Irrelefante

Os melhores filmes de agosto

Eu acabei deixando de fazer os posts sobre o que eu assisti no dia anterior essa última semana porque eu não assisti nada nos dias anteriores. Eu andei meio doente e preocupado porque eu estava doente (eu não costumo ficar mal do jeito que eu fiquei no inverno), mas agora que tá tudo bem eu pretendo voltar à minha programação de assistir filmes diariamente.

Acho que vou começar a fazer uma lista mensal dos melhores filmes que eu assisti pela primeira vez no mês anterior. É um bom jeito de resumir tudo o que eu assisti em um mês pra que eu possa encontrar meus favoritos do ano mais rapidamente quando for fazer a lista final (eu tanto manter um controle de tudo com listas no Letterboxd mas eu também esqueço de atualizar aquilo lá de vez em quando.

Esses foram os melhores filmes que eu vi em agosto:

  1. Mormaço (Marina Meliante, 2018) — impressões no Festival de Gramado;
  2. A Garota Desconhecida (La fille inconnue, Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2016) — review no Letterboxd;
  3. 3 Mulheres (3 Women, Robert Altman, 1977) — impressões no Letterboxd;
  4. The Rider (Chloé Zhao, 2017);
  5. No Coração da Escuridão (First Reformed, Paul Schrader, 2017).

Não dá pra não falar dos dois excelentes curtas que eu pude ver esse mês também: Antes do Lembrar (de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes — impressões pós-Festival), um belíssimo filme ensaio sobre o que nos faz criar memórias e o que o tempo faz com essas histórias; e Os Hinos de Moscóvia (impressões no Letterboxd), um dos vencedores do Oberhausen que o MUBI trouxe esse ano, com uma ideia simples e surpreendente que me fez olhar a arquitetura de um jeito completamente novo.

O que eu assisti ontem à noite é um post rápido todas as manhãs com algumas impressões dos filmes e séries que eu assisti na noite anterior.

Um pássaro no peitoril de uma janela em um dia de sol

24 Frames (Abbas Kiarostami, 2017)

Ontem eu pude rever o último filme do meu diretor favorito. Eu escrevi mais sobre ele aqui, quando eu vi ele na Mostra ano passado, e aqui, depois de dar uma chorada ontem.

Eu não tenho muito o que falar sobre ele ainda, eu ainda tô descobrindo o que é 24 Frames, mas ele com certeza é um dos meus filmes favoritos. Ele me emociona ao perceber como o tempo passa rápido e devagar ao mesmo tempo. Como a morte é fria, mas a vida cerca ela. Como a vida continua, como o vento segue em frente. Eu não consigo não me emocionar pensando nesses pequenos significados de 24 Frames, e o que eles parecem sugerir para um diretor no fim de sua vida. O que ele, o filme e o diretor, significam pra mim.

No fim das contas eu fico triste que esse é o último filme do meu diretor favorito. Mas eu fico feliz que ele o fez. 24 Frames vai me acompanhar pro resto da minha vida, e provavelmente vai seguir em frente depois que ela acabar também.

O que eu assisti ontem à noite é um post rápido todas as manhãs com algumas impressões dos filmes e séries que eu assisti na noite anterior.

Esse fim de semana eu fui no Festival de Cinema de Gramado pra assistir à mostra de curtas gaúchos e dar uma conferida nos longas da mostra principal. Aí vai o que eu mais gostei.

18 e 19/08

Imagem do filme Antes do Lembrar Antes do Lembrar

Mostra de Curtas Gaúchos

O grande vencedor da noite foi Um Corpo Feminino, documentário que levou os prêmios de roteiro e filme. É emblemático e necessariamente conflitante — com uma entrevista negando a outra tanto quanto a complementa. É um lindo filme que eu queria ter visto mais, talvez desse um bom longa. Meu favorito da mostra, porém, é Antes do Lembrar, um lindo filme-ensaio que explora como as histórias se formam e como as significamos. É lindo e ambicioso — vai do paleolítico ao núcleo familiar de uma aldeia indígena. Íntimo e vasto ao mesmo tempo.

19/08

Imagem do filme Mormaço

Mormaço (2018)

O filme de estreia de Marina Meliande é fantástico. Literalmente, mas também qualitativamente. Um drama e mistério sobre uma advogada trabalhando para defender uma comunidade que precisará ser desalojada com as obras das Olimpíadas do Rio de 2016 enquanto ela mesma precisa pensar sobre ela ter que se mudar também. Quero dar um tempo pra escrever mais, mas por enquanto isso: Mormaço transforma em imagem o quão estressante e avassalador é quando nossas comunidades são destruídas. Um grande filme que também compreende que algo delas perdura, não importa o que as destrua. É um dos meus favoritos do ano.

O que eu assisti ontem à noite é um post rápido todas as manhãs com algumas impressões dos filmes e séries que eu assisti na noite anterior.

O candidado à prefeito de Nova York, Anthony Weiner, dando uma entrevista
em uma praça pública

Weiner (2016)

Uma das coisas que eu gosto em Veep, a comédia da HBO sobre a (agora ex) vice-presidente dos EUA Selina Meyer, é como a graça da série é também extremamente dolorosa. A gente ri da total incapacidade de empatia e da completa falta de conexão com o mundo que a Casa Branca tem. E eu já escutei que Veep, mais que outras séries “sérias” sobre a política dos EUA como The West Wing, é o que há de mais próximo da realidade, tanto em como as coisas operam dentro do congresso americano, tanto do linguajar dos personagens.

Bem, Veep é ficção, mas Weiner é um documentário, quase uma reportagem, sobre como o candidato democrata a prefeito da cidade de Nova York consegue se destruir e se afundar no lodo que ele cria ao redor de si mais e mais, e como ele é incapaz de enxergar o mundo de outra forma que não seja fazendo as pessoas quererem votar nele e comprarem as brigas dele. É um excelente documentário sobre como ele se destrói, claro, mas o filme se transforma em um bom retrato da queda do partido democrata nas eleições de 2016 (o Trump aparece, inclusive, e Hillary é uma presença em todo o filme — é meio que profético).

Vendo hoje, passadas as eleições e com o Weiner até preso, esse é um filme de Huma, e como ela se confronta na ideia de defender sua própria vida do marido e das opiniões externas. Não tem alguém que queira se arrastar para fora do quadro mais que Huma quando as fotos começam a vazar, e é doloroso de assistir ela se afastando mais e mais da vida que ela construiu ao lado de um cara que se afundou completamente e fez questão de levar ela junto.

Assisti na Netflix e eu recomendo muitíssimo, foi uma revisão que me impressionou mais e mais nessa segunda vez.

O que eu assisti ontem à noite é um post rápido todas as manhãs com algumas impressões dos filmes e séries que eu assisti na noite anterior.

Acabei acumulando o fim de semana, a sexta e a segunda, mas bola pra frente que foi uma cambada de filme bom!


10/08

Duas mulheres se abraçam em uma piscina vazia, com pinturas grotescas nos azulejos

3 Mulheres (Three Women, 1977)

É o filme mais diferente que eu assisti do Robert Altman, e agora é também o meu favorito dele. Não porque é diferente — Altman é um diretor que eu amo assistir, como ele cria e percorre por várias histórias que parecem sem rumo e sem conexão, mas que se complementam temática e emocionalmente. Não é bem isso que acontece em 3 Mulheres. Também é um filme de multiprotagonistas bem distintas, mas a trama é justamente sobre suas distinções começarem a se conectar e se confundir até que suas personalidades começam a trocar. É o diretor explorando aquilo que o interessa em seus outros filmes de uma forma absolutamente singular.

Não é à toa que o filme é fruto de um sonho do diretor. É palpável como é um filme que não respeita muito das lógicas que Altman aplica a seus filmes (acho que é o filme onde ele menos exercita sua empatia por todos os personagens) e como justamente isso parece criar essa sensação de surrealidade, onde nada parece fazer muito sentido, mas faz muito sentido estarem juntas nessa lógica própria que elas possuem. É lindo e perturbador. Sissy Spacek tem essa qualidade alienígena de dar a impressão que sua personagem se expressa e é aberta ao mesmo tempo que nunca é possível entender completamente seus sentimentos (é justamente o que faz sua personagem ser tão marcante também em Terra de Ninguém), e a Shelley Duvall tá sensacional percebendo que está vivendo num sonho real.

Assisti no Popcorn Time.


11/08

A estação espacial Estrela da Morte vista do espaço

Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, 2016)

Eu dei uma pirada no Letterboxd tentando explicar tudo o que esse filme faz de bom, e como ele ainda assim é decepcionante. O “problema” é que ele é decepcionante só no final — quando entrega um último ato onde finalmente um filme do Star Wars tem a coragem de se transformar em um filme de guerra, de observar os dois lados e ver o peso do conflito. É um excelente terceiro ato em um filme que simplesmente não o suporta. Ainda quer muito ser um filme Star Wars, e precisa pagar as cartas marcadas de ter uma história de honrar/questionar sua família para poder tornar-se o que é, e tem toda aquela nóia da Força que por algum motivo é o que mais chama a atenção nessa série desde os prequels. É uma pena, porque o diretor cria imagens fantásticas e não consegue sustentar elas nesse vai e não vai. Queria tanto que abrasasse o gênero que ele tá flertando, seria algo novo e fascinante para essa série, mas acabou se transformando em um Episódio 3.5.

