamos elas de uma forma que permite muitas relações futuras e imprevistas.

[…]

Cada flor, árvore e videira é vista em relação com o todo pelo jardineiro de modo que os visitantes terão experiências únicas e mesmo assim coerentes conforme els vão criando seus próprios caminhos pelo jardim. Nós criamos o jardim como uma forma de gerador de experiências, capazes de expressões e significados infinitos.

Essa é uma experiência essencialmente diferente da web como correnteza, que é aquilo que estamos acostumados desde o fim da década de 2000, com a popularização das timelines e feeds. Caufield:

Na metáfora da correnteza você não experimenta a Correnteza caminhando nela e olhando para ela, ou seguindo ela até o seu fim. Você pula nela e deixa que ela leve você. Você sente a força dela em você conforme as coisas flutuam por ela.

Não que você seja passivo na Correnteza. Voê pode ser ativo. Mas suas ações nela – seus posts de blog, menções, comentários em fóruns – existem em um contexto que colapsa em uma única linha temporal de eventos que, juntos, formam uma narrativa.

Em outras palavras, a Correnteza substitui a topologia com serialização. Ao invés de imaginar um mundo de conexões eternas e de múltiplos caminhos, a Correnteza nos apresenta a uma única ordem temporal centrada em nossa experiência (e apenas na nossa experiência).

Eu passei uma boa parte desses últimos meses pensando na distância que eu tô tendo do Pão com Mortadela, o blog que eu mantive pelos últimos oito anos. Eu fico bem triste quando eu penso que o meu tempo mantendo aquele blog acabou. O Pão me acompanhou por um tempo bem complicado e registrou tanto a minha doença quanto a minha cura, e eu sou muito grato por ter aquele espaço quando eu precisei.

Ao mesmo tempo, eu não acho que o Pão serve mais, e não só porque eu não gosto mais de escrever resenhas, mas porque eu acho que aquele formato, o blog, não me serve mais também. Eu escrevo de um jeito diferente hoje. Ele é mais desconexo e menos preciso. As coisas aparecem mal formadas, e demoram para assumir uma forma mais legível. Até que isso aconteça passa um tempo em que ou eu não escrevo nada, ou eu desisto daquele pensamento. E, nesses últimos meses, eu joguei muitas ideias fora.

Um blog, uma Correnteza, afinal, precisa de um outro estilo de pensamento, algo que eu sinto que não me cabe mais. Caufield:

Enquanto o jardim é integrativo, a Correnteza é afirmativa. É persuasão, é argumento, é defesa. É pessoal, personalizada e imediata. É revigorante. E, como podemos ver em um minuto, também é profundamente inadequado para alguns dos usos que fazemos.

A Correnteza é o que eu faço no Twitter e em blogs. Eu pego um fato e o projeto como mais uma parte em um argumento, narrativa ou persona que construo ao longo do tempo e recapitulo em vez de iterar.

Escrever em um blog, mesmo em um blog informal como o Pão é, requer uma carga bem intensa de pesquisa, revisão e edição. É um processo bacana, mas ele delimita um “fim” para os meus textos. É uma herança de uma forma antiga de escrever, quando a tinta selava um texto no papel. Esse tipo de oficialização é importante no mundo, mas não para aquilo que eu escrevo. Eu leio textos mais antigos no Pão e gostaria de reescrever ou complementar, mas os posts em um blog são registros temporais. Eu posso editá-los e complementá-los. Mas isso vai contra o princípio de como um post registra uma ideia naquele tempo exato.

Eu ainda acho que esse formato é válido, mas eu escrevo de uma maneira completamente diferente hoje da que eu escrevia há um ano. E eu acho que um jardim digital, com anotações que se conectam e se complementam e se atualizam, faz mais sentido nesse momento pra mim. Eu não digo que não vou escrever mais posts no Pão, mas eu também não prometo nada. Eu espero que esse jardim me ajude a desenvolver algumas ideias e a registrar o que eu estou aprendendo, inclusive nesse novo jeito de escrever que eu tô descobrindo aos poucos.

Eu também gosto do estilo wiki que as coisas funcionam. Em um jardim digital, notas se interligam como artigos da Wikipédia. Cada uma é uma unidade que se complementa e conversa. Ela é mais imprevisível, mas ela é essencialmente da web. É a força do hipertexto, que eu acho a criação mais importante do tempo em que eu vivo, e é algo que eu quero explorar e brincar mais. Appleton lembra:

Ela nos leva ao princípio da web, quando as pessoas tinham menos noção de como sites deveriam ser.

[…]

Esses criadores queriam permitir experiências em que você escolhesse seu próprio caminho, enquanto também ofereciam sinais o suficiente para que as pessoas não se sentissem perdidas nesse meio novo e estranho. Os primeiros debates da web sobre isso ficaram conhecidos como O Problema da Navegação – o problema de como dar aos usuários da web orientação o suficiente para explorarem livremente a web, sem forçá-los em experiências de navegação pré-definidas.

E também tem o fato de que eu não tenho mais tanta certeza das minhas ideias, e consigo ver com mais facilidade como elas estão evoluindo ao mesmo tempo. Um formato menos fixo me permite isso. Uma nota deve crescer e florescer com o tempo, até gerar algo mais compreensível pro leitor. Quando ela chegar nesse ponto, eu talvez coloque ela em um post, com tags e referências próprias de um blog. Até lá, eu acho que eu prefiro um espaço onde eu estou mais livre para experimentar e errar e aprender um pouco. E eu acho que esse jardim vai ser onde eu vou poder fazer tudo isso.


Aqui está um mapa de todas as notas nesse jardim: