Irrelefante

Pessoas (i)

Ontem a gente se encontrou na rodoviária durante mais ou menos dez minutos. Tu tava com frio e se recusou, duas vezes, a pôr meu casaco. Acho que, nesses últimos meses que nos separamos, foi a maior mudança que pude reparar em ti. Durante os meses de abril até agosto, minhas flanelas eram também as tuas, durante nossas aulas, nossas idas ao cinema ou nossos almoços no Macropan.

A gente reviveu centenas de vezes, durante esses quatro anos, como começamos a conversar. Eu, irritado, troquei de lugar durante uma aula de matemática para atrás da tua classe. Quando o Zé fez alguma pergunta, o Ingo respondeu, eu resmunguei, tu resmungou de volta. Quem diria. Planejaríamos a morte do Ingo algumas dezenas de vezes depois desses resmungos, ele desapareceria, e nós comentaríamos que, claro, nossos planos deram certo. Esse foi nosso primeiro ano.

Até hoje lembro que passar aquelas tardes, antes do primeiro ano de Francês, ouvindo música e comentando sobre absolutamente tudo. Que saudade desse ócio, de nossas brigas que, invariavelmente, resultavam em algo meu atirado janela afora. Nossos deboches contínuos para nós mesmos, nossos livros compartilhados. Nossas opiniões conflitantes sobre filmes. Aquelas tardes eram eternas, e eram deliciosas. Deitar na mesona da sala quatro e ficar mirando o teto, discutindo sobre temas tão filosóficos quanto inúteis, naquele ano ajudou a tornar, pra nós dois, o IF como um segundo lar.

Os três anos seguintes, que incluiram idas a feiras, estadias noturnas no IF, jantas desastrosas, overdoses de doces, mais idas ao cinema, tombos espetaculares e guerras particulares sobre a qualidade de “O Jogo do Anjo”, foram uma jornada a parte nossa por aquela escola. Nós brigamos e retomamos do ponto que paramos. Distanciamos e voltamos, uma e duas e três vezes, ao convívio um do outro, até que, nesse fevereiro, acabou de vez.

A gente ainda se encontra pra jantar uma ou duas vezes por mês, a gente ainda se fala quase todos os dias pelo Facebook, mas eu sinto uma falta tremenda de, às 7h45 (porque tu nunca chegava na hora), ouvir tu reclamando enquanto arrasta a tua mesa pra perto da minha, da Aldry, da Fernanda e do Yan, pra mais uma aula de matemática, ou de física, ou de LP3. Sinto falta de te derrubar, na frente de toda a escola, no horário de saída, e ter o incrível feito de cair junto. Ou de te buscar, durante a aula de PI, pra tomarmos um café (porque JavaScript nos três primeiros períodos de quarta-feira matavam qualquer um).

Talvez a gente não vá mais ter esse convívio diário; talvez, por ironia do destino, a gente vá. Talvez o tempo nos distancie, ou talvez não. Eu não mando nisso, eu não posso controlar isso. E nem tu. Mas eu vou lembrar sempre de que tu toma café com leite porque te ensinei a comer um chocolate antes, pra ficar mais saboroso; e que tu vai olhar pra tua estante, ver aquele volume velho, amassado e sujo de café de “A Sombra do Vento”, e vai lembrar que um amigo, lá atrás, que durante quatro anos brigou, brincou, caiu e se divertiu contigo, te apresentou o jovem Daniel Sempere e que, naquelas ruas da Barcelona do Zafón, nós encontramos uma amizade.

Talvez, lá pra frente, a gente tenha que se reencontrar e conversar através de “A Sombra do Vento”. Talvez não. Seja o que for, valeu muito a pena ter descoberto, na Marciele daquele primeiro ano do IF, uma amizade que realmente valeu toda a viagem.