Irrelefante

Todos os posts publicados em 04/2018

Os cinco melhores de 2017

No fim do ano passado eu tinha postado em algum lugar o meu top 5 do ano. Eu não sei porque mas ele se perdeu de alguma forma então eu decidi postar ele aqui de novo.

Eu faço uns top 5 todo o ano que é basicamente uma pequena listinha das cinco melhores coisas que eu vi/li/joguei/etc. no último ano, e em 2017 teve muita coisa boa e eu acho que não é uma boa a listinha se perder. Nos últimos anos eu postava essa listinha no Pão com Mortadela, o blog que eu escrevia com os meus amigos. Em 2014 eram 10, em 2015 a gente fez cinco e mais cinco e em 2016 também teve. Como eu fiz o desse ano sozinho, não acho que é uma boa postar lá.

As regras são as mesmas: são as melhores cinco coisas diferentes que eu experimentei no ano. Por “diferente” entenda: não pode ter dois álbuns ou dois filmes, por exemplo. Eu coloco uma pequena listinha com aquilo que eu também gostei depois. Como é muito difícil eu ler um livro do ano, eu geralmente deixo livros e HQs sem o limite de tempo. Começando:

5. S-Town

(Link) Não teve nada como S-Town esse ano: um podcast que explora a cultura dos profundos Estados Unidos, sobre como as pessoas que vivem no interior do país experienciam histórias, e sobre como elas contam essas histórias depois — e o que, no final das contas, essas histórias falam sobre elas mesmas. É um íntimo retrato de um homem que vive no Alabama, contado por Brian Reed que se baseia muito no gênero gótico sulista, misturando fatos e histórias que dizem ser fatos e mentiras esdrúxulas no mesmo saco. É uma jornada desconfortável pela mente de um John B. McLemore, tão íntima que talvez não devesse existir, e que revela muito de quem somos hoje, e o quanto a gente carrega dos outros dentro de nós.

Outros links bacanas: The Next Picture Show continua sendo o melhor podcast sobre filmes por aí; Maureen Ryan consegue explicar porque The Leftovers é sobre tudo; Heather Alexandra acerta em cheio quando desvenda o porquê de Breath of the Wild ser um jogo tão íntimo.


4. No Shape

(Álbum) Eu nunca ouvi nada que capturasse tanto o meu estado de espírito em 2017 quanto No Shape, o novo álbum do Perfume Genius. Todos os trabalhos anteriores do PG eram sobre a decadência, e aqui não muda. No Shape é um pesado álbum de protesto, um recorte de como é se declarar queer hoje: das ideias que é preciso acreditar e propagar, do preconceito que existe tanto no lado de fora quanto no lado de dentro. Mais do que isso, porém, No Shape é uma busca por um refúgio, onde podemos ser quem queremos ser e o que realmente somos até chegar lá. Um lugar que não existe, o Perfume Genius acredita, mas que se cria quando você encontra a intimidade. No início de No Shape, Mike Hadreas pergunta “How long must we live right/Before we don’t even have to try?”. Ele não responde, mas devaneia: “Never thought I’d sing outside. I’m here,/How weird”. Em um mundo que acredita que nós não devemos existir, termos a chance de sermos o que somos é um privilégio. Sermos amados por isso é muito mais do que poderíamos esperar.

Outros álbuns bacanas: DAMN., do Kendrick Lamar, é essencial. I see you é o melhor álbum do the xx até aqui. Ainda bem que o LCD Soundsystem voltou com o Americam Dream. A Lorde superou o álbum de estreia com o excelente Melodrama. Todo mundo deveria ouvir Linn da Quebrada e o excelente Pajubá.


3. Certas Mulheres

(Filme) O meu amigo que recomendou Certas Mulheres foi bem direto: “é o tipo de filme que tu vai adorar”. Bem, o Leo acertou: Certas Mulheres, o novo filme da Kelly Reichardt, que foi lançado direto em DVD por aqui no ano passado, é um dos meus filmes favoritos. É um filme calmo e quieto, onde a gente conhece as suas três personagens estando com elas, acompanhando as suas rotinas e as observando de um jeito que parece que Certas Mulheres entra na mente delas. A Reichardt faz isso criando histórias simples — uma advogada precisa lidar com um cliente problemático; uma mulher precisa negociar pedras com um homem velho que não quer vendê-las; uma garota descobre sentimentos por uma professora substituta — e quase que explicitamente tirando qualquer outro significado que elas possam ter. No final das contas, o que existem nessas histórias são certas mulheres tentando levar seus dias em frente e, no caminho, recebendo o peso do mundo sobre elas. Tirando os possíveis significados de suas imagens, Certas Mulheres enche elas de sentimento. O resto fica pra nós lidarmos.

