Irrelefante

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O novo corte de A Árvore da Vida tenta decifrar o filme original

O que torna A Árvore da Vida um filme tão especial pra mim é esse sentimento de que ele conta a maior e a menor das histórias, ao mesmo tempo, como se o filme fosse um espírito vagando pelo mundo tentando compreender o que essas memórias — das maiores, como o nascimento do universo, às menores, como o nascimento de uma criança — podem significar. Elas podem significar nada, é claro, mas as vezes, quando esse bebê aprende a andar ou planeta “aprende” a gerar vida, elas podem significar tudo.

Essa modulação da grandiosa história do universo e da íntima história de Jack, um garoto crescendo nos subúrbios texanos na década de 1950, é tratada em A Árvore da Vida de uma maneira que parece negar uma “forma”. Talvez seja errado considerar que, no cinema de Terrence Malick, uma imagem leva à outra. Ao menos aqui elas parecem gerar umas às outras num fluxo contínuo e inexplicável que nunca deixa de parecer ser a única forma possível de contar tanta coisa ao mesmo tempo. É natural que a história da família O’Brien fique de lado enquanto observamos um cachorro atravessar a rua com uma pata manca. Quando um filme nos apresenta tudo com tanta vida como A Árvore da Vida, parece ser natural que tudo se inclua nessa história, que se enquadre tão bem no plano, que siga existindo mesmo quando sai do quadro.

É um filme que parece ser construído à perfeição justamente porque é possível sentir essa falta de forma. Malick construiu em sua obra-prima uma representação da natureza, pura e simplesmente, vista além do humano — ou, mais difícil ainda, questionando-se como é olhar pra vida sem ser um humano, e se é possível fazer isso. É um filme onde a narrativa se constrói perante nossos olhos, nunca parece pré-moldada. O que esse novo corte (com uma hora a mais de filme!) traz, então, é clareza. Ideias que pareciam apenas existir em meio ao tumulto do crescimento, como a paixonite jovem de Jack ou o impulso de roubar a roupa íntima da mãe, ganham mais desenvolvimento. Os próprios pais ganham uma construção narrativa — o pai do Sr. O’Brien inclusive ganha uma sequência inteirinha pra ele; a vontade de independência alimenta ainda mais o mistério (e as comparações com a natureza) da Sra. O’Brien.

Em um filme tão único e tão perfeito em sua imperfeição como é A Árvore da Vida, essas cenas adicionais se tornam muito mais curiosas do que realmente necessárias. Elas não chegam a quebrar o fluxo de imagens que Malick constrói, mas elas realmente se fazem sentir. A história da família O’Brien não é mais apenas o núcleo de uma história maior, um prisma pelo qual a gente pode assistir todo o resto, ela é a história dessa versão estendida do filme — e o futuro de Jack e o passado absoluto parecem estar lá muito mais para serem lados opostos da convergência entre o pai e a mãe. É, ao seu modo, uma nova Árvore da Vida, um filme que sempre será incompleto porque sua imensidão temática não cabe em lugar algum (e que Malick volta a dissecar, de formas diferentes, em todos os seus filmes depois dele — Viagem do Tempo é basicamente a sequência espacial em forma de longa-metragem; enquanto algumas cenas adicionais aqui parecem resquícios de Cavaleiro de Copas).

Se essa versão estendida fez algo em mim — que não conseguia parar para me concentrar em suas lindas imagens, seu avassalador uso do som, e sua catártica destruição emocional porque eu mesmo contemplava o fim do país ao mesmo tempo em que o universo surgia na tela — foi me apaixonar mais pela Árvore da Vida anterior, um filme que cada vez mais parece ambicioso por tentar compreender como o planeta nos enxerga: belo pelo que pode alcançar, triste porque é breve, furioso porque não consegue sempre compreender o mundo ao seu redor. Quando consegue, porém, enxerga um garoto tocando violão à luz do sol, se transformando no próprio som do bosque. Algo une tudo isso, A Árvore da Vida não sabe exatamente o que é, mas faz de tudo para nos fazer enxergar.

Spore faz 10 anos

Imagem do jogo Spore Essa imagem revela muito sobre a minha personalidade.

Hoje é 5 de setembro e eu recebi uma notificação no meu email sobre um novo post nos fóruns de Spore, fóruns que eu modero há mais de uma década já. O título do post é “Pessoal, lembrem-se que o aniversário de Spore é dia 7 de setembro”.

Errado.

Errado, porque Spore é o jogo mais importante da minha breve existência. Foi o jogo que me interessou por game design. Foi o jogo que me fez querer aprender a fazer sites, e que acabou me dando emprego. Foi o jogo que eu encontrei uma comunidade na internet que me deu abrigo e me animou por várias madrugadas, quando era na madrugada que eu podia acessar a internet. E o meu Spore chegou em 5 de setembro de 2008. Pelo menos a caixa dele chegou nesse dia. A caixa branca, laminada, que vinha um jogo, um documentário sobre o jogo, um manual caprichado e um livro sobre o desenvolvimento. Eu li aquele livro zilhões de vezes. Eu tenho passagens dele decoradas na minha mente.

Spore chegou muito antes de 2008 na minha vida, pra falar a verdade, e seus impactos vão durar muito mais do que esses dez anos. Em 2005 eu ganhei dos meus pais The Sims 2, e passava meus dias jogando. Na madrugada, eu ficava acessando o OSimBR pra baixar mods, ou o exchange pra baixar conteúdo personalizado. Dia 9 de agosto de 2005 (eu lembro bem, era a madrugada do aniversário da minha mãe), eu vi uma notícia sobre o novo jogo do criador de The Sims. Eu me apaixonei.

Eu passei a madrugada lendo sobre esse novo jogo. “Um simulador que fará você controlar uma criação desde a fase molecular até o império galáctico” a prévia no UOL Jogos dizia. “Tudo no jogo será criado pelos jogadores, e será distribuído automaticamente na internet” prometia a prévia do GameSpot. Eu nunca me empolguei tanto por algo quanto por aquele jogo que a gente mal tinha visto em 2005. Spore era a promessa mais empolgante de todas. Um jogo definitivo.

Eu tinha 11 anos naquela época, e aquela madrugada deve ter durado umas duas semanas. Eu aprendi a criar um blog no Blogger. Eu comecei a postar todas as notícias que eu encontrava nesse blog. Por três anos, eu conheci pessoas que também assistiram e liam as notícias que eu li, entrei em contato com a Electronic Arts, aprendi a desenvolver sites. Tudo porque eu estava apaixonado por um jogo que, a cada notícia, era adiado. A cada novo vídeo, um recurso era descartado. Spore foi a maior promessa do mundo dos jogos, e foi uma das maiores decepções também.

Não que eu seja amargurado quanto a isso. Eu amo o jogo que eu joguei em 2008, eu amo até hoje. Spore foi o primeiro jogo que me deu liberdade e confiança de fazer o que eu bem entendesse, e me retribuía. Do jeito atrapalhado e insignificante, mas ele retribuía. Em 2006 meu pai comprou um computador pra que eu e minha irmã pudéssemos jogar The Sims sem ficar enfurnando ele pra sair do computador dele (sábio e paciente, sempre), e em junho de 2008 eu fiz o meu primeiro investimento: economizei tudo o que eu podia pra comprar uma placa de vídeo pro computador poder jogar Spore. Quando o jogo finalmente chegou, meses depois, e eu finalmente instalei ele, eu senti que eu nunca mais precisaria sair da frente do computador. Tudo o que eu queria estava ali.

É um jogo decepcionante. Não tinha como não ser. Havia bugs, vários, mas eles eu nem me incomodava. O jogo era bonito, e isso que me interesava. Eu podia espichar aquele pedaço de massinha de modelar pra qualquer lado, e criar uma banana que sabia voar. Era isso que sempre me animou em Spore. O maior problema é que eu não me interessava muito pelo jogo onde eu podia levar aquela banana a ser um desbravador do meu planeta. A Maxis soube fazer simuladores de cidade como ninguém, mas na tentativa de não tornar Spore em algo maçante, eles tornaram o simulador de cidade — um dos vários jogos dentro de Spore — em algo extremamente chato. O maior problema do jogo talvez seja esse: é um jogo com uma excelente ideia, mas que os jogos que os compõe são mais sombras de ideias melhores (Pac-Man, The Sims, Populous, Civilization) do que necessariamente jogos bons. Não interessava muito o que você fazia no jogo, porque o jogo não tinha muito interesse em te fazer mergulhar nessas fases como as inspirações dele tinham. Mesmo a melhor coisa de Spore, suas ferramentas de criação, se tornavam algo chato: é incrível poder criar sua criatura, e editá-la quando quiser, mas quando você chega no estágio de Civilização o jogo quer que você, já no início, crie vários edifícios e veículos. O que era bom ficava cansativo.

Foi uma noite complicada, essa do 5 de setembro de 2008. Eu estava dividido entre a empolgação de finalmente jogar o jogo que eu passei anos esperando, e o gosto amargo da decepção de ele não ser muito bom. Foi quando o criador abriu uma última vez, e me pediu pra criar uma nave. Foi quando a nave que eu criei começou a diminuir e diminuir, até que o planeta que eu estava virar um pontinho no meu monitor de 1024x768. E o sol da minha estrela diminuiu e diminuiu, até ele mesmo virar um pontinho na minha tela. Spore me mostrava a galáxia. E eu poderia viajar pra qualquer ponto dela.

Eu me apaixonei por Spore de novo naquele instante.

Não é um jogo perfeito, mas Spore é um jogo fascinante. Seja pelo que ele fez de errado, seja pelo que ele quis fazer certo. Seja pelo que ele faz muito bem. Quando eu atingo o estágio espacial de Spore, e preciso guiar minha civilização pra ter uma boa relação com outros alienígenas, que eu preciso encontrar planetas pra colonizar e estabelecer rotas comerciais com outras espécies, e que a próxima estrela que eu visito é um planeta em forma de cubo, ou tem um artefato misterioso pra minha coleção; eu lembro do jogo que me foi prometido em 2005, e que ainda vive, meio torto, meio confuso, no meio daquilo tudo: um jogo infinito, que eu posso explorar pra sempre, e que vai me retribuir com algo novo e lindo sempre que eu estiver disposto a voltar pra ele, porque ainda há uma comunidade viva ao seu redor, e porque essa comunidade continua criando coisas fantásticas, e porque no fim de tudo, Spore, o maior jogo de todos e o pior jogo de todos, é lindo por ser como aquilo que ele nos permite criar: desengonçado, mas único.

Eu vou continuar recebendo notificações do fórum de Spore enquanto o jogo sobreviver. E eu espero que sobreviva mais um tempo. Já são 10 anos, e nenhum outro jogo almejou ser tão grande como Spore, e certamente nenhum outro jogo conseguirá ser como Spore. Não haverá outro Spore, mas eu sempre vou ter o meu. Spore é um verdadeiro paradoxo. Falho, mas fascinante. Imperfeito, mas lindo como nenhum outro jogo foi.

E vai ser por muito tempo o meu jogo favorito.

Firefox bloqueará rastradores, Google rastreia compras físicas com cartão de crédito

Eu li duas notícias hoje.

A primeira me deu um alívio: o Firefox 65 vai entrar na briga com o Safari e bloquear rastreadores automaticamente.

Nick Nguyen, no blog oficial da Mozilla:

Tracking slows down the web. In a study by Ghostery, 55.4% of the total time required to load an average website was spent loading third party trackers. For users on slower networks the effect can be even worse. (…)

In order to help give users the private web browsing experience they expect and deserve, Firefox will strip cookies and block storage access from third-party tracking content. We’ve already made this available for our Firefox Nightly users to try out, and will be running a shield study to test the experience with some of our beta users in September. We aim to bring this protection to all users in Firefox 65, and will continue to refine our approach to provide the strongest possible protection while preserving a smooth user experience.

Eu voltei pro Firefox no final do ano passado com o lançamento do Quantum, e eu não poderia estar mais feliz. Ele ainda não é tão leve quanto o Safari, mas é difícil de brigar com um aplicativo nativo da Apple. Mesmo assim, é bom ter um navegador full-featured como o Firefox com a sensação de estar com a melhor versão possível da internet à sua disposição. Ele não tá só rápido: ele tá responsivo e batendo forte ao redor dos novos padrões web, coisa que decaiu muito quando o Chrome assumiu a liderança dos navegadores.

É o tipo de estratégia que o Google usou pra destronar o IE, e Firefox e Safari (e, se a Microsoft se unir à briga, o Edge) quiserem, essa é a estratégia certa para derrubar a dominância do Chrome (e levar a onipotência do Google junto).

A segunda me deixou com aquele gosto amargo de novo: Google e MasterCard criaram acordo para rastrear compras físicas.

Bloomberg:

For the past year, select Google advertisers have had access to a potent new tool to track whether the ads they ran online led to a sale at a physical store in the U.S. That insight came thanks in part to a stockpile of Mastercard transactions that Google paid for.

But most of the two billion Mastercard holders aren’t aware of this behind-the-scenes tracking. That’s because the companies never told the public about the arrangement. (…)

Through this test program, Google can anonymously match these existing user profiles to purchases made in physical stores. The result is powerful: Google knows that people clicked on ads and can now tell advertisers that this activity led to actual store sales.

Segundo o Google, os anunciantes não podem ver quem compra o quê, a informação é anônima. Mesmo assim, só a possibilidade de conseguir rastrar o que está fora dos alcances do Google parece absolutamente errado. Dando esse tipo de informação pro anunciante dá indiretamente o poder a ele de rastrear o comprador para além do alcance dos seus anúncios (como se os rastreadores que o Google mantém na web se mantivessem no mundo real também).

Como aponta Yuyu Chen, isso é um problema porque é o Google que vende os anúncios e o Google que monitora o comportamento deles:

The issue of Google and Facebook grading their own homework is still a big concern for marketers, as recently underscored by WPP CEO Martin Sorrell. Because of the inherent conflict of interest, Crossmedia CEO Kamran Asghar said his agency would never use attribution services from Google or Facebook.

“We do our best to avoid any vendors — be it media or tech — that pose a conflict of interest,” said Asghar. “Google is a media company, and, therefore, clients should monitor it — and all channels — with credible third parties who are independent of selling media.”

O Google sempre foi anticonsumidor em suas tentativas de agradar o mercado publicitário. As estratégias do Google são muito semelhantes às do Facebook nessa verdadeira indústria do capitalismo de vigilância: obter o máximo possível de dados dos seus clientes, embaralhar o mínimo possível para não se ferrarem judicialmente, e entregar ao cliente publicitário.

É ótimo que empresas como Apple e Microsoft e fundações como a Mozilla estejam trabalhando para diminuir o poder do Google sobre a informação das pessoas que acessam seus serviços, mas é triste perceber que já é tarde demais: eles já estão correndo do outro lado da tela também.