Dois homens conversam em uma sala de projeção de cinema

Assisti no Telecine Play.

Grandeur et décadence d’un petit commerce de cinéma (1986)

É um telefilme do Jean-Luc Godard. Eu achei que seria bem mais acessível, mas na verdade é bem godardiano. Eu não tenho muita capacidade mental pro que Godard faz, mas eu sou fissurado em assistir o que ele faz mesmo assim. Aqui o que mais me interessou foi ver como ele usa a TV — ele tem uma excelente explicação do que diferencia TV e cinema que um dia tenho que postar por aqui — para contar uma história banal como essa. É bem mais ensaístico (e bem humorado) do que eu esperava que fosse pra um Godard dos anos 1980, e eu não tenho lá uma opinião formada por esse filme. É mais uma das descobertas que eu só tenho que agradecer pelo MUBI ter colocado em exibição.

Assisti no MUBI. Saiu no domingo.


12/08

Uma doutora escuta, através do estetoscópio, o movimento no estômago de um adolescente

A Garota Desconhecida (La Fille inconnue, 2016)

Eu tenho que me lembrar o quanto eu amo os filmes dos diretores Jean-Pierre e Luc Dardenne. São extremamente humanistas e contam essas pequenas histórias de pessoas tentando levar suas vidas enquanto enfrentam algo que evita que elas sigam em frente. Em A Garota Desconhecida, é sobre uma jovem médica que substitui um doutor em uma clínica familiar enquanto aceita uma oferta de emprego em uma clínica conceituada. Até que ela não abre a porta do consultório à noite e, na manhã seguinte, descobre que uma mulher morreu ali perto. É uma obra prima de delicadeza, como todos os filmes do Dardenne são, mas também é um filme de detetive, onde as ações da nossa detetive são basicamente cuidar e se importar com a comunidade que ela está atendendo. É belíssimo e extremamente sutil em sua abordagem — e nos lembra sobre como os problemas sociais que nos cercam também são nossos, mesmo que não nos afetem diretamente.

Assisti no Telecine Play. Eu recomendo muitíssimo, é um dos meus favoritos do ano.

Uma mulher olha ao redor assustada enquanto um assassino se aproxima dela por trás

A Morte Te Dá Parabéns! (Happy Death Day, 2017)

Perdi de assistir esse filme no cinema quando meus amigos vieram todos me recomendar e… bem, não gastei grana à toa, mas A Morte Te Dá Parabéns! é bastante divertido. Eu sou mais um fã de terror como Corrente do Mal e A Bruxa, onde a gente não entende muito bem o que está nos dando medo, mas A Morte Te Dá Parabéns! é quase que uma comédia de como os erros matam a protagonista até ela conseguir fazer um level perfect em um jogo onde o jogo é a própria vida dela. A sacada é boa e o filme aproveita pra fazer umas coisas bem divertidas. Com certeza vou assistir com a Aldry e a Paola quando a gente se juntar pra comer pipoca e brigadeiro de novo.

Assisti no Telecine Play.

Uma garota toma banho de piscina

Sharp Objects 1x6: Cherry (2018)

O primeiro episódio que eu não adorei de Sharp Objects é também um episódio que eu particularmente achei um saco. Eu adoro como essa série desenvolve muito mais a sensação da protagonista de estar na cidade onde passou sua infância e como tudo isso traz boas e más memórias e é difícil de escolher o que você vai sentir ao mesmo tempo, mas Cherry não explora nada novo, e ao mesmo tempo mantém o mistério — que serve como desculpa nessa série — em um banho maria bem sem graça. Talvez seja um episódio que realmente signifique algo quando a gente entender plenamente o que passa na cabeça de Camille e quando descobrirmos o que realmente aconteceu com sua irmã, mas caramba não precisava castigar tanto assim a gente, né?

Assisti no HBO Go.


13/08

Philippe Petit se equilibra na corda bamba estendida entre as duas Torres Gêmeas

O Equilibrista (Man on Wire, 2008)

Eu não esperava me emocionar tanto com a história do homem que fez a performance na corda bamba entre as Torres Gêmeas, mas James Marsh (o diretor do belíssimo Projeto Nim) está muito mais preocupado com as pessoas que se aventuraram a tornar tudo isso possível — e a empolgação delas para fazer essa performance, em tornar um espaço público tão não natural em um palco. É também um belo retrato de como isso foi o fim de um grupo de amigos, que seguiram para fazer outras coisas em seu próprio caminho depois, e o quão natural (mesmo que triste) é perceber que, depois de tanto, a gente não precisa mais fazer parte da vida das pessoas que amamos. Extremamente pessoal e inacreditável de assistir, O Equilibrista foi um ótimo filme pra começar a semana.

Assisti no Telecine Play.