Outros filmes bacanas: Docinho da América foi direto para a Netflix (e agora está na HBO Go), mas é um filme tão grandioso que mal cabe na tela. Eu chorei ao final de De Canção em Canção (agora no Netflix), um dos filmes mais desesperadores de Terrence Malick; o Toni Erdmann da Maren Ade é simplesmente um dos melhores e mais geniais filmes já feitos. Z: A Cidade Perdida cria um épico com a beleza e a delicadeza de todos os outros filmes do James Gray.


2. The Legend of Zelda: Breath of the Wild

(Jogo) Pra um jogo tão monumental como The Legend of Zelda: Breath of the Wild, só o fato dele ser capaz de modernizar, e melhorar, a mecânica de mundo aberto e de simplesmente criar o melhor Zelda até aqui já é um feito gigante. Ser um jogo que se relaciona tanto com o jogador, que faz ele se tornar íntimo de Hyrule a ponto de sentir que ele é um ambiente realmente vivo, não pela beleza dos cenários mas pela complexidade da geografia, que surpreende a cada colina e a cada riacho. Ajuda que ele é, também, um divisor de águas no game design do mundo aberto como um tabuleiro para o jogador e que ele muda completamente a mecânica de Zelda — e, por extensão, qualquer outro jogo de ação-aventura por aí. Ou talvez simplesmente porque é o melhor simulador de subir árvores por aí. Vai saber. Há muito pra se descobrir em Breath of the Wild ainda.

Outros jogos bacanas: Everything é sobre tudo, mesmo, e uma experiência única. O desafiador e estranho Gorogoa acaba sendo um dos jogos mais emblemáticos que eu já joguei. Horizon Zero Dawn é lindo, mas também foi um jogo que envelheceu depressa demais. A história de Nier Automata pode ser estranha pra caramba, mas me emocionou demais. Super Mario Odyssey é uma pequena decepção pra mim, mas honestamente mesmo assim é um show de genialidade e de game design que só o time do Mario sabe fazer hoje em dia.


1. The Leftovers, terceira temporada

(Série) “Eu queria que todos estivéssemos prontos”, entoa a canção que abre a última, e melhor, temporada de The Leftovers. Eu queria, também. Depois de assistir a mais inventiva e fascinante série de 2017, eu não conseguia falar. Não por dor, como alguns dos personagens ficaram após a Partida. Eu tive aquele silêncio estranho, um tanto alegre, que acontece quando tu sente algo muito forte, que parece que uma parte do teu corpo foi tirada de ti. O vazio que fica no lugar é estranho e misterioso, e também reconfortante. Conveniente para uma série que é capaz de rir do fanatismo de seus personagens ao mesmo tempo que explora, com muita precisão, a dor de saber que o mundo não é o nosso lar como a gente pensa ser.

The Leftovers é isso: estranho e misterioso. É aquele tipo de série que te permite cavar a cada segundo, e ele sempre vai te entregar algo de novo, mas também sempre vai te dizer que isso não é o suficiente. É uma série que me ensinou a esperar por nada, e se satisfazer com tudo. Em The Leftovers a fé — em qualquer coisa: em xamãs, em pássaros dentro de caixas, no leão que devora a face de Deus — é capaz de torcer a realidade, fazer com que tudo seja real e tudo seja falso. Esse mundo que ficou, torcido e irreconhecível, é aleatório e mortal. Pelo menos nós ainda estamos aqui, e temos um ao outro. Em The Leftovers, a verdade não existe nas pessoas, mas nas histórias que existem entre elas. Essas, sim, são capazes de torcer a verdade. The Leftovers torceu o seu mundo na última temporada. É a melhor série que eu já vi.