Redesign

A página inicial do meu site

Ontem eu decidi fazer um redesign do meu site pessoal, algo que eu queria fazer há um tempo já. Eu nunca fiquei muito satisfeito com ele, e eu também nunca parei pra pensar o porquê, mas ontem eu sentei de noite e decidi refazer ele dentro de algumas horas. Na verdade eu ia assistir O Samurai do Jean-Pierre Melville, mas meu blu-ray não reconheceu o arquivo e eu tive que rever alguns episódios de Gilmore Girls e decidi que tinha que dar um jeito nesse site de uma vez.

A ideia principal era tornar ele simples e fácil de gerenciar. Eu queria fazer algo que refletisse bem o meu método de trabalhar — claro, simples, direto — e que, principalmente, envelhecesse bem. Então o design teria que ser algo que eu simplesmente não enjoasse só de olhar, que é basicamente o meu problema com cada um dos designs que já passaram pelo meu site.

O resultado final é um site basicamente de texto, usando as famílias de fonte padrão do sistema operacional e, mais importante, em preto e branco. Eu posso passar horas perdido tentando definir uma combinação de cores que me agrade pros meus projetos, e não era algo que eu gostaria de fazer com um site que deveria ser reprojetado em uma só noite, então eu segui pelo caminho mais simples (e gostei bastante).

Meu site agora está com apenas uma imagem (a do meu Mii, no cabeçalho) e pesa ao todo 89kb. Eu não carrego nenhum JavaScript, e ele tem apenas três arquivos HTML e um CSS mísero. E eu nunca estive tão contente com o resultado. É bem direto, mas é sutil em espaçamentos e legibilidade, e eu acho que reflete bem o meu método de trabalho com meus clientes. Eu espero que sim. Pela primeira vez eu vejo que meu site finalmente tem um design que vai me deixar feliz com ele por um bom tempo, e eu espero que não precise redesenhá-lo no próximo ano de novo como eu fiz umas três vezes em 2018. Ele está calmo, claro, e na medida certa pro que eu preciso daqui pra frente.


(Se você quiser fazer um site bacana, me envia um email e vamos conversar sobre como posso te ajudar).

Os melhores filmes de agosto

Eu acabei deixando de fazer os posts sobre o que eu assisti no dia anterior essa última semana porque eu não assisti nada nos dias anteriores. Eu andei meio doente e preocupado porque eu estava doente (eu não costumo ficar mal do jeito que eu fiquei no inverno), mas agora que tá tudo bem eu pretendo voltar à minha programação de assistir filmes diariamente.

Acho que vou começar a fazer uma lista mensal dos melhores filmes que eu assisti pela primeira vez no mês anterior. É um bom jeito de resumir tudo o que eu assisti em um mês pra que eu possa encontrar meus favoritos do ano mais rapidamente quando for fazer a lista final (eu tanto manter um controle de tudo com listas no Letterboxd mas eu também esqueço de atualizar aquilo lá de vez em quando.

Esses foram os melhores filmes que eu vi em agosto:

  1. Mormaço (Marina Meliante, 2018) — impressões no Festival de Gramado;
  2. A Garota Desconhecida (La fille inconnue, Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2016) — review no Letterboxd;
  3. 3 Mulheres (3 Women, Robert Altman, 1977) — impressões no Letterboxd;
  4. The Rider (Chloé Zhao, 2017);
  5. No Coração da Escuridão (First Reformed, Paul Schrader, 2017).

Não dá pra não falar dos dois excelentes curtas que eu pude ver esse mês também: Antes do Lembrar (de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes — impressões pós-Festival), um belíssimo filme ensaio sobre o que nos faz criar memórias e o que o tempo faz com essas histórias; e Os Hinos de Moscóvia (impressões no Letterboxd), um dos vencedores do Oberhausen que o MUBI trouxe esse ano, com uma ideia simples e surpreendente que me fez olhar a arquitetura de um jeito completamente novo.

O que eu assisti ontem à noite é um post rápido todas as manhãs com algumas impressões dos filmes e séries que eu assisti na noite anterior.

Um pássaro no peitoril de uma janela em um dia de sol

24 Frames (Abbas Kiarostami, 2017)

Ontem eu pude rever o último filme do meu diretor favorito. Eu escrevi mais sobre ele aqui, quando eu vi ele na Mostra ano passado, e aqui, depois de dar uma chorada ontem.

Eu não tenho muito o que falar sobre ele ainda, eu ainda tô descobrindo o que é 24 Frames, mas ele com certeza é um dos meus filmes favoritos. Ele me emociona ao perceber como o tempo passa rápido e devagar ao mesmo tempo. Como a morte é fria, mas a vida cerca ela. Como a vida continua, como o vento segue em frente. Eu não consigo não me emocionar pensando nesses pequenos significados de 24 Frames, e o que eles parecem sugerir para um diretor no fim de sua vida. O que ele, o filme e o diretor, significam pra mim.

No fim das contas eu fico triste que esse é o último filme do meu diretor favorito. Mas eu fico feliz que ele o fez. 24 Frames vai me acompanhar pro resto da minha vida, e provavelmente vai seguir em frente depois que ela acabar também.

O que eu assisti ontem à noite é um post rápido todas as manhãs com algumas impressões dos filmes e séries que eu assisti na noite anterior.

Esse fim de semana eu fui no Festival de Cinema de Gramado pra assistir à mostra de curtas gaúchos e dar uma conferida nos longas da mostra principal. Aí vai o que eu mais gostei.

18 e 19/08

Imagem do filme Antes do Lembrar Antes do Lembrar

Mostra de Curtas Gaúchos

O grande vencedor da noite foi Um Corpo Feminino, documentário que levou os prêmios de roteiro e filme. É emblemático e necessariamente conflitante — com uma entrevista negando a outra tanto quanto a complementa. É um lindo filme que eu queria ter visto mais, talvez desse um bom longa. Meu favorito da mostra, porém, é Antes do Lembrar, um lindo filme-ensaio que explora como as histórias se formam e como as significamos. É lindo e ambicioso — vai do paleolítico ao núcleo familiar de uma aldeia indígena. Íntimo e vasto ao mesmo tempo.

19/08

Imagem do filme Mormaço

Mormaço (2018)

O filme de estreia de Marina Meliande é fantástico. Literalmente, mas também qualitativamente. Um drama e mistério sobre uma advogada trabalhando para defender uma comunidade que precisará ser desalojada com as obras das Olimpíadas do Rio de 2016 enquanto ela mesma precisa pensar sobre ela ter que se mudar também. Quero dar um tempo pra escrever mais, mas por enquanto isso: Mormaço transforma em imagem o quão estressante e avassalador é quando nossas comunidades são destruídas. Um grande filme que também compreende que algo delas perdura, não importa o que as destrua. É um dos meus favoritos do ano.

O que eu assisti ontem à noite é um post rápido todas as manhãs com algumas impressões dos filmes e séries que eu assisti na noite anterior.

O candidado à prefeito de Nova York, Anthony Weiner, dando uma entrevista
em uma praça pública

Weiner (2016)

Uma das coisas que eu gosto em Veep, a comédia da HBO sobre a (agora ex) vice-presidente dos EUA Selina Meyer, é como a graça da série é também extremamente dolorosa. A gente ri da total incapacidade de empatia e da completa falta de conexão com o mundo que a Casa Branca tem. E eu já escutei que Veep, mais que outras séries “sérias” sobre a política dos EUA como The West Wing, é o que há de mais próximo da realidade, tanto em como as coisas operam dentro do congresso americano, tanto do linguajar dos personagens.

Bem, Veep é ficção, mas Weiner é um documentário, quase uma reportagem, sobre como o candidato democrata a prefeito da cidade de Nova York consegue se destruir e se afundar no lodo que ele cria ao redor de si mais e mais, e como ele é incapaz de enxergar o mundo de outra forma que não seja fazendo as pessoas quererem votar nele e comprarem as brigas dele. É um excelente documentário sobre como ele se destrói, claro, mas o filme se transforma em um bom retrato da queda do partido democrata nas eleições de 2016 (o Trump aparece, inclusive, e Hillary é uma presença em todo o filme — é meio que profético).

Vendo hoje, passadas as eleições e com o Weiner até preso, esse é um filme de Huma, e como ela se confronta na ideia de defender sua própria vida do marido e das opiniões externas. Não tem alguém que queira se arrastar para fora do quadro mais que Huma quando as fotos começam a vazar, e é doloroso de assistir ela se afastando mais e mais da vida que ela construiu ao lado de um cara que se afundou completamente e fez questão de levar ela junto.

Assisti na Netflix e eu recomendo muitíssimo, foi uma revisão que me impressionou mais e mais nessa segunda vez.

O que eu assisti ontem à noite é um post rápido todas as manhãs com algumas impressões dos filmes e séries que eu assisti na noite anterior.

Acabei acumulando o fim de semana, a sexta e a segunda, mas bola pra frente que foi uma cambada de filme bom!


10/08

Duas mulheres se abraçam em uma piscina vazia, com pinturas grotescas nos azulejos

3 Mulheres (Three Women, 1977)

É o filme mais diferente que eu assisti do Robert Altman, e agora é também o meu favorito dele. Não porque é diferente — Altman é um diretor que eu amo assistir, como ele cria e percorre por várias histórias que parecem sem rumo e sem conexão, mas que se complementam temática e emocionalmente. Não é bem isso que acontece em 3 Mulheres. Também é um filme de multiprotagonistas bem distintas, mas a trama é justamente sobre suas distinções começarem a se conectar e se confundir até que suas personalidades começam a trocar. É o diretor explorando aquilo que o interessa em seus outros filmes de uma forma absolutamente singular.

Não é à toa que o filme é fruto de um sonho do diretor. É palpável como é um filme que não respeita muito das lógicas que Altman aplica a seus filmes (acho que é o filme onde ele menos exercita sua empatia por todos os personagens) e como justamente isso parece criar essa sensação de surrealidade, onde nada parece fazer muito sentido, mas faz muito sentido estarem juntas nessa lógica própria que elas possuem. É lindo e perturbador. Sissy Spacek tem essa qualidade alienígena de dar a impressão que sua personagem se expressa e é aberta ao mesmo tempo que nunca é possível entender completamente seus sentimentos (é justamente o que faz sua personagem ser tão marcante também em Terra de Ninguém), e a Shelley Duvall tá sensacional percebendo que está vivendo num sonho real.

Assisti no Popcorn Time.


11/08

A estação espacial Estrela da Morte vista do espaço

Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, 2016)

Eu dei uma pirada no Letterboxd tentando explicar tudo o que esse filme faz de bom, e como ele ainda assim é decepcionante. O “problema” é que ele é decepcionante só no final — quando entrega um último ato onde finalmente um filme do Star Wars tem a coragem de se transformar em um filme de guerra, de observar os dois lados e ver o peso do conflito. É um excelente terceiro ato em um filme que simplesmente não o suporta. Ainda quer muito ser um filme Star Wars, e precisa pagar as cartas marcadas de ter uma história de honrar/questionar sua família para poder tornar-se o que é, e tem toda aquela nóia da Força que por algum motivo é o que mais chama a atenção nessa série desde os prequels. É uma pena, porque o diretor cria imagens fantásticas e não consegue sustentar elas nesse vai e não vai. Queria tanto que abrasasse o gênero que ele tá flertando, seria algo novo e fascinante para essa série, mas acabou se transformando em um Episódio 3.5.

Dois homens conversam em uma sala de projeção de cinema

Assisti no Telecine Play.

Grandeur et décadence d’un petit commerce de cinéma (1986)

É um telefilme do Jean-Luc Godard. Eu achei que seria bem mais acessível, mas na verdade é bem godardiano. Eu não tenho muita capacidade mental pro que Godard faz, mas eu sou fissurado em assistir o que ele faz mesmo assim. Aqui o que mais me interessou foi ver como ele usa a TV — ele tem uma excelente explicação do que diferencia TV e cinema que um dia tenho que postar por aqui — para contar uma história banal como essa. É bem mais ensaístico (e bem humorado) do que eu esperava que fosse pra um Godard dos anos 1980, e eu não tenho lá uma opinião formada por esse filme. É mais uma das descobertas que eu só tenho que agradecer pelo MUBI ter colocado em exibição.

Assisti no MUBI. Saiu no domingo.


12/08

Uma doutora escuta, através do estetoscópio, o movimento no estômago de um adolescente

A Garota Desconhecida (La Fille inconnue, 2016)

Eu tenho que me lembrar o quanto eu amo os filmes dos diretores Jean-Pierre e Luc Dardenne. São extremamente humanistas e contam essas pequenas histórias de pessoas tentando levar suas vidas enquanto enfrentam algo que evita que elas sigam em frente. Em A Garota Desconhecida, é sobre uma jovem médica que substitui um doutor em uma clínica familiar enquanto aceita uma oferta de emprego em uma clínica conceituada. Até que ela não abre a porta do consultório à noite e, na manhã seguinte, descobre que uma mulher morreu ali perto. É uma obra prima de delicadeza, como todos os filmes do Dardenne são, mas também é um filme de detetive, onde as ações da nossa detetive são basicamente cuidar e se importar com a comunidade que ela está atendendo. É belíssimo e extremamente sutil em sua abordagem — e nos lembra sobre como os problemas sociais que nos cercam também são nossos, mesmo que não nos afetem diretamente.

Assisti no Telecine Play. Eu recomendo muitíssimo, é um dos meus favoritos do ano.

Uma mulher olha ao redor assustada enquanto um assassino se aproxima dela por trás

A Morte Te Dá Parabéns! (Happy Death Day, 2017)

Perdi de assistir esse filme no cinema quando meus amigos vieram todos me recomendar e… bem, não gastei grana à toa, mas A Morte Te Dá Parabéns! é bastante divertido. Eu sou mais um fã de terror como Corrente do Mal e A Bruxa, onde a gente não entende muito bem o que está nos dando medo, mas A Morte Te Dá Parabéns! é quase que uma comédia de como os erros matam a protagonista até ela conseguir fazer um level perfect em um jogo onde o jogo é a própria vida dela. A sacada é boa e o filme aproveita pra fazer umas coisas bem divertidas. Com certeza vou assistir com a Aldry e a Paola quando a gente se juntar pra comer pipoca e brigadeiro de novo.

Assisti no Telecine Play.

Uma garota toma banho de piscina

Sharp Objects 1x6: Cherry (2018)

O primeiro episódio que eu não adorei de Sharp Objects é também um episódio que eu particularmente achei um saco. Eu adoro como essa série desenvolve muito mais a sensação da protagonista de estar na cidade onde passou sua infância e como tudo isso traz boas e más memórias e é difícil de escolher o que você vai sentir ao mesmo tempo, mas Cherry não explora nada novo, e ao mesmo tempo mantém o mistério — que serve como desculpa nessa série — em um banho maria bem sem graça. Talvez seja um episódio que realmente signifique algo quando a gente entender plenamente o que passa na cabeça de Camille e quando descobrirmos o que realmente aconteceu com sua irmã, mas caramba não precisava castigar tanto assim a gente, né?

Assisti no HBO Go.