Outras séries bacanas: a primeira temporada de Atlanta (na Netflix) é genial. A segunda temporada de Crazy Ex-Girlfriend (na Netflix) eleva uma boa e espertalhona série ao posto de melhor comédia hoje. The Deuce (na HBO Go) traz de volta David Simon em uma série que tem de tudo pra ser a nova The Wire. A primeira temporada de Legion (na Netflix) é divertidíssima e inventiva. A segunda temporada de Insecure (na HBO Go) é um belo retrato de se sentir perdido no meio dos amigos. O mundo não para na última temporada de Halt & Catch Fire, e ver os personagens lutando com ele é único. Não existe nada como a terceira temporada de Twin Peaks (na Netflix), e isso me deixa empolgado pelo que está por vir na TV.

Olá, Eliza!

Ontem meu primeiro tema público do WordPress foi disponibilizado no repositório oficial: diga olá pra Eliza.

Eu desenvolvi a Eliza em janeiro desse ano, quando eu tava trabalhando no Escrita. É um tema de revista que segue bastante o design e as necessidades que o Escrita precisava, então eu decidi fazer um tema redondinho pro site que ficou tão redondinho que eu decidi abrir a licença dele pra todos.

Eliza é fruto não só do Escrita, mas também do meu fascínio pelo início dos softwares de simulação de inteligencia artificial. A ELIZA original é uma psicoterapeuta simpatissíssima que eu recomendo vocês conhecerem.

Eliza, o tema, é como qualquer outro bom tema do WordPress: suporta o Personalizar, então você pode customizá-la com uma marca no lugar do nome do site e com dois menus de navegação (um no cabeçalho, outro no rodapé). Além disso a Eliza vem com uma barra lateral charmosinha porque blog que preste tem barra lateral (perdão meu blog, um dia eu faço uma pra ti também).

O código da Eliza é seguro, estável e legível — e pode ser conferido no repositório do projeto. Quando eu tiver uma folga do artigo que eu preciso escrever eu espero melhorar um pouco o comportamento do tema de um modo geral, padronizando links e tamanhos de imagem, além de dar suporte a umas coisas que o Charlie, um tema que eu estou fazendo, já tem: esquemas de cores personalizados e rolagem infinita. Eu aviso assim que fizer isso.

Inclusive! Eu fiz um minisite pra Eliza. É em inglês, é basicamente um leia-me, mas acho bacana ela ter um larzinho na internet.

O Digg Reader salvou a minha vida na internet

Eu não tive muito bem no último ano. Eu enfrentei uma depressão que eu demorei demais pra aceitar, eu fiquei desempregado de vez e eu terminei a faculdade (não é uma coisa ruim, mas muita coisa mudando de uma hora pra outra parece que faz um mal pra cabeça).

Isso me fez repensar muito do meu comportamento. Eu falei um pouco sobre como eu decidi ter uma “dieta cultural” mais saudável mês passado, por exemplo. Em 2017, eu decidi consumir informação de uma maneira mais saudável, também, o que basicamente significou deixar o Facebook e o Twitter de lado quanto a conteúdo. São vários os motivos, mas alguns são:

  1. Plataformas como o Twitter e o Facebook analisam e rastreiam aquilo que a gente clica e lê através de seus sites e apps.
  2. Essas análises acabam por alimentar o algoritmo das timelines, indicando que a gente se interessa por esse tipo de conteúdo e, então, recebendo mais conteúdo assim.
  3. Como é fácil ser atraído por matérias sobre perfil psicológico de criminoso, posts tipo look at this asshole e manchete de notícia obviamente falsa, a gente cai num vórtice em que recebe mais, consome mais e distribui mais conteúdo assim.
  4. Facebook, Twitter e, principalmente, YouTube viram agentes mais e mais ativos naquilo que a gente consome diariamente, tirando nosso poder de curar o conteúdo que a gente recebe e consome.

Lá por março do ano passado, quando eu me irritei com timelines de maneira geral, eu me lembrei que a solução para os problemas que o ambiente que as redes sociais criaram já existia, e precedia tudo isso: o bom e velho RSS.

Eu usei muito o RSS nos anos 2000. Eu gostava de acompanhar vários blogs de gente bacana, além de sites como o Eurogamer e o sagrado The Dissolve. Em 2013, quando os feeds RSS começaram a ceder espaço para feeds alimentados por pessoas e organizados por algoritmos, o Google percebeu o quanto perdia dinheiro dando o poder de escolha aos usuários e descontinuou o melhor leitor de RSS da época, o Google Reeder, para priorizar serviços que podiam ser analisados e rastreados, como o Google Notícias ou o aquele grande sucesso conhecido como Google+.