13/08

Philippe Petit se equilibra na corda bamba estendida entre as duas Torres Gêmeas

O Equilibrista (Man on Wire, 2008)

Eu não esperava me emocionar tanto com a história do homem que fez a performance na corda bamba entre as Torres Gêmeas, mas James Marsh (o diretor do belíssimo Projeto Nim) está muito mais preocupado com as pessoas que se aventuraram a tornar tudo isso possível — e a empolgação delas para fazer essa performance, em tornar um espaço público tão não natural em um palco. É também um belo retrato de como isso foi o fim de um grupo de amigos, que seguiram para fazer outras coisas em seu próprio caminho depois, e o quão natural (mesmo que triste) é perceber que, depois de tanto, a gente não precisa mais fazer parte da vida das pessoas que amamos. Extremamente pessoal e inacreditável de assistir, O Equilibrista foi um ótimo filme pra começar a semana.

Assisti no Telecine Play.

O que eu assisti… é um pequeno post todas as manhãs sobre o que eu assisti no dia anterior.

Dois homens riem em uma festa

Looking: O Filme (Looking: The Movie, 2016)

Tava feliz que eu tinha revisto alguns bons amigos depois de meses deles terem se mudado pra outra cidade, e decidi rever um filme que é basicamente sobre isso. Eu tenho certeza que Looking: O Filme é um dos maiores fan-services já feitos, mas é um dos melhores também. Os showrunners Michael Lannan e Andrew Haigh criam aqui uma versão da série que cabe muito bem em um filme: um final de semana em que Patrick volta para ver seus amigos depois de fugir de um relacionamento que ia afundar, e se depara com todas as formas que os conflitos que ele não terminou continuam existindo. Haigh é um diretor incrível que cria diferentes dimensões que Patrick precisa atravessar: a cada encontro ele precisa subir uma escada, sair de um túnel ou atravessar um espelho quase que literalmente. Quando alguém finalmente faz isso pra ele, no clímax, é um dos momentos mais belos que a série já fez.

Dirigido por Andrew Haigh, assisti na HBO Go.

Homem nu cobre suas partes íntimas com um porta-retrato

Um Peixe Chamado Wanda (A Fish Called Wanda, 1988).

Eu nunca demorei tanto pra rir em Um Peixe Chamado Wanda como nessa revisão, mas eu também nunca ri tanto depois que começou. Continua sendo extremamente divertido e surpreendente, e cada vez mais um reflexo de duas culturas que se embatem e são necessariamente muito parecidas. É também um filme muitíssimo livre sexualmente, mesmo que não exiba nada gráfico, e espirituoso tanto na demonstração do sexo quanto da violência. É uma obra-prima em como construir personagens e piadas sem se preocupar em levar um tempo, porque sabe que vai retribuir cada segundo dessa confiança do espectador com uma situação necessária. É surpreendente como a gente não ri tanto deles pelo que eles são, mas como o que eles são acabam fazendo com eles. Coitada da peixe chamada Wanda também.

Dirigido por Charles Crichton, assisti no Popcorn Time.

Mãe em uma loja de roupas com sua filha adulta e sua filha adolescente

Sharp Objects, 1x5: Closer (2018)

Essa primeira temporada de Sharp Objects (e talvez única, mas é incerto se toda a minissérie da HBO que faz sucesso vai virar série como Big Little Lies fez) é surpreendente, e cada vez mais interna: Camille está mais e mais próxima de um embate com a mãe, e o golpe dessa semana — ter a certeza de que a mãe nunca a amou, o que ela mesmo confirma com uma calma mortal — pode ser definitivo. É uma descida ao caos interno de Camille que é surpreendente (e Amy Adams é fantástica a cada segundo do episódio), mas a série não para de começar e estender arcos narrativos de outros personagens e dos crimes que catapultaram a narrativa toda, e eu não sei se os próximos três episódios vão conseguir balancear tudo muoto bem. É esperar pra ver.

Dirigido por Jean-Marc Valée, criada por Marti Noxon. Assisti na HBO Go.

“O que eu assisti ontem de noite” é um postzinho rápido toda manhã com algumas considerações sobre o que eu assisti na noite anterior, seja filme ou série.

Um jovem observa seu cavalo pastando numa planície

The Rider (2017)

Eu finalmente consegui assistir um dos melhores filmes do ano, e é absolutamente incrível. Uma linda história de um amor que nunca desaparece, mesmo depois de destruir a vida daqueles que amam. The Rider é uma jornada emocional bastante forte e emblemática sobre essa fascinação dos homens de domarem cavalos, e como essa relação afeta muitos de maneira permanente — são criaturas maiores e mais fortes que nós, afinal de contas: domá-las nos dá poder, perdê-las nos mostra o quão pequenos somos. The Rider entende isso com perfeição: não há coisa mais bela do que ver seus personagens galopando com essas criaturas nas imensidões que Zhao encontra, e não há coisa mais triste do que ver as sequelas de quando isso dá errado, e quão permanentes são os efeitos dessas tragédias. É um filme que entende o quanto de nuance é preciso visualizar uma história como essas, e Zhao consegue capturar a questão econômica, a masculinidade, as relações de poder, sem nunca deixar a história de seu personagem para trás. Ela vê a comunidade de seu filme com carinho e com distância, nos fazendo querer conhecê-los mais, mas apenas entregando o necessário. Pode não ser um documentário como muitos queriam que fosse, mas é verdadeiro, e maravilhoso.

Dirigido por Chloé Zhao. Assisti no Popcorn Time.

“O que eu assisti ontem de noite” é um postzinho rápido toda manhã com algumas considerações sobre o que eu assisti na noite anterior, seja filme ou série.

Um homem olha, assustado, em uma sala escura

1977 (2017).

Hm, esse é terrível. A história parece ser muito menor do que o filme quer que ela seja (o efeito dela acaba bem cedo também), e o filme não aproveita o único potencial dela, que é observar o luto e a culpa na cabeça dessa família. 1922 é tão preocupado em querer dizer algo e mostrar algo de maneira criativa que acaba tentando fazer de tudo e não faz nada. É chato, terrivelmente longo pra um filme de um pouco mais de 1h40 e as atuações são terríveis. Nem a fazenda. talvez uma das coisas mais interessantes de se filmar, visto que ela é a própria natureza domada que tenta sempre se libertar de nós, é explorada de um jeito interessante aqui.

Assisti no Netflix.


Uma mulher e sua filha sentadas e visivelmente cansadas em um banco de uma praça

Gilmore Girls, 3x08: Let The Games Begin (2002)

O episódio logo depois do melhor que Gilmore Girls já fez (They Shoot Gilmores, Don’t They?), Let The Games Begin é uma das melhores provas sobre como o episódio anterior é fantástico e suas cicatrizes ficam na série até o final. De um modo mais direto, o episódio começa na manhã seguinte à maratona de dança, e tá todo mundo querendo morrer; e é o primeiro episódio que começa a explorar Lorelai e Luke como um provável casal. Nada de muito especial acontece aqui, mas tem um momento maravilhoso em que o Richard convida as Gilmore pra passear em Yale com uma entrevista “surpresa” pra Rory. No final, as três estão bravas com Richard por motivos diferentes, mas o que ele fez nelas é semelhante: as enganou para conseguir o que queria. A sutileza de Gilmore Girls, nos seus melhores momentos, é uma dádiva.

Assisti no Netflix.

Eu vou tentar criar o hábito de escrever toda manhã sobre o filme (ou episódio de série) que eu assisti na noite anterior. Começando hoje.

Um prédio de ponta-cabeça na cidade de Moscou sob a luz do sol

Os Hinos de Moscóvia (Gimny Moskovii, 2018)

Parte da retrospectiva do Festival de Curtas de Oberhausen esse ano, eu fiquei fascinado o quão eficaz esse filme é. Ele trafega por Moscou com imagens em ponta cabeça, tornando nosso ponto de referência o céu. É um filme-ensaio que observa a arquitetura da cidade, e tornar o ponto de referência algo tão diferente realmente funciona: as construções (belíssimas) que o filme circula ganham uma nova proporção e suas formas perdem muito do sentido inicial, mas esse é exatamente o ponto. Tirando a referência do humano de perto e observando-as de um modo completamente diferente, Os Hinos de Moscóvia parece ter a liberdade de observar esses feitos arquitetônicos sem qualquer amarra. É uma pena que ele exiba prédios com referências humanas mais pro final, porque isso meio que acaba com a mágica do filme, mas até ali é surpreendente (e a trilha-sonora é belíssima).

Dirigido por Dimitri Venkov, eu assisti esse filme no MUBI (sai hoje à meia-noite).


Três pessoas deitadas em uma cama, cobertas por um edredom

Adeus Entusiasmo (Adiós entusiasmo, 2017)

Fiquei meio decepcionado com Adeus Entusiasmo, porque no início eu achei que ia amar: a história de uma família em um apartamento que parece um labirinto, com uma mãe que nunca aparece em cena e que a gente não entende muito bem a relação entre os irmãos e ela. Primeiro o filme parece que vai ser sobre essa situação e vai tentar explorá-la sem explicar. O filme nunca explica exatamente o que está acontecendo, o que é bom, mas parece que com o tempo ele vai ficando menos interessado justamente nisso, o que não é muito bacana, porque parece que todo o envolvimento que tu tinha com a ideia foi desperdiçada. Acaba que o filme está mais interessado com as pessoas externas àquela casa mais do que o que os une dentro dela, e isso faz com que a falta de noção do lugar perca muito sentido (a gente nunca tem muita ideia de que forma essa casa tá disposta ou qual seu tamanho, porque o filme usa um 2.85:1 que te tira a noção espacial desse ambiente cavernoso, algo que eu acho bacana). Acaba que o filme vira uma confusão de ideias, mas são ideias interessantes de se ver, mesmo que sejam desperdiçadas depois.

Dirigido por Vladimir Durán, parte da seleção Descoberta Especial no MUBI (sai de exibição em três dias).

Terminei Uma Criatura Gentil do Dostoiévski hoje de manhã. Caramba, como eu senti raiva quando comecei a ler essa novela porque era incrível como o autor consegue desenvolver o mundo do narrador, a personalidade do narrador e a impressão que o narrador tem do mundo que o carca com tanta facilidade. É tão natural e flui tão bem a leitura (eu leio bem devagar) que as vezes eu esquecia completamente como o escritor delimita formalmente a história que ele tá contando.

Minhas reações sobre o livro amadureceram conforme eu ia progredindo (ainda bem), porque Uma Criatura Gentil tá sempre mudando, mesmo que a forma se mantenha a mesma. Primeiro eu fiquei meio 😕 pelo livro ser sobre o marido de uma mulher que se matou. Depois eu fiquei meio 🤔 porque o livro era sobre as impressões do marido sobre a sua esposa, que cometeu suicídio. E acabou comigo bem 😲 porque é um belo retrato de um ser humano desprezível a ponto de ser completamente cego perante a pessoa que vivia junto com ele por todo aquele tempo, tão intoxicado dentro de si mesmo e da sua própria honra que acabou não percebendo a doença da esposa até ser tarde demais. No fim, o livro só confirma todas as impressões que o narrador tenta evitar que tu tenha com aquelas explicações egocêntricas.

Que baita livro, esse. Minha próxima leitura acho que vai ser… não sei. Preciso de uma sugestão.

Eu ainda não considero Super Mario Odyssey um grande jogo como Super Mario Galaxy é, mas se tem uma coisa que esse remake de Crash Bandicoot me fez foi apreciar mais o novo jogo do Mario.

Era pura nostalgia a lembrança que eu tinha de que Crash era divertido? Plataformas mal desenhadas, inimigos toscos e uma mecânica de controle que simplesmente me faz ficar revirando os olhos. Eu comecei a jogar Odyssey novamente porque eu precisava tirar o mal gosto do gênero da boca e, por mais que eu ache o conceito desse novo Mario mal explorado, ele pelo menos é feito com perfeição.

Eu acordei hoje lembrando de um dos meus momentos favoritos de Kentucky Route Zero (dos vários):

A gente (Conway, Shannon, Ezra, Junebug e Jonnie) tá observando aquilo que sobrou de uma criação que parecia fantástica: o fantasma do alvorecer da Era da Informação que nos prometia finalmente se desapegar da ideia que ter algo é ter dinheiro, que agora a promessa é que a informação seria livre e que estaríamos finalmente livres das amarras do dinheiro.

É uma linda ruína: uma pilha de computadores pega fogo para iluminar uma caverna. A gente lembra que não temos mais um lar.

O jogo nos dá então uma única opção pra prosseguir:

Nothing to be done.

Como todos os bons momentos de Kentucky Route Zero, esse pequeno instante nos permite se deparar com a promessa de um mundo melhor, algo que parecia ter chegado bem perto — e então ele nos lembra que temos que seguir em frente.

O trailer de Godzilla 2 é fantástico

Ontem eu assisti o trailer de Godzilla: King of the Monsters, a continuação do filme de 2014 que eu nunca assisti.

Esse trailer não sai da minha cabeça. Eu não sei se é o Clair de Lune que eles usaram (muito) bem, mas eles capturam aí justamente o que é fantástico em Jurassic Park e que ninguém encontrou desde então: aquele sentimento de fascínio de ver esses monstros gigantes com seus próprios olhos. Aquele plano do monstro abrindo as asas e brilhando é uma das coisas mais empolgantes que eu já vi.

Essa semana eu decidi assistir A Guerra do Vietnã, o documentário épico do Ken Burns (está na Netflix agora e eu recomendo demais). Como meu pai é um grande fã de História (e hoje em dia anda muito interessado na história do continente africano e como ele se desenvolveu de uma forma bem particular) ter algum assunto relacionado com história é uma boa pra puxar um assunto com ele.

Daí que a gente tava falando de como, entre as duas Grandes Guerras, ocorreu um momento de descolonização dos territórios africanos, e meu pai soltou “até a Bélgica, aquela merdinha de império, tinha colônias”.

Como é delicioso esse rancor da Copa.

Como eu comecei a me organizar e escrever melhor

Ontem eu tuitei sobre como eu desenvolvo as ideias que eu tenho em posts pra esse blog. No início do ano eu decidi que ia recuperar todos os vários blogs que tive desde que eu entrei no ensino médio em um só lugar (com exceção dos conteúdos pro Pão com Mortadela, que continuam onde sempre estiveram).

Esse meu “método” (se é que dá pra chamar assim) surgiu quando eu precisei descobrir um jeito de escrever a minha monografia ano passado. Demorou, mas eu descobri que eu preciso escrever em pé (?!), geralmente cedo da manhã (??!), depois de já ter a estrutura do que eu quero escrever pronta (…).

Fora as notas e links que eu posto aqui, que costumam serem bem mais curtos, eu ando postando posts mais longos e geralmente que demoram umas duas ou três semanas pra escrever. Hoje de manhã eu terminei minha quase-análise-quase-diário sobre The Sims 4: Estações, que é algo que eu venho trabalhando há umas duas semanas já, e vou usar ele como exemplo de como eu resolvi escrever mais em 2018, e como eu tô fazendo isso.

Não são duas semanas escrevendo. É algo como 80% lendo e pesquisando e os outros 20% planejando o post e redigindo ele de fato. Pro post sobre Estações eu precisei não só jogar o suficiente da expansão, mas também tentar organizar os meus sentimentos sobre a série como um todo. The Sims é algo que me acompanhou por vários momentos importantes da minha vida e eu precisava tentar decifrar o que ele poderia ter significado pra mim. Eu fiz isso através das minhas memórias com esses jogos, claro, mas também lendo as reações das pessoas sobre eles — seja da crítica ou seja dos fóruns (ainda bem que os fóruns do OSimBR ainda estão no ar). The Sims 2, que eu falo por uma boa parte do post, eu não jogo há uns bons dez anos e não tenho um Windows pra jogar ele de novo, então tudo o que eu escrevi sobre ele é baseado nas minhas lembranças emocionais e no que eu li (e lembro de ter lido) sobre o jogo.

Essa minha pesquisa por leitura vem toda com uma sondagem antes, e eu salvo todos os artigos que me parecem interessantes no Instapaper. Se você conferir o meu perfil no Instapaper vai poder ver as minhas anotações e os links que eu leio antes de escrever algo aqui.

É geralmente durante essa parte de leitura que eu compreendo o que eu exatamente quero falar. Eu escolho um tópico — o que The Sims 4: Estações resgatou na franquia — e espero por sete perguntas que eu possa ter em relação ao tema. Geralmente, essas perguntas variam de coisas mais simples:

  • quem faz (autor, quando aplicável);
  • o que faz (assunto — The Sims, no exemplo);
  • como isso é feito (forma — os pequenos momentos que Estações traz à jogabilidade);
  • onde isso é feito (o momento, ou o elemento, exato que a forma realiza o assunto — o Calendário de Estações); e
  • por que isso é feito (temas e subtextos — a conexão desses pequenos momentos de jogo com a vida do jogador).

Tendo essas perguntas, eu tento responder elas. Eu faço isso num caderninho genial que uma professora da faculdade me deu de presente de formatura: cada página tem sete linhas, e eu tento resumir essas respostas a uma frase:

Página do meu caderno com anotações sobre meu último texto nesse blog. As respostas para as minhas perguntas sobre The Sims 4 Estações.

Geralmente o texto segue esses pontos em ordem, porque a ideia se forma de um jeito mais fácil desse jeito — linearmente, conforme ela foi evoluindo na minha cabeça. No caso de um dos posts que eu estou pesquisando nesse momento, eu acho que não vai ser assim (é algo mais extenso, que eu provavelmente vou ter que usar textos mais teóricos, etc.).

É um processo, e com certeza não funciona pra todo o mundo. Eu conheço amigos que vão na tentativa e erro até a ideia sair formada de um texto que foi revisado inúmeras vezes. Eu tenho amigos que sequer revisam, o texto vive tão forte neles que eles simplesmente colocam na página com facilidade. Como eu sou muito prolixo e minhas ideias geralmente embolam antes de eu sequer pensar nelas, esse foi um bom método que eu usei pra organizá-las na hora de colocar no papel (eu faço muitas anotações na mão, o computador me distrai um bocado). Eu acredito que tô escrevendo mais claramente hoje, ainda bem. Se tem mais sugestões de como eu posso escrever melhor, me dá um toque.

Vivendo com The Sims

Minha vizinha, a amiga que tinha um computador que rodava os jogos que a gente gostava de jogar (Harry Potter e a Pedra Filosofal, Croc 2), me mostrou um jogo onde a gente podia criar uma casa, colocar gente lá dentro e fazer eles negligenciarem o banheiro. Eu tinha sete anos, era férias de verão e eu ia começar a primeira série quando eu conheci The Sims.

Captura de tela de Gozando a Vida Esse é o primeiro The Sims, olha que beleza.

Eu conheci The Sims: Gozando a Vida pra ser mais exato. Era um CD-ROM pirata que eu acredito que passou por cada uma das crianças da minha cidade. No colégio, The Sims virou até estande da feira de ciências. Era um momento. A gente ia pra casa da minha vizinha jogar (não só porque o computador dela rodava o jogo, mas também porque a minha mãe odiava “esse negócio tipo Big Brother”) e passava tardes inteiras planejando nossas casas. Com toda a minha maturidade, a minha era um quadrado gigante onde eu colocava tudo o que eu achava legal no Modo Compra sem qualquer noção do que uma casa realmente era. E lá meus Sims passavam o dia assistindo TV e indo no banheiro quando precisavam, enquanto eu abusava do klapaucius. A gente não tinha dinheiro pra ter um videogame, mas meu Sim tinha. Ele tinha dois.

Eu não sabia ainda, mas The Sims me acompanharia pelo resto da minha vida.

É difícil de explicar o apelo de The Sims pra outras pessoas. É um simulador de vida. Você cria uma família, coloca em uma casa, e tenta fazer elas sobreviverem à vida que você quer dar pra elas. É preciso gerenciar as ambições que elas têm pra suas vidas com o trabalho e com suas necessidades básicas. Há uma escada social pra você subir, há uma profissão pra progredir. Se você quiser. Foi apenas com The Sims 2 que eu consegui convencer os meus pais a comprar o jogo (a gente já tinha um computador descente naquela época — um Pentium 3!). Era 2006, e tudo já tinha mudado. Eu tinha trocado de escola, eu tinha feito novos amigos, e eu vivia uma outra vida. Eu também tinha mais de dez anos, o que significa que era ok eu assistir meus personagens fazerem oba-oba na banheira de hidromassagem até não poder mais. Maturidade, entendeu?

The Sims 2 Não tem como esquecer as festas na piscina em Estranhópolis.

The Sims 2 é o grande jogo da série por uma série de razões. É uma evolução tremenda, em visual e jogabilidade. Os gráficos 2D à SimCity 3000 do primeiro jogo deram lugar a uma completa evolução tridimensional, com uma câmera livre e efeitos visuais novos (era bugado pra cacete, um verdadeiro charme). Mais importante, The Sims 2 apresentou o conceito de progressão de vida pra série: agora “seguir em frente” em The Sims não era apenas aprender um novo nível de habilidade de culinária pra você não morrer de fome. The Sims 2 apresentou os conceitos de gerações — adultos envelhecem, crianças crescem e formam outras famílias —, ambições e desejos. Momentos como os primeiros passos, a formatura do ensino médio, o primeiro beijo, o pedido de demissão e a morte de um querido começaram a ser importantes nesse pequeno mundo de bonecos. O objetivo do jogo era diferente: em The Sims, nossos Sims precisavam sobreviver; em The Sims 2 eles precisavam viver.

Quando The Sims 3 chegou eu estava entrando em um novo colégio. Muitos dos meus amigos do fundamental foram para o colégio estadual, enquanto eu e uma amiga entramos no federal. Era 2009, e meus amigos e eu nos comunicávamos através de fóruns e comunidades do Orkut. Muitas delas eram sobre The Sims. Eu fiz amigos de uma vida no OSimBR, que fechou as portas esse ano; e no Sim2Maníacos, que fechou as portas há muito tempo. O jogo mai importante da minha vida, Spore, já havia lançado e já estava começando a morrer. E The Sims 3 era todo novo: a gente agora podia passear nas vizinhanças, os vizinhos nos odiavam e pelo visto comer fora era mais barato do que comer em casa. Vai saber.

The Sims 3 foi uma pisada na bola, pra dizer a real. Foi quando eu me afastei da série também, mas por outros motivos (eu ainda jogava, e jogaria por muito tempo, o bom e velho Spore). The Sims 2 fez com que as necessidades do Sim não fossem os únicos fatores de “sucesso” do jogo, pra usar um termo ruim. Em The Sims 3, porém, seu Sim não era tão importante assim. Ele não era um personagem que você criava, que podia ser muito parecido ou muito diferente de você, e que você experimentava uma vida a favor ou contra seus sonhos. Seu Sim agora era um avatar, uma casca oca pela qual você podia explorar Sunset Valley (ou as outras dezenas de mundos que foram lançados como DLC depois). Você colecionava habilidades, carreiras, pedras (?) e relacionamentos. Quanto mais, melhor. Mas não necessariamente “melhor”, porque realmente não importava o rumo que a vida do seu Sim acabou levando. Se você tinha pontos de felicidade o suficiente, que você ganhava a cada novo Sim que você conhecia ou a cada nova habilidade que você aprendia, você poderia mudar a ambição do seu Sim para algo que caiba nas suas novas prioridades. E elas eram todas relacionadas a sucesso: ser um autor best-seller, uma celebridade ou conhecer todo mundo na vizinhança. The Sims 3 tinha saído de casa, literalmente. Pra um jovem de 16 anos era interessante — afinal de contas, eu queria muito sair de casa também —, mas a longo prazo o jogo não segurava. Eu criava Sims a torto e a direito, colocava eles no mundo e ficava levando eles de lá para cá. Os pequenos grandes momentos que The Sims 2 tratava com tanto humor eram só pequenos eventos para juntar mais pontos e eventualmente poder ser uma celebridade.

Quando The Sims 4 foi lançado eu estava no meu primeiro ano de faculdade. Fazia um tempo que eu havia deixado de acompanhar a série e, depois do fracasso de SimCity no ano anterior, eu não sabia se queria voltar a dar atenção pra algo que havia me decepcionado há muito tempo, mesmo que mantivesse um lugar querido no meu coração. Eu acabei ganhando The Sims 4 por ter participado da comunidade por muito tempo, e o que vi foi um jogo que prometia. Era uma excelente base pra onde as inúmeras expansões poderiam agir: uma interface fantástica, o CAS (como chamamos a ferramenta de Criar Um Sim) mais intuitivo e poderoso até então, um Modo Construção que não era maçante (se dependesse de mim meus Sims ainda morariam num quadrado gigante com toda a mobília atirada de qualquer jeito), e um sistema de emoções, que fazia os Sims reagirem às ações e interações que a gente decidia pra eles.

2014, faculdade, novos amigos e precisando gerenciar todas as minhas antigas amizades, que eu mantinha até ali. Eu também precisava trabalhar, e um freelancer fazendo faculdade e com uma vida social pra manter pode jogar muito pouco. Eu não voltei pra comunidade — eu parei no tempo e não consigo participar de grupos do Facebook, com uma exceção —, mas comecei a acompanhar as notícias da série de novo. The Sims 4 é um bom jogo, não me entendam mal, mas mesmo comparado com The Sims 2 ele era vazio. Comparado com The Sims 3, então? Ele era quase um fracasso. Isso porque The Sims 4 tinha a ambição, mas não o conteúdo. Demorou quatro anos pra que o conteúdo chegasse.

Mês passado a Maxis lançou The Sims 4: Estações, e eu preciso dizer logo de cara: The Sims nunca esteve tão bom. Eles finalmente descobriram o que fez o primeiro jogo tão bem sucedido, e que fez The Sims 2 tão memorável. Não só o humor, mas a volta dos detalhes, dos pequenos momentos que fazem a vida do seu Sim ser especial para ele e para você. Estações volta a abraçar o fracasso que você vai ter ao manter seu Sim. E isso é uma coisa boa.

The Sims 4: Estações foi o pacote de expansão mais esperado do jogo, talvez perca apenas para Gatos & Cães, o equivalente ao Bichos de Estimação das gerações passadas. Estações traz pro jogo… bem, estações. O verão californiano eterno que o jogo base oferecia dá espaço para outono, inverno e primavera poderem diversificar o cenário da vizinhança de formas mais profundas. Chuvas e tempestades agora dificultam seu Sim de querer ir trabalhar. Ondas de calor em Oasis Springs, a vizinhança no meio do deserto, fazem o Sim procurar um jeito de se divertir dentro de casa (ou pensar em se mudar). Mais que estações, porém, o pacote de expansão apresenta o Calendário e as Comemorações: equivalentes do Natal, dia das bruxas, Páscoa e qualquer outro evento que você pode imaginar. O Calendário também permite criar seus próprios eventos (o meu primeiro evento era o dia de todo mundo correr pelado, foi obviamente um sucesso) e se preparar para o próximo.

Captura de tela de The Sims 4 É óbvio que dá pra morrer de insolação em Estações.

O Calendário é o recurso de jogabilidade mais importante a ser apresentado em The Sims em muito tempo, porque ele volta o foco do jogo ao dia-a-dia de seus Sims. Se você quer aproveitar a Festa de Inverno, por exemplo, você precisa encontrar um momento nos dias anteriores para preparar a casa e quem sabe fazer uma boa ação. Isso tudo entra na dinâmica do seu cotidiano. Se tem uma coisa que The Sims 4 acertou foi em tornar esse balanço entre o que você quer e o que você precisa fazer em um desafio. Meu Sim, Terêncio, acorda às seis da manhã para trabalhar. Ele é um jardineiro, e o turno dele começa às oito. Eu tento fazer ele dormir cedo todos os dias, mas Terêncio precisa praticar um pouco de jardinagem pra melhorar a habilidade dele. A ambição da vida dele é dominar a arte de plantar, então ele precisa se dedicar. Se Terêncio dorme mais tarde, ele ou acorda mais tarde, ou acorda cansado. Antes de ir trabalhar, Terêncio precisa ir no banheiro, as vezes é bom também tomar um banho pra tirar o mal-humor que ele acordou porque a cama é dura. Mais importante ainda, Terêncio precisa tomar um café da manhã. Mas Terêncio raramente consegue tomar um café da manhã até o fim. Ele precisa ir trabalhar, pra ter dinheiro pra continuar buscando o sonho dele. Não há tempo suficiente no mundo. (E eu nem entrei na vida amorosa dele, um fracasso como a do criador).

The Sims 4: Estações encontrou aquilo que tornou The Sims 2 tão especial: os pequenos momentos que tornam esse cotidiano algo especial. As vezes eu preciso escolher entre deixar meu Sim feliz e deixar ele satisfeito, e nem sempre esses dois fatores são iguais. Terêncio esses dias foi celebrar a festa da colheita e esqueceu de dar um presente pra um gnomo. Por um momento eu achei que eles iam matar ele (eles tomou uns trovões na cara, mas acho que ficou tudo bem). Na vida dentro e fora de The Sims, as coisas as vezes não parecem o que realmente são. Na vida real, é se encontrar formado na faculdade, algo que sempre foi uma ideia que abriria portas pro futuro, mas estar sem qualquer prospecção do que vem por aí. Em The Sims 4, isso geralmente é na forma de um Sim sendo perseguido por gnomos. The Sims sempre foi sobre como você vai contar suas histórias, e The Sims 4: Estações permite que a gente falhe com nossos Sims, bem como a gente falha na vida. As vezes é catastrófico, mas as vezes é divertido. Nesses últimos casos, a gente vai querer lembrar pra sempre. Talvez meu Sim morra, mas talvez isso se transforme numa memória que ele conte para sua filha Sabrina, que nasceu quando ele foi abduzido por um alien, que, como todo adolescente, não vai estar prestando atenção nele porque está apresentando esse jogo novo e estranho pro seu vizinho, uma criança que mal sabe mexer no computador ainda.