Com a morte do Google Reader, surgiu um bando de usuários que estavam sem um serviço e que procuravam um bom substituto e, com isso, um bocado de agregadores apareceram na internet: tem o Feedly, que é o mais pop; o InoReader, que tu precisa ter doutorado pra aprender a usar; o Feedbin, que é pago mas é parrudo; o The Old Reader, que é basicamente uma cópia do Google Reader pra quem prefere manter ele vivo.

Quando o Google Reader acabou (e o desespero tomou conta), começou a corrida pra testar todos esses agregadores — e mais alguns — para fazer a escolha certa. Eu acabei escolhendo o Digg Reader. Ele era absurdamente simples, tinha apenas o que o RSS suportava, e isso era suficiente.

Um RSS é, nada mais, que um padrão web que define um método rápido e alternativo para ler o conteúdo de um site. Um site que oferece um arquivo RSS é, basicamente, uma lista de links para seus artigos mais recentes, acompanhado de data, um título e um conteúdo (geralmente um resumo). Ele é extremamente leve e sem nenhuma firula. Tem gente que coloca analytics nele, mas geralmente um arquivo RSS é o mesmo há anos: uma lista de links. O Digg fez basicamente uma interface pra ler esse arquivo, que era atualizado automaticamente toda a vez que tu abria a página. Eu configurei os meus feeds em 2013 e, com a explosão do Facebook e do Twitter como feeds de notícia, o meu Reader, cuidadosamente curado e organizado, foi prontamente esquecido.


Então, ano passado, quando tudo aquilo aconteceu e eu tava farto da opressão que o Facebook me causava cada vez mais, eu decidi voltar a usar um leitor RSS. Quando eu lembrei que eu tinha uma conta no Digg, foram só dois segundos pra fazer login e pum. Tava tudo lá, exatamente do jeito que eu tinha deixado (mais uns 28392 itens não lidos). Deus salve o Digg.

Muita gente já falou isso, mas o RSS é tipo encanamento, ele está em todo o lugar — não só em sites. Ultimamente, esse padrão aberto e potencialmente modulável de internet não é muito popular. Quando eu entrei no Twitter, em 2008, eu podia acompanhar minha timeline pelo site ou por RSS. Hoje em dia Twitter e Facebook desativaram seus feeds RSS para forçar o uso dos apps oficiais. Em uma internet que é cada vez mais fechada por trás dos portões das grandes empresas de conteúdo, o RSS é como um esgoto mantido para todo o mundo acessar tudo livremente.

O melhor? O RSS não está desesperado em me mostrar o próximo post que eu preciso ler, ou uma foto ou um link que me mantenham dentro do feed dele. Quando eu abro o meu leitor de manhã, uma dúzia de posts me esperam pra começar o meu dia. Eu leio os que me interessam, eu mando pro Instapaper aqueles que quero ler com calma depois. Nada de intrusão. Meu dia começa logo depois dessa lidinha.

Meu Reeder hoje mais cedo Meu Reeder, hoje de tarde, com a maioria dos posts já lidos.

Mês passado o Digg me mandou um email avisando que ia desativar o Reader. Duas semanas depois, depois de testar (de novo) vários dos mesmos serviços que testei há cinco anos, eu exportei todos os meus feeds em um arquivo de 6kb e importei em outro serviço. Meus feeds — essa listinha boba de sites que eu gosto de acompanhar, de autores que eu gosto de ler e de assuntos que genuinamente me interessam escritos em um ângulo que eu acredito ser aquele que melhor expressa as coisas para mim — continuam vivos. Funcionam em qualquer lugar, e me surpreendem todos os dias com um link para um novo blog bacana que eu não conhecia, ou pra um artigo totalmente fora da minha zona de conforto. Eu acesso eles, me divirto, copio o link e torço pro meu leitor encontrar um feed RSS.

Sem notificações, sem interação mas com uma comunidade que existe nessa presença entre links, como as pessoas que ligam para os seus programas de rádio de manhã. É assim que o leitor RSS me conectou com pessoas e me salvou na Internet.