Eu tô escrevendo dois posts um pouco mais longos essa semana e espero postar pelo menos um deles nesse fim de semana. Um é sobre o que The Sims 4: Estações trouxe de volta pra franquia, uma coisa que esteve ausente desde The Sims 2. A outra é sobre tudo o que tornou Os Incríveis no primeiro filme perfeito da Pixar.

Nada muito importante pra falar hoje, mas a pesquisa que eu tô fazendo pra esses posts é geralmente de leituras de artigos escritos ou sobre o mesmo período de tempo. The Sims 2 e _Os Incríveis _ foram lançados com meses de diferença e os dois lançamentos me marcaram muito. Tá sendo muito interessante e voltar a pensar nesse tempo da minha infância. Aquele foi um verão bem bacana.

As melhores coisas de 2018 (por enquanto)

Chegamos em julho, uhul! Eu realizei um total de 0 (zero) coisas esse ano. Decepcionante, não é? Nem me diga

Mas julho significa que já vi metade dos filmes do ano, metade das séries já estrearam e metade dos álbuns eu ainda não ouvi. E pra manter tudo isso organizado, vamos ver as listinhas do melhor que eu vi/ouvi/joguei até agora.

Filmes:

  1. Lean On Pete (Andrew Haigh, 2017)
  2. The Florida Project (Sean Baker, 2017)
  3. As Boas Maneiras (Juliana Rojas e Marco Dutra, 2017)
  4. 120 Batimentos por Minuto (Robin Campillo, 2017)
  5. Deixe a Luz do Sol Entrar (Claire Denis, 2017)

Séries:

  1. Atlanta (2ª temporada, FX)
  2. The Americans (6ª temporada, FX)
  3. Silicon Valley (5ª temporada, HBO)
  4. Barry (1ª temporada, HBO)
  5. Crazy Ex-Girlfriend (3ª temporada, CW)

Jogos:

  1. Florence (iOS)
  2. Quarantine Circular (Windows, macOS)
  3. The Sims 4: Estações (Windows, macOS)
  4. Subnautica (Windows, macOS)
  5. Sushi Striker: The Way of Sushido (Switch)

Músicas:

  1. Oil of Every Peal’s Un-Insides (SOPHIE)
  2. Heaven and Earth (Kamasi Washington)
  3. Viagem ao Coração do Sol (Cordel do Fogo Encantado)
  4. Both Directions at Once: The Lost Album (John Coltrane)
  5. Everything is Love (Beyoncé e Jay-Z)

Os Nindies são a arma secreta do Switch

Ask 10 different people to name 10 different ports they’d like to see on Switch, and you could get a hundred different answers. Most of them would probably be decent choices, too. Bayonetta came out for the PlayStation 3 and Xbox 360 in 2009. Bayonetta 2 released on the Wii U in 2014. Both didn’t find as big of an audience as they deserved the first time around, and combined they proved to be one of the best anthologies you could buy when they arrived on the Switch this past February. Bayonetta 2 + Bayonetta 1 is hardly alone in that regard, though.

Another Direct in March revealed a new Smash Bros. as the console’s big end-of-year release, but beyond that, more ports, like Okami HD and and Captain Toad: Treasure Tracker. Most recently at E3, Nintendo revealed a new Mario Party game would be headed to the Switch in October, but two of the biggest announcements were that ports of Fortnite Battle Royale and Hollow Knight, two of last year’s best games, would be available to download on the Switch starting that day. There’s a case to be made that June has been one of its strongest months yet in terms of releases.

Esses parágrafos vieram de um post na Kotaku, Switch Is A Port Machine, And I Love It. É verdade, a Nintendo tá preenchendo o seu calendário de lançamentos com ports. Ano passado, entre The Legend of Zelda: Breath of the Wild e Splatoon 2, Mario Kart 8 Deluxe e Super Mario Odyssey com ports de indies, e esse ano entre Donkey Kong Country e Smash Bros. temos de tudo: Fortnite, Firewatch, Okami, e até mesmo Crash.

Eu ando com uma impressão há um tempo já que eu estou comprando bem mais indies no Switch do que na minha loja favorita, o GOG. Primeiro por causa da praticidade: meu MacBook não tem muito espaço em disco, e eu acho um saco ter que ficar instalando eles no meu HD externo. E por causa da conveniência, também. O Switch é uma plataforma que eu posso jogar antes de dormir, no colo, ou sentado no sofá, com as luzes todas apagadas, com um sistema de som e imagem decente. Jogos como LIMBO e Inside nunca ficaram tão lindos.

Os indies que estão vindo às levas, todas as semanas, pro Switch são uma benção, e a melhor companhia pros blockbusters da Nintendo. Geralmente são versões experimentais das fórmulas consolidadas de Mario e Zelda, ou coisas que a Nintendo mesmo nunca faria. Isso é ótimo. Se o Wii U tinha um problema, era que tinha apenas jogos da Nintendo ou variações de franquias que se baseavam com força nos parâmetros da empresa. Uma das várias lições que ela pareceu ter aprendido, então, é que variedade é tudo.

Convenhamos, o Switch não é nem um pouco tão poderoso quanto seus concorrentes, e isso mata o suporte que grandes jogos como Call of Duty, Battlefield, Assassin’s Creed e Grand Theft Auto. Tá aí um público que o Switch não vai conseguir mexer, mesmo com os ports de Skyrim, L.A. Noire e Doom fazendo o impossível de tirar visuais de última geração de um chip de celular. A solução é investir em títulos indie e chamar um outro tipo de público adulto: com jogos como Gorogoa e Night in the Woods, que lidam com temas que nenhum blockbuster ainda tem coragem de lidar.

Não é a situação perfeita? Não é, mas a Nintendo tá ao mesmo tempo variando a sua biblioteca de uma forma fantástica e teoricamente bem menos cara do que investindo em trazer AAAs que nunca vão ser bem executados nesse portátil. Poder jogar LIMBO na cama é um deleite, e a experiência de ter Night in the Woods na TV com o home theater mudou toda a minha percepção do jogo. E agora eu mal posso esperar pra jogar Kentucky Route Zero numa madrugada na frente da TV. Quem diria que esses títulos, que lidam com temas como depressão, dívidas e morte, estariam lado a lado de Breath of the Wild e Odyssey. É um ótimo jeito de variar os grandes jogos da Nintendo com os grandes pequenos jogos dos Nindies.

Ontem de noite eu não tinha muita coisa pra pensar (ou melhor, eu devia estar pensando num post que eu tô escrevendo mas não tava conseguindo evoluir) e fiquei fazendo equivalentes entre Star Wars e Harry Potter.

Se a gente for parar pra pensar a atual franquia de Harry Potter, essa ridícula Animais Fantásticos & Onde Habitam sofre de vários problemas que acometeram a trilogia de prequels de Star Wars. Há uma tentativa muito errada de “conectar” as várias histórias que na série original nos davam aquela impressão de que esse era um mundo extenso e muito além da história do Potter, fazendo todas as histórias do passado que a gente ouvia serem muito mais próximas uma das outras, com umas conexões meio bobas. Também tem o uso de personagens que são só citados, e como eles geralmente são muito menos interessantes do que as histórias que nós imaginávamos deles. Tem uma troca de cenário (Estados Unidos não é nem um pouco tão interessante quanto a Inglaterra mágica). E tem uma autora tão afundada na própria cabeça que não consegue ver que ela está minando tudo o que havia de mais lindo na série — e assim excluindo uma parte de seus leitores no caminho.

Eu sou daqueles que acha que Os Últimos Jedi talvez seja o melhor Star Wars já feito, muito porque desvirtua tudo o que a série fazia até ali e realmente expande aquela galáxia, tornando ela muito maior e mais imprevisível do que todos os outros filmes antes fizeram (ok, talvez O Império Contra-Ataca tenha feito isso). É um novo fôlego pra uma fórmula batida, e se a Warner decidir dar novas mentes pra uma possível terceira série de filmes nesse mundo do Harry Potter, pode ser pra melhor. Eu mal posso esperar um Os Últimos Jedi no mundo de Harry Potter.

Eu atualizei o meu Letterboxd com os filmes que eu vi nessa última semana de junho. Como eu ando vendo bem menos filme do que antes de começar a trabalhar, e tenho menos tempo do que antes, eu acabo só logando eles pela semana e procuro escrever pelo menos um parágrafo ou alguma impressão no Letterboxd no final de semana.

Os filmes dessa semana são:

  • Hereditário (⋆⋆⋆): terrorzão bem bom que vi na terça com a Aldry, a Paola e o Gui. Vale cada susto.
  • Jogador Número 1 (⋆⋆): achei que ia me divertir bem mais, mas a histórinha tosca me incomodou bastante.
  • Missão Impossível: Protocolo Fantasma (⋆⋆⋆⋆): basicamente a cena em que a Sra. Incrível se infiltra no QG do Síndrome em Os Incríveis, só que agora em live-action e com duas horas. É tão divertido quanto deveria ser.
  • Tomorrowland (⋆⋆): eh, ninguém conseguiria salvar um roteiro que quer fazer tanta coisa ao mesmo tempo. Eu acho que esse filme deveria ser uma animação, também, dado a açào que parece que veio de um filme do Looney Tunes.
  • The Tale (⋆⋆⋆⋆): eu ainda tô engolindo esse filme, que me abalou bastante e me fez pensar num bocado de coisa. Mas é excelente e eu recomendo completamente.

Anotações sobre minha maratona de Kelly Reichardt nesse fim de semana

Eu não ando tendo muita oportunidade de ver filmes durante a semana. Eu chego cansado do trabalho e geralmente janto e vou dormir. Por isso eu ando aproveitando os finais de semana e vendo o máximo de filmes que eu consigo. Eu os escolho durante a semana e no sábado mato a vontade toda de uma vez (domingo de manhã eu assisto algo no MUBI, algo que já virou tradição). Como eu ia passar esse último final de semana sozinho, aproveitei para fazer algo que eu queria fazer há um tempo: assistir todos os filmes da Kelly Reichardt, minha nova diretora favorita.

O que mais me atrai no cinema de Reichardt é a maneira como ela aborda o relacionamento entre o ser humano e a natureza que resiste ao seu redor. Seja aqueles que buscam nela um refúgio (Antiga Alegria) ou que precisam atravessá-la para encontrar uma nova vida (O Atalho), os personagens nos filmes da diretora precisam lutar com a natureza de alguma forma — e esse embate acaba por revelar um pouco da natureza deles mesmos.

É uma relação emblemática — como a natureza luta para sobreviver com uma sociedade que se expande pra cima dela, e como as pessoas que criam essa sociedade lutam para sobreviver nela. Talvez a relação me interesse porque Reichardt encontrou um cenário perfeito para essa dualidade: as cidades pequenas no Oregon (e, em Certas Mulheres, em Montana). É algo que eu entendo completamente. Como morador de uma cidade pequena no interior, fui criado no meio de regras e limites em relação à natureza ao redor de onde vivo — como não devemos desfazer teias de aranha ao redor da nossa casa, porque elas diminuem a quantidade de mosquitos, mas nenhuma aranha é poupada quando entra em casa. É uma harmonia sempre em conflito, e uma bela tradução dos conflitos dos seus personagens — pessoas na beira da sociedade que precisam entender ou encontrar um lugar nela.

Cena do filme “O Atalho”

Os filmes de Reichardt contemplam essa natureza com uma beleza respeitosa: seus planos são longos e muitas vezes estáticos, ou com movimentos vagarosos. A diretora segue seus personagens com uma certa distância espacial, permitindo que vejamos como eles enfrentam seus dias — suas tarefas diárias ou os pequenos obstáculos que precisam superar para ir do ponto A ao B. Mas Reichardt é segura de sua direção, e seu minimalismo estético é apenas uma impressão, porque seus filmes nunca são devagares por serem devagares — há sempre algo acontecendo, a história sempre segue em frente, sempre há um desenvolvimento no personagem. Ela só decide percebê-lo em ações pequenas, no processo de trabalho. Em O Atalho, talvez seu filme mais formalmente expressivo nesse sentido, nós acompanhamos um grupo de colonos que atravessa o terreno árido de Oregon a procura de água para seguir viagem para um novo lar. É um filme de lindas imagens, que Reichardt consegue fazer refletir a dureza da jornada deles: o horizonte é plano e seco, e o vemos constantemente. O céu é implacável, e parece que a qualquer momento ele pesará nos ombros daquelas pessoas. Ao invés de perdurar essa jornada, a diretora preenche-a com pequenas tarefas — montar uma barraca, costurar um sapato, estender as roupas.

São ações melancólicas, mas apenas porque são cotidianas. Kelly Reichardt parece ter um apreço por essas pessoas que precisam realizar trabalhos manuais para sobreviver. Ela os vê no processo, no resultado e na decepção. Isso porque é através dessas pequenas ações que os personagens de seus filmes parecem se transformar. Em Antiga Alegria, ao encontrar os banhos termais com um amigo que não via há tempos, um homem percebe que aquela amizade (e talvez uma possível atração sexual) já acabou. Reichardt usa da procura pelos banhos termais, que demora mais tempo do que eles previram, à preparação da banheira — enchê-la de água quente e colocar água fria para assustar, como as tarefas que eles precisam realizar para finalmente entender o que estão fazendo ali. De maneira semelhante, a diretora cria uma cena extensa em Movimentos Noturnos onde uma personagem precisa comprar fertilizante, dividindo-a em pequenos momentos em que ela percebe a câmera de segurança, o homem que precisa negociar e os funcionários que percorrem o lugar — e ela entende, bem como o espectador, que a cada segundo que ela passa ali, mais suspeita ela vai parecer.

Cena de “Certas Mulheres”

De certa forma, os personagens dos filmes de Kelly Reichardt tem jornadas semelhantes às que ela procura proporcionar para seus espectadores. Através desse minimalismo estético e das tarefas mundanas, Reichardt procura compreender esses personagens através de um momento de autodescoberta — quando Wendy percebe que Lucy ficará melhor sem ela, ou quando os ativistas de Movimentos Noturnos ficam em silêncio após conseguirem explodir uma represa. Em um breve momento, eles percebem seu lugar naquele ambiente, finalmente compreendem algo sobre si mesmos. Porque Reichardt nos sugere tão poucos significados sobre suas ações — ou melhor, apenas significados suficientes —, nós podemos apenas imaginar o que é finalmente compreendido dentro deles.

Essa dualidade existe em toda a filmografia da diretora, mas ela mesma reflete sobre. É constante a figura indígena — em Antiga Alegria, é uma das histórias que Kurt conta para Mark; em O Atalho, é o oponente; em Movimentos Noturnos, é o ideal e, em Certas Mulheres, é um sobrevivente no meio de um shopping. Afinal ali está alguém que encontrou uma harmonia com seu papel na natureza, e que por isso a sociedade entra em conflito com. Viver entre esses dois mundos, e tentar se entender no meio dele, é fadado ao fracasso (não é a toa que todos os seus personagens ou vivem às margens da sociedade, ou fracassam naquilo que se pretendem). Mas, por um breve momento em Certas Mulheres, em que uma cuidadora de cavalos olha ao seu redor no rancho e sente o ar ao seu redor, ela percebe algo que eu percebi algumas vezes no meio da minha cidade pequena: um sentimento estranho onde eu não sei onde o meu corpo acaba e o meu ar começa. É quando finalmente a gente se sente parte de algo, unido com alguma coisa. O sentimento acaba, porque Jamie precisa terminar de limpar o estábulo, mas por um breve momento a gente consegue entender o que poderíamos ser, o que poderíamos atingir. É melancólico que a gente só possa sonhar com isso, mas devemos seguir em frente antes de que o céu caia sobre nossos ombros.


No meu Letterboxd eu escrevi um pouco sobre cada um desses filmes.

Um dos planos mais emblemáticos da década e ainda assim a Criterion arrasou. Mal posso esperar pra pôr minhas mãos nessa edição especial.

Capa da edição de A Árvore da Vida pela Criterion

A trilha-sonora de Lean On Pete

Eu não consigo parar de pensar em Lean On Pete, o novo filme do Andrew Haigh (e que eu tô suspeitando que não vai ser lançado nos cinemas por aqui). É um lindo filme, que tem aquela simplicidade e intensidade dos outros filmes do diretor. E isso não é pouca coisa, porque Weekend, 45 Anos e Looking são alguns dos meus filmes favoritos dos últimos anos.

Agora contemplem por uns instantes a música composta para Lean On Pete. Ela por si só já é belíssima. Tá sendo a minha companheira nos últimos dias.

A Capcom anunciou uma versão de Resident Evil 7 para o Nintendo Switch. É necessariamente diferente daquelas do PlayStation 4 e do Xbox One: não porque o jogo foi visualmente capado (como Doom, L.A. Noire e Skyrim), mas porque ele é um streaming.

Resident Evil 7: biohazard Cloud Edition parece ser mais um experimento por parte da Capcom por enquanto. Anunciado apenas para o Japão por enquanto, o jogo requer conexão com a internet constante (e, pelo visto, bem boa) pra que tu possa jogar o streaming dele de forma aceitável.

O que me fascina é quanto essa ideia cai bem com o Switch, e como ele parece ser a plataforma mais fundamentalmente errada pra ele. O Switch não tem sinal de celular, só se conecta por wi-fi (Ethernet só através de adaptadores) e é feito pra tu sair na rua jogando. RE7 Cloud parece ser um jogo apenas pra sua sala de estar, então — aquele ícone que vai ficar inacessível pra ti na tela Home enquanto tu pega o trem pro trabalho, mesmo que aqueles 40min sejam perfeitos pra tu matar uns zumbis.

Eu quero muito ver como esse jogo vai funcionar, e eu espero que sua performance seja boa e compense. É uma boa forma de adaptar os catálogos dos outros videogames mais poderosos pro magrelo da Nintendo — mas é algo que seria fundamentalmente melhor em um futuro Switch 2, se esse aceitasse sinal de celular. RE7 Cloud é, no final das contas, como o próprio Switch: um experimento pra que no futuro as duas tragam algo melhor.

Os filmes de Cannes que eu quero ver, edição 2018

Todo ano eu fico meio assim com Cannes, porque lendo a lista dos selecionados nada parece muito empolgante. “Ah, um novo do Von Trier! Quanto será que ele vai me irritar agora?” foi a reação mais forte que eu tive ao conferir a lista no início do mês. Agora que o festival acabou, que o Notebook já viu de tudo e postou notas sobre eles, eu começo a ficar interessado nas coisas tudo e preciso correr atrás.

Pra me organizar e acompanhar esses filmes, aí vai a lista do que eu quero ver de Cannes esse ano:

Competição:

  • Everybody Knows: o novo do Asghar Farhadi com Pelenope Cruz. Abriu o festival com críticas mornas, mas eu não consigo não me empolgar pra um novo do Farhadi. Ou da Penelope Cruz. Parece uma delícia de assistir.

  • O Livro de Imagens: eu lembro quando fiquei sabendo que Filme Socialismo tinha sido selecionado pro Un Certain Regard e tinha me deixado completamente fascinado pelo trailer. Eu vi o filme com o João no laptop no meio de uma aula de programação. Mal posso esperar pra ver esse (que levou uma Palma especial???).

  • Sorry Angel: eu só li sobre esse filme hoje, mas é um conto gay do Cristophe Honoré que não fez muito barulho. Exatamente o meu tipo de filme.

  • Shoplifter: assistir o vencedor da Palma é sempre obrigatório. Esse ano que parece que eles finalmente deram a Palma pro merecedor (algo que não acontecia desde o quê, 2011?), finalmente é empolgante. Kore-eda é lindo sempre, vamo ver esse aqui.

  • Under the Silver Lake: foi bem mal recebido mas eu gosto muito do It Follows então ok.

  • BlacKkKlansman: puta merda se esse filme não parece tudo o que eu sempre quis ver do Spike Lee e que ele chegou muito perto com Chi-Raq.

  • Guerra Fria: o novo filme do diretor de Ida parece lindo e muito triste, bem o que eu gosto mais em Ida.

  • 3 Faces: Panahi homenageando Kiarostami? Muito minha cara.

  • Feliz como Lazzaro: o mais intrigante da competição e que parece lindo. Vai ser lançado por aqui pela Netflix e eu tô triste.

  • The Wild Pear Tree: o novo do Ceilan (que ganhou a Palma em 2015) fechou a competição e não fez muito barulho. Mas tem quase três horas e todo filme dele é como assistir uma homilia. Lindo, misterioso e que fica na tua cabeça por algum motivo indefinido.

Fora de competição e exibições especiais:

  • A Casa que Jack Construiu: eu não tenho interesse nenhum em um filme que o Von Trier parece embelezar sua própria misoginia, mas ao menos isso vai dar uma boa sessão + cerveja com o Erê.

  • O Grande Circo Místico: do Carlos Diegues. Parece lindo.

  • Dez Anos na Tailândia: novo do Joe & amigos, caralho.

  • Fahrenheit 451: vai vir pro HBO, é claro que eu vou ver.

Un Certain Regard:

  • Long Day’s Journey Into Night.

  • Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos: levou o prêmio do júri e foi o queridinho da crítica esse ano. Que orgulho.

  • Dunbass: o novo do Loznitsa (eu ainda quero assistir o Uma Criatura Gentil dele, esquecido na competição do ano passado) é simplesmente o filme que eu mais quero ver de Cannes esse ano.

Semana da Crítica:

  • Wildlife: esse filme do Paul Dano parece bom demais pra ser verdade.

Quinzena dos Realizadores:

  • Pássaros de Passagem: novo filme da equipe de O Abraço da Serpente, um dos meus filmez favoritos dos últimos anos. Um drama familiar no meio do conflito do narcotráfico colombiano. Parece lindo.

  • Climax: o novo do Gaspar Noé que tão dizendo ser o melhor dele!!!!

Bastante coisa esse ano. Queria ter visto um James Gray ou uma Claire Denis nessa lista também, mas ainda tem Veneza, né.

Resumo da semana no. 1

Essa semana eu comecei a trabalhar (!!) depois de quase cinco anos sendo um reles freelancer fazendo sitezinhos bacanas por aí.

Isso significa que eu não consegui assistir tantos filmes como eu andava assistindo ultimamente, pra minha tristeza (mas ei, agora eu vou ter dinheiro pra ir no cinema, eventualmente!). Como eu ficava bem cansado quando eu chegava em casa (mas essa semana provavelmente vai ser bem mais tranquilo), eu acabava assistindo apenas um ou dois episódios do meu remédio pra viver, Gilmore Girls, mas me dediquei esse final de semana a ver só coisa boa:

  • Jacquot de Nantes (Agnès Varda, 1991): uma homenagem da Varda pro seu marido falecido no ano anterior, Jacques Demy. É, como qualquer outro filme da diretora, uma delícia de assistir: cheio de adendos dela sobre como Demy se relacionava com as memórias de sua infância, e um verdadeiro sentimento de saudade. Recomendo muito, mas corre que sai do MUBI amanhã à noite.

  • Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce 1080 Bruxelles (Chantal Akerman, 1975): uma das obras primas da Akerman, esse filme de mais de três horas olha com um cuidado quase cirúrgico pra rotina da personagem título. É fascinante ver como, mesmo observando cada detalhe dela e dos seus afazeres, a gente acaba sabendo tão pouco sobre quem ela é e o que ela pensa. E sobre como ela se vê dentro daquela casa. Entrou no MUBI essa semana, mas aproveita uma folga pra assistir.

  • Close-up (Abbas Kiarostami, 1990): o mais aclamado filme de Kiarostami, e eu acho que talvez a mais incontestável obra-prima dele. É um lindo retrato de um homem que queria ser outra pessoa — como todos os personagens de Kiarostami querem — e que acaba encontrando na mentira um atalho pra descobrir uma verdade. É um dos meus filmes favoritos.

Essa semana quero ver mais! Tem dois do Fellini, mais Lean on Pete, do meu querido Andrew Haigh. E preciso jogar mais Zelda, tô com saudade de Hyrule.

Poucos sabem mas eu tuito muito., O curioso é que nunca pelo Twitter. Quer dizer, até ser descontinuado em março eu tuitava pelo aplicativo oficial do Twitter para o macOS, meu aplicativo favorito desde 2010.

Desde março eu uso o Tweetbot, tanto pra macOS quanto pra iOS. Eu tenho meus poréns mas no geral é um baita app — desenvolvido cuidadosamente e com qualidade em cada detalhe. Quando ele me irrita, é geralmente porque ele oferece mais recursos no meu caminho do que eu realmente preciso.

Parece que vão ter mais recursos agora, porque a nova versão do Tweetbot foi lançada. Eu gosto da maioria das mudanças, mas a UI tá ainda mais superpopulada de “recursos”. Vou demorar um bocado pra me acostumar de novo.

Nessa ultima semana eu fiquei estudando uma maneira de como postar no blog pelo iPhone, agora que uma boa parte dos meus dias vai ser na estrada.

E pelo visto eu consegui!

Vou postar um pequeno tutorial ainda hoje explicando como eu fiz isso, pra quem quiser experimentar ou expandir a ideia. Aprendi um bocado sobre como os apps se relacionam no iOS com isso.

A notícia de ontem que Brooklyn Nine-Nine foi cancelada estragou o meu dia. Eu acho que eu nunca fui tão protetor de uma série como essa desde quando Community foi cancelada pela NBC (e depois voltou no Yahoo! Screen, porque comédia era pouco pra essa série).

Brooklyn Nine-Nine funciona pra mim de um jeito parecido com Gilmore Girls. É o meu conforto depois de um dia difícil ou o encerramento de um bom dia. Holt é o meu heroi, Rosa é o sonho do que eu quero ser quando crescer. Amy é a Britta escrita melhor. Até o Peralta, que no início foi o que me deixava meio longe da série, eu aprendi a gostar — ele é um exemplo de como desconstruir a masculinidade que a TV preza tanto. Mais do que tudo, B99 é exatamente aquilo que eu preciso assistir pra ter uma noite tranquila de sono, e é exatamente aquilo que eu gosto de assistir uma tarde inteira de um sábado, porque é simplesmente divertido demais. É uma série de um bando de gente diferente que se aceita e aprende a conviver junto, mesmo quando o comportamento de algum deles beira ao insuportável. É tão bom ver uma amizade tão saudável na TV.

A Kathryn VanArendonk escreveu melhor o que é perder B99:

I live in hope that Brooklyn Nine-Nine will be rescued by some other outlet. But I know that the ratings of the show got to this point at least in part because its best qualities were never flashy or buzzy. It was never telegraphing its politics or drawing controversial attention to itself. A show about a bunch of goofs who love each other and are kind to each other does not get the same hand-wringing attention as a character with a MAGA hat.

Não é a série mais improvável de existir em outra rede. A audiência é bem mais estável do que a maioria dos shows salvos nos últimos anos. Mas mesmo que não volte em outro lugar, eu espero que ao menos a dor de perder um programa tão bom assim mostre que a gente precisa de mais coisa assim, que preza uma humanidade e uma bondade que a TV parece não interessada em uma era pós-_Breaking Bad_.

Highland 2 me ajudou a escrever mais

A Quote-Unquote Apps lançou hoje o Highland 2, a nova versão do seu app de escrever roteiros.

Eu testei o Highland 2 nos últimos meses, e ele me ajudou a voltar a escrever, e a escrever mais. Ano passado eu tive um sério bloqueio de escrita, não só por causa da monografia, e o beta desse app foi uma das coisas que me ajudaram a superar esse bloqueio em março desse ano.

Muito disso veio da fluidez que é escrever no Highland. Ele usa uma linguagem de formatação chamada Fountain, uma espécie de Markdown feito pra escrever roteiros. Antes do Fountain (e do Highland) eu escrevia e formatava roteiros com um modelo que eu fiz no Pages usando uma série de atalhos pra estilizar diálogos, cenas e parentéticos. Com o Fountain, essa formatação é automática através da utilização de alguns caracteres.

Tipo assim: simplesmente escrevendo algo em caixa alta e quebrando a linha depois:

ELIZA
Eu lembro de quando eu e o Miguel…

Faz com que o Fountain “interprete” isso como um nome de personagem e uma fala:

Exemplo de um diálogo formatado no Highland

O mesmo acontece com guias de ação (CORTA ou CONTINUA). O Highland ainda suporta notas e escaletas, então tu pode comentar, apenas colocando o = antes, alguma nota. É algo muito útil pra “guardar” observações que tu tenha durante o teu processo de escrita. Eu tô sempre reconsiderando e revisando meus textos, e uso as notas extensivamente pra guardar ideias que eu possa expandir no roteiro. O Highland faz com que a gente se preocupe mais com as ideias que precisam ser postas na página do que formatar essa página — isso ele faz enquanto a gente escreve. É ótimo e libertador.

Esse tipo de coisa me ajudou a estabelecer um fluxo de escrita, e deixou minhas ideias correrem mais soltas. Claro, o Highland sozinho não salvou o meu dia (foi uma série de coisas, entre elas ler todos os dias antes de trabalhar), mas foi fundamental pra eu manter um ritmo de criar roteirinhos de cinco minutos quase que diariamente. Eu espero publicar alguns deles por aqui.

O Highland 2 está disponível de graça na App Store do macOS. Para recursos avançados, como remoção de marca d’água e modo Sprint (que eu nunca usei), é necessário comprar a versão completa dentro do app, que custa cerca de R$ 100. Valeu a pena pra mim, mas a versão básica já é suficiente pra começar a escrever mais.

Por mais que eu ame o meu Switch, eu fico abismado como a Nintendo cometeu uns erros inacreditáveis no projeto. Pra mim, o pior deles é o que impede que tu carregue o Switch enquanto usa ele no modo tabletop. Como a porta USB-C fica na embaixo do console, você não pode carregar ele enquanto usa o Switch em pé — mas a Nintendo vai resolver isso com um acessório.

Eu vou te dizer que foram poucas as vezes que eu usei o modo tabletop. Ele é bom em momentos bem específicos, como quando tu tá na casa de um amigo e não levou o dock e vocês querem jogar uma partida de Mario Kart 8. Eu uso especificamente quando estou em algum lugar longe do meu dock e quero jogar Super Mario Odyssey, que precisa dos acelerômetros dos Joy-Cons pra algumas ações específicas. Mas, como eu não sou um fã de Odyssey, eu nunca joguei ele muito longe da TV.

O problema é que eu não consigo imaginar uma empresa fazendo uma decisão dessas, colocando a entrada de força do videogame em um lugar inacessível em um dos modos que tu pode jogar ele? A bateria do Switch é boa (comigo dura em torno de cinco horas), mas jogar um cup do Mario Kart reduz a bateria em uns bons 10%. É impressionante que ele seja desenhado de tal forma — mas é mais um dos problemas do Switch que abriu todo um mercado de acessórios, e que agora a Nintendo vai entrar com uma opção mais cara (mas aparentemente mais robusta, o stand parece estabilizar bem o console).

O tabletop é com certeza o modo mais mal pensado do Switch. O pé que fica atrás do console é um plasticozinho sem vergonha que eu sem querer arranquei ao colocar o Switch no dock com o pé aberto já na primeira semana de uso. É uma ideia boa mas executada de uma forma tão ruim que a própria Nintendo parece ciente, antes de lançar o videogame, que as pessoas arrancariam o pé com frequência — há uma mensagem no canal de notícias avisando que, se tu fizer isso e o pé sair do videogame, é só encaixar de novo.

Vale lembrar também que a Nintendo ama amontoar seus videogames em cima das coisas.

Então hoje eu acordei meio que inspirado e decidi que ia sentar e deixar o Pão com Mortadela de um jeito que preste. Acho que consegui.

Algumas mudanças:

  1. Agora dá pra acessar posts através de categorias.
  2. Removi as imagens de capa dos posts nos índices pra deixar o carregamento mais rápido.
  3. Dei um ~upgreide~ na tipografia, tá bem melhor de ler.
  4. Uns tapa nos espaçamentos porque plmdds.
  5. Tags agora funcionam!!! Finalmente Arthur!

Ainda falta:

  • Navegação entre posts.
  • Nuvem de tags (como a que tem aqui no Irrelefante).
  • Rolagem infinita? Talvez?
  • Schema através do JSON-LD.
  • Página de sobre e de enviar dicas. (importante!)

Espero escrever sobre o futuro do PCM essa semana.

Eu tenho o Switch há quase um ano mas eu continuo me impressionando com isso e aquilo.

Hoje eu acordei cedo (muito cedo) e fui jogar um pouco de Zelda. Eu tinha esquecido os controles fora do videogame e pensei que eles tinham ficado sem bateria, mas não. Eu nunca joguei a ponto da bateria dos joy-cons acabar, e eu já fiz umas partidas de mais de cinco horas seguidas.

É uns detalhezinhos como esse que fazem o Switch valer muito a pena. Ele parece que tá sempre pronto pra jogar, não importa quando nem como.

A notícia que o Pocket Casts foi comprado por uma parceria entre emissoras de rádio americanas (incluindo a NPR e a WBEZ–Chicago) e pelos produtores do This American Life (e Serial e S-Town) me deixou dividido. Eu adoro ouvir os podcasts do TAL, e o NPR é ultimamente um dos sites que eu mais gosto de ler. Saber que eles compraram o meu app favorito pra ouvir os podcasts deles é algo que me deixa na dúvida.

Segundo o anúncio, nada deve mudar imediatamente (inclusive só faltou eles sublinharem, porque o post repete isso várias vezes), e o foco do Pocket Casts vai continuar sendo, bem, em tocar podcasts. Um dos motivos da aquisição, pelo que diz a Shifty Jelly, é que eles acreditam que o formato de podcasts deva permanecer aberto e colaborativo, algo que as organizações como NPR e WBEZ acreditam, também.

Mesmo assim é estranho em pensar que o app foi comprado por produtoras de conteúdos que tocam nesse app. Não dá pra não pensar que o interesse seja nas estatísticas de ouvintes e métricas de como se ouve. Eu não sei se o Pocket Casts rastreia essas informações, e eu não sei quais são os próximos planos. Eu espero que não me forcem a ouvir o podcast de filmes deles ao invés do meu querido The Next Picture Show. Daí eu vou considerar mudar pro Overcast.

(Obrigado Emanuele pelo aviso).

Pelo que a Kotaku tá vendo no Japão, o Labo não tá vendendo muito bem. Os números também não são muito bons no Reino Unido, segundo o Eurogamer.

É uma pena porque aparentemente o Labo é uma alternativa bacana e mais barata pro VR, uma tecnologia que eu provavelmente não vou ir atrás. Tem gente revivendo Jungle Beat de um jeito tosco, por exemplo. É muito bacana ver um videogame virar uma plataforma pras pessoas criarem algo assim.

Eu acredito que o Labo venda melhor a longo prazo, principalmente em datas como natal e dia das crianças, porque é tipo Lego. Acaba tendo pernas mais compridas porque não depende só da expectativa da primeira semana, e sim do quanto os projetos do Toy-Con Garage conseguem manter o interesse do público. Parte desse trabalho é da Nintendo de continuar expandindo a linha de maneiras mais interessantes (e pelo visto eles tão trabalhando nisso).

O Labo é um projeto super bacana que pode crescer e virar algo realmente impressionante (pra procurar um precedente, é só considerar que o Joy-Con é basicamente uma evolução do Wii Remote). Teve um cara que fez ele controlar uma cadeira de rodas:

Os cinco melhores de 2017

No fim do ano passado eu tinha postado em algum lugar o meu top 5 do ano. Eu não sei porque mas ele se perdeu de alguma forma então eu decidi postar ele aqui de novo.

Eu faço uns top 5 todo o ano que é basicamente uma pequena listinha das cinco melhores coisas que eu vi/li/joguei/etc. no último ano, e em 2017 teve muita coisa boa e eu acho que não é uma boa a listinha se perder. Nos últimos anos eu postava essa listinha no Pão com Mortadela, o blog que eu escrevia com os meus amigos. Em 2014 eram 10, em 2015 a gente fez cinco e mais cinco e em 2016 também teve. Como eu fiz o desse ano sozinho, não acho que é uma boa postar lá.

As regras são as mesmas: são as melhores cinco coisas diferentes que eu experimentei no ano. Por “diferente” entenda: não pode ter dois álbuns ou dois filmes, por exemplo. Eu coloco uma pequena listinha com aquilo que eu também gostei depois. Como é muito difícil eu ler um livro do ano, eu geralmente deixo livros e HQs sem o limite de tempo. Começando:

5. S-Town

(Link) Não teve nada como S-Town esse ano: um podcast que explora a cultura dos profundos Estados Unidos, sobre como as pessoas que vivem no interior do país experienciam histórias, e sobre como elas contam essas histórias depois — e o que, no final das contas, essas histórias falam sobre elas mesmas. É um íntimo retrato de um homem que vive no Alabama, contado por Brian Reed que se baseia muito no gênero gótico sulista, misturando fatos e histórias que dizem ser fatos e mentiras esdrúxulas no mesmo saco. É uma jornada desconfortável pela mente de um John B. McLemore, tão íntima que talvez não devesse existir, e que revela muito de quem somos hoje, e o quanto a gente carrega dos outros dentro de nós.

Outros links bacanas: The Next Picture Show continua sendo o melhor podcast sobre filmes por aí; Maureen Ryan consegue explicar porque The Leftovers é sobre tudo; Heather Alexandra acerta em cheio quando desvenda o porquê de Breath of the Wild ser um jogo tão íntimo.


4. No Shape

(Álbum) Eu nunca ouvi nada que capturasse tanto o meu estado de espírito em 2017 quanto No Shape, o novo álbum do Perfume Genius. Todos os trabalhos anteriores do PG eram sobre a decadência, e aqui não muda. No Shape é um pesado álbum de protesto, um recorte de como é se declarar queer hoje: das ideias que é preciso acreditar e propagar, do preconceito que existe tanto no lado de fora quanto no lado de dentro. Mais do que isso, porém, No Shape é uma busca por um refúgio, onde podemos ser quem queremos ser e o que realmente somos até chegar lá. Um lugar que não existe, o Perfume Genius acredita, mas que se cria quando você encontra a intimidade. No início de No Shape, Mike Hadreas pergunta “How long must we live right/Before we don’t even have to try?”. Ele não responde, mas devaneia: “Never thought I’d sing outside. I’m here,/How weird”. Em um mundo que acredita que nós não devemos existir, termos a chance de sermos o que somos é um privilégio. Sermos amados por isso é muito mais do que poderíamos esperar.

Outros álbuns bacanas: DAMN., do Kendrick Lamar, é essencial. I see you é o melhor álbum do the xx até aqui. Ainda bem que o LCD Soundsystem voltou com o Americam Dream. A Lorde superou o álbum de estreia com o excelente Melodrama. Todo mundo deveria ouvir Linn da Quebrada e o excelente Pajubá.


3. Certas Mulheres

(Filme) O meu amigo que recomendou Certas Mulheres foi bem direto: “é o tipo de filme que tu vai adorar”. Bem, o Leo acertou: Certas Mulheres, o novo filme da Kelly Reichardt, que foi lançado direto em DVD por aqui no ano passado, é um dos meus filmes favoritos. É um filme calmo e quieto, onde a gente conhece as suas três personagens estando com elas, acompanhando as suas rotinas e as observando de um jeito que parece que Certas Mulheres entra na mente delas. A Reichardt faz isso criando histórias simples — uma advogada precisa lidar com um cliente problemático; uma mulher precisa negociar pedras com um homem velho que não quer vendê-las; uma garota descobre sentimentos por uma professora substituta — e quase que explicitamente tirando qualquer outro significado que elas possam ter. No final das contas, o que existem nessas histórias são certas mulheres tentando levar seus dias em frente e, no caminho, recebendo o peso do mundo sobre elas. Tirando os possíveis significados de suas imagens, Certas Mulheres enche elas de sentimento. O resto fica pra nós lidarmos.

Outros filmes bacanas: Docinho da América foi direto para a Netflix (e agora está na HBO Go), mas é um filme tão grandioso que mal cabe na tela. Eu chorei ao final de De Canção em Canção (agora no Netflix), um dos filmes mais desesperadores de Terrence Malick; o Toni Erdmann da Maren Ade é simplesmente um dos melhores e mais geniais filmes já feitos. Z: A Cidade Perdida cria um épico com a beleza e a delicadeza de todos os outros filmes do James Gray.


2. The Legend of Zelda: Breath of the Wild

(Jogo) Pra um jogo tão monumental como The Legend of Zelda: Breath of the Wild, só o fato dele ser capaz de modernizar, e melhorar, a mecânica de mundo aberto e de simplesmente criar o melhor Zelda até aqui já é um feito gigante. Ser um jogo que se relaciona tanto com o jogador, que faz ele se tornar íntimo de Hyrule a ponto de sentir que ele é um ambiente realmente vivo, não pela beleza dos cenários mas pela complexidade da geografia, que surpreende a cada colina e a cada riacho. Ajuda que ele é, também, um divisor de águas no game design do mundo aberto como um tabuleiro para o jogador e que ele muda completamente a mecânica de Zelda — e, por extensão, qualquer outro jogo de ação-aventura por aí. Ou talvez simplesmente porque é o melhor simulador de subir árvores por aí. Vai saber. Há muito pra se descobrir em Breath of the Wild ainda.

Outros jogos bacanas: Everything é sobre tudo, mesmo, e uma experiência única. O desafiador e estranho Gorogoa acaba sendo um dos jogos mais emblemáticos que eu já joguei. Horizon Zero Dawn é lindo, mas também foi um jogo que envelheceu depressa demais. A história de Nier Automata pode ser estranha pra caramba, mas me emocionou demais. Super Mario Odyssey é uma pequena decepção pra mim, mas honestamente mesmo assim é um show de genialidade e de game design que só o time do Mario sabe fazer hoje em dia.


1. The Leftovers, terceira temporada

(Série) “Eu queria que todos estivéssemos prontos”, entoa a canção que abre a última, e melhor, temporada de The Leftovers. Eu queria, também. Depois de assistir a mais inventiva e fascinante série de 2017, eu não conseguia falar. Não por dor, como alguns dos personagens ficaram após a Partida. Eu tive aquele silêncio estranho, um tanto alegre, que acontece quando tu sente algo muito forte, que parece que uma parte do teu corpo foi tirada de ti. O vazio que fica no lugar é estranho e misterioso, e também reconfortante. Conveniente para uma série que é capaz de rir do fanatismo de seus personagens ao mesmo tempo que explora, com muita precisão, a dor de saber que o mundo não é o nosso lar como a gente pensa ser.

The Leftovers é isso: estranho e misterioso. É aquele tipo de série que te permite cavar a cada segundo, e ele sempre vai te entregar algo de novo, mas também sempre vai te dizer que isso não é o suficiente. É uma série que me ensinou a esperar por nada, e se satisfazer com tudo. Em The Leftovers a fé — em qualquer coisa: em xamãs, em pássaros dentro de caixas, no leão que devora a face de Deus — é capaz de torcer a realidade, fazer com que tudo seja real e tudo seja falso. Esse mundo que ficou, torcido e irreconhecível, é aleatório e mortal. Pelo menos nós ainda estamos aqui, e temos um ao outro. Em The Leftovers, a verdade não existe nas pessoas, mas nas histórias que existem entre elas. Essas, sim, são capazes de torcer a verdade. The Leftovers torceu o seu mundo na última temporada. É a melhor série que eu já vi.

Outras séries bacanas: a primeira temporada de Atlanta (na Netflix) é genial. A segunda temporada de Crazy Ex-Girlfriend (na Netflix) eleva uma boa e espertalhona série ao posto de melhor comédia hoje. The Deuce (na HBO Go) traz de volta David Simon em uma série que tem de tudo pra ser a nova The Wire. A primeira temporada de Legion (na Netflix) é divertidíssima e inventiva. A segunda temporada de Insecure (na HBO Go) é um belo retrato de se sentir perdido no meio dos amigos. O mundo não para na última temporada de Halt & Catch Fire, e ver os personagens lutando com ele é único. Não existe nada como a terceira temporada de Twin Peaks (na Netflix), e isso me deixa empolgado pelo que está por vir na TV.

Olá, Eliza!

Ontem meu primeiro tema público do WordPress foi disponibilizado no repositório oficial: diga olá pra Eliza.

Eu desenvolvi a Eliza em janeiro desse ano, quando eu tava trabalhando no Escrita. É um tema de revista que segue bastante o design e as necessidades que o Escrita precisava, então eu decidi fazer um tema redondinho pro site que ficou tão redondinho que eu decidi abrir a licença dele pra todos.

Eliza é fruto não só do Escrita, mas também do meu fascínio pelo início dos softwares de simulação de inteligencia artificial. A ELIZA original é uma psicoterapeuta simpatissíssima que eu recomendo vocês conhecerem.

Eliza, o tema, é como qualquer outro bom tema do WordPress: suporta o Personalizar, então você pode customizá-la com uma marca no lugar do nome do site e com dois menus de navegação (um no cabeçalho, outro no rodapé). Além disso a Eliza vem com uma barra lateral charmosinha porque blog que preste tem barra lateral (perdão meu blog, um dia eu faço uma pra ti também).

O código da Eliza é seguro, estável e legível — e pode ser conferido no repositório do projeto. Quando eu tiver uma folga do artigo que eu preciso escrever eu espero melhorar um pouco o comportamento do tema de um modo geral, padronizando links e tamanhos de imagem, além de dar suporte a umas coisas que o Charlie, um tema que eu estou fazendo, já tem: esquemas de cores personalizados e rolagem infinita. Eu aviso assim que fizer isso.

Inclusive! Eu fiz um minisite pra Eliza. É em inglês, é basicamente um leia-me, mas acho bacana ela ter um larzinho na internet.

O Digg Reader salvou a minha vida na internet

Eu não tive muito bem no último ano. Eu enfrentei uma depressão que eu demorei demais pra aceitar, eu fiquei desempregado de vez e eu terminei a faculdade (não é uma coisa ruim, mas muita coisa mudando de uma hora pra outra parece que faz um mal pra cabeça).

Isso me fez repensar muito do meu comportamento. Eu falei um pouco sobre como eu decidi ter uma “dieta cultural” mais saudável mês passado, por exemplo. Em 2017, eu decidi consumir informação de uma maneira mais saudável, também, o que basicamente significou deixar o Facebook e o Twitter de lado quanto a conteúdo. São vários os motivos, mas alguns são:

  1. Plataformas como o Twitter e o Facebook analisam e rastreiam aquilo que a gente clica e lê através de seus sites e apps.
  2. Essas análises acabam por alimentar o algoritmo das timelines, indicando que a gente se interessa por esse tipo de conteúdo e, então, recebendo mais conteúdo assim.
  3. Como é fácil ser atraído por matérias sobre perfil psicológico de criminoso, posts tipo look at this asshole e manchete de notícia obviamente falsa, a gente cai num vórtice em que recebe mais, consome mais e distribui mais conteúdo assim.
  4. Facebook, Twitter e, principalmente, YouTube viram agentes mais e mais ativos naquilo que a gente consome diariamente, tirando nosso poder de curar o conteúdo que a gente recebe e consome.

Lá por março do ano passado, quando eu me irritei com timelines de maneira geral, eu me lembrei que a solução para os problemas que o ambiente que as redes sociais criaram já existia, e precedia tudo isso: o bom e velho RSS.

Eu usei muito o RSS nos anos 2000. Eu gostava de acompanhar vários blogs de gente bacana, além de sites como o Eurogamer e o sagrado The Dissolve. Em 2013, quando os feeds RSS começaram a ceder espaço para feeds alimentados por pessoas e organizados por algoritmos, o Google percebeu o quanto perdia dinheiro dando o poder de escolha aos usuários e descontinuou o melhor leitor de RSS da época, o Google Reeder, para priorizar serviços que podiam ser analisados e rastreados, como o Google Notícias ou o aquele grande sucesso conhecido como Google+.

Com a morte do Google Reader, surgiu um bando de usuários que estavam sem um serviço e que procuravam um bom substituto e, com isso, um bocado de agregadores apareceram na internet: tem o Feedly, que é o mais pop; o InoReader, que tu precisa ter doutorado pra aprender a usar; o Feedbin, que é pago mas é parrudo; o The Old Reader, que é basicamente uma cópia do Google Reader pra quem prefere manter ele vivo.

Quando o Google Reader acabou (e o desespero tomou conta), começou a corrida pra testar todos esses agregadores — e mais alguns — para fazer a escolha certa. Eu acabei escolhendo o Digg Reader. Ele era absurdamente simples, tinha apenas o que o RSS suportava, e isso era suficiente.

Um RSS é, nada mais, que um padrão web que define um método rápido e alternativo para ler o conteúdo de um site. Um site que oferece um arquivo RSS é, basicamente, uma lista de links para seus artigos mais recentes, acompanhado de data, um título e um conteúdo (geralmente um resumo). Ele é extremamente leve e sem nenhuma firula. Tem gente que coloca analytics nele, mas geralmente um arquivo RSS é o mesmo há anos: uma lista de links. O Digg fez basicamente uma interface pra ler esse arquivo, que era atualizado automaticamente toda a vez que tu abria a página. Eu configurei os meus feeds em 2013 e, com a explosão do Facebook e do Twitter como feeds de notícia, o meu Reader, cuidadosamente curado e organizado, foi prontamente esquecido.


Então, ano passado, quando tudo aquilo aconteceu e eu tava farto da opressão que o Facebook me causava cada vez mais, eu decidi voltar a usar um leitor RSS. Quando eu lembrei que eu tinha uma conta no Digg, foram só dois segundos pra fazer login e pum. Tava tudo lá, exatamente do jeito que eu tinha deixado (mais uns 28392 itens não lidos). Deus salve o Digg.

Muita gente já falou isso, mas o RSS é tipo encanamento, ele está em todo o lugar — não só em sites. Ultimamente, esse padrão aberto e potencialmente modulável de internet não é muito popular. Quando eu entrei no Twitter, em 2008, eu podia acompanhar minha timeline pelo site ou por RSS. Hoje em dia Twitter e Facebook desativaram seus feeds RSS para forçar o uso dos apps oficiais. Em uma internet que é cada vez mais fechada por trás dos portões das grandes empresas de conteúdo, o RSS é como um esgoto mantido para todo o mundo acessar tudo livremente.

O melhor? O RSS não está desesperado em me mostrar o próximo post que eu preciso ler, ou uma foto ou um link que me mantenham dentro do feed dele. Quando eu abro o meu leitor de manhã, uma dúzia de posts me esperam pra começar o meu dia. Eu leio os que me interessam, eu mando pro Instapaper aqueles que quero ler com calma depois. Nada de intrusão. Meu dia começa logo depois dessa lidinha.

Meu Reeder hoje mais cedo Meu Reeder, hoje de tarde, com a maioria dos posts já lidos.

Mês passado o Digg me mandou um email avisando que ia desativar o Reader. Duas semanas depois, depois de testar (de novo) vários dos mesmos serviços que testei há cinco anos, eu exportei todos os meus feeds em um arquivo de 6kb e importei em outro serviço. Meus feeds — essa listinha boba de sites que eu gosto de acompanhar, de autores que eu gosto de ler e de assuntos que genuinamente me interessam escritos em um ângulo que eu acredito ser aquele que melhor expressa as coisas para mim — continuam vivos. Funcionam em qualquer lugar, e me surpreendem todos os dias com um link para um novo blog bacana que eu não conhecia, ou pra um artigo totalmente fora da minha zona de conforto. Eu acesso eles, me divirto, copio o link e torço pro meu leitor encontrar um feed RSS.

Sem notificações, sem interação mas com uma comunidade que existe nessa presença entre links, como as pessoas que ligam para os seus programas de rádio de manhã. É assim que o leitor RSS me conectou com pessoas e me salvou na Internet.

Minha dieta cultural em 2018

Faz um tempinho já que eu andei pensando no porquê eu andar tão desinteressado por ver filmes e séries com a mesma frequência que eu andava assistindo. Eu cheguei na conclusão que é porque eu andava assistindo demais. Também fiquei preocupado quando o meu Kindle começou a ficar meses parado (a bateria dele morreu já algumas vezes, um verdadeiro crime) ou porque as minhas mixes do Spotify começaram a ter sempre os mesmos artistas.

Quando eu entrei na faculdade eu fiquei tão fascinado com quanta coisa existia pra assistir e que eu não fazia ideia o quão fácil era assistir hoje. Resultado da faculdade, eu acho. Eu assisti muita coisa — muita coisa boa, aliás, que eu não arrependo de ter dedicado tanto tempo pesquisando, descobrindo, e assistindo. Alguns filmes mudaram a minha visão sobre o que eu gosto de assistir, e algumas séries simplesmente tiraram o meu chão pra sempre.

Ultimamente eu andei pensando no quanto do que foi assistido realmente importava pra mim, e o resultado era muito pouco. Não que todo filme ou série que tu assista tenha que mudar a tua vida (alguns eu só assisto porque meu colega me recomenda porque ele me odeia), mas é um tempo que eu me dedico emocionalmente e geralmente eu ando saindo mais cansado do que de costume, mas olha o raciocínio da minha mente – essa semana eu tava tirando o atraso em um filme do Éric Rohmer que tava prestes a sair do MUBI, mas enquanto eu assistia ele eu ficava cansado só de pensar que duas séries que eu tava acompanhando na Netflix tinham voltado e eu nem tinha começado a nova temporada delas, então eu tinha que fazer a madrugada valer.

Daí eu percebi que eu andava me dedicando tanto a assistir tudo o que eu podia porque é possível assistir, e não porque eu quero absorver algo dali. Ao mesmo tempo eu tava fazendo um péssimo trabalho em explorar as outras coisas que eu gosto. Meu rádio no Spotify nunca foi tão parado quanto nesse último ano. Também no início do ano passado eu comprei um Kindle. É provavelmente a melhor compra que eu já fiz na minha vida. Junto com o Kindle eu devo ter comprado um contrato com o demônio também que me fez amar tudo o que era livro que aparecia nas promoções de 5, 6 reais que a Amazon faz de vez em quando. É muita coisa boa. Eu comprei uma coleção de novelas do Dostoiévski que eu ainda nem abri pra ver se o índice funciona (importante!). Tem o novo livro da Jennifer Egan, também, que tá ali parado pra eu ler. Eu sei que eu vou ler eles, mas quando eu me dedico a ver uns dois filmes por dia e me manter atualizado em seja lá quantas séries eu consigo encaixar numa madrugada, como que faz pra ler?

São coisas bem diferentes, também, e que eu tava deixando pra trás. Eu me dedico emocionalmente a livros, também, mas não por algumas horas como um filme — eu fico lendo eles por meses, e eles sofrem o diabo comigo (mas apenas por amor), mas fazia tempo que eu não tinha esse tipo de envolvimento. Eu tava com saudade.

Então nessa última semana eu tô experimentando uma coisa diferente, e que eu tô curtindo um bocado por enquanto. Ao invés de assistir um filme logo que eu acordo, um filme antes de dormir e alguns episódios de uma série enquanto eu não durmo (!), eu me organizei pro seguinte — em um modo bem Rory Gilmore de ser: antes de trabalhar, eu tomo meu café lendo um livro. É ótimo, porque eu me aqueço pra trabalhar e não fico lendo artigos na internet (a minha fila no Instapaper andava gigante). Eu tô lendo uma coleção de contos do Raymond Carver agora, que meu professor de roteiro recomendou em 2014. É excelente, e eu tava com uma saudade tremenda de ler.

Uma lida de manhã, então eu trabalho de tarde. Quando eu termino de trabalhar, eu vou visitar Hyrule um pouquinho (eu espero escrever um pouco sobre como o mundo de Breath of the Wild virou tipo um segundo lar pra mim). Daí geralmente tenho que fazer umas coisas em casa, brincar com a Vivi, jantar. Então, antes de deitar eu vejo o que o MUBI trouxe. Se é algo que me interessa assistir (ontem de noite eu vi um filme de um diretor polonês que o MUBI tava fazendo retrospectiva e descobri que sou fanzasso). Se não é algo que me interessa, eu ou vejo algo na minha lista do Netflix, que só cresce, ou escolho algo no HD, que só enche. Ou um filme ou uma série, aquilo que eu mais curtir no momento — as vezes eu só quero rever uns episódios de Gilmore Girls pra dormir tranquilo com a vida, dicas saudáveis aqui.

Nem todo dia é assim, mas pra mim é importante ter uma rotina. Terça-feira eu vou no cinema de tarde, então eu costumo não ver um filme de noite, mas leio no ônibus de ida e de volta (dá umas três horas de leitura no total e eu não durmo — importante porque eu perco o sono muito fácil se eu durmo durante o dia). Sábado é dia de trabalho normal, mas domingo eu geralmente vario também: eu procuro jogar mais (eu tô com uma pilha de jogo pra experimentar ultimamente) e estudar algo que eu ache interessante. Esse domingo eu li sobre a importância da câmera em Super Mario 64. Baita lida.

Um resultado que eu (acho) que tem a ver com essa variação que eu tô fazendo ultimamente: eu ando com mais vontade, e mais inspirado, a escrever. Ainda bem, tava fazendo falta. Eu espero fazer um resuminho do que eu vi/joguei/li/ouvi nos finais de semana, ou no final do mês. Ainda não sei, veremos.

Proxi é o primeiro jogo de Will Wright em dez anos

O Will Wright anunciou ontem o primeiro jogo dele desde Spore, há 10 anos: Proxi, um jogo pra celular que vai te deixar criar e jogar em mundos a partir das tuas memórias. Eu sei lá o que isso significa:

Dez anos atrás eu tava comprando um computador novo. Eu economizei o dinheiro de aniversário, natal e dia das crianças por um ano e meio pra poder comprar esse computador. Era um desktop Positivo, Pentium D (uma bobagem que veio antes do Intel Core Duo) e que tinha uma placa de vídeo dedicada, a GeForce 8600 GS. Era tudo o que eu queria.

Quer dizer, na época eu entendia essas coisas melhor, e sabia que Pentium D era o que dava pra comprar e que eu nunca ia economizar o suficiente pra comprar uma GeForce 8800, que era supostamente a única porcaria que rodava Crysis a mais de 7 fps com os gráficos no médio. Mas eu não queria jogar Crysis. Esse investimento todo era pra comprar Spore.

Eu comprei o Spore antes de comprar o computador. A edição especial bonitona entrou em pré-venda na FNAC e eu lembro que eu fiz o inferno na minha casa até meu pai aceitar que eu:

  1. Deposite os R$ 130 que eu tinha guardado pra isso na conta dele.
  2. Pegue o cartão de crédito dele.
  3. Contenha a minha emoção.
  4. Gaste esse dinheiro num jogo sem ter nem comprado o computador pra jogar ele.

Foi a primeira vez que eu fiz uma compra pela internet e foi a primeira vez que eu peguei um cartão de crédito na vida. Na época eu jogava The Sims 2 no computador que meu pai tinha comprado pra trabalhar, um Pentium 2 com 256 MB de RAM e um monitor de tubo com aqueles vidros com uma película que tu colocava na frente. Aquilo era demais.

Eu comprei o computador pra jogar Spore uns dois meses antes do jogo lançar. Spore chegou dia 5 de setembro, uma sexta, e minha mãe não deixou eu matar aula. Eu baixei o demo do Criador de Criaturas e fiz a minha primeira criatura. Era uma bosta. Eu nunca fui muito bom de criar no Spore, mas eu amava criar mesmo assim. Eu jogo Spore até hoje.

Eu não vejo a hora do Proxi lançar. Será que meu celular vai rodar ele?