Irrelefante

Todos os posts publicados em 08/2018

O que eu assisti ontem à noite é um post rápido todas as manhãs com algumas impressões dos filmes e séries que eu assisti na noite anterior.

Um pássaro no peitoril de uma janela em um dia de sol

24 Frames (Abbas Kiarostami, 2017)

Ontem eu pude rever o último filme do meu diretor favorito. Eu escrevi mais sobre ele aqui, quando eu vi ele na Mostra ano passado, e aqui, depois de dar uma chorada ontem.

Eu não tenho muito o que falar sobre ele ainda, eu ainda tô descobrindo o que é 24 Frames, mas ele com certeza é um dos meus filmes favoritos. Ele me emociona ao perceber como o tempo passa rápido e devagar ao mesmo tempo. Como a morte é fria, mas a vida cerca ela. Como a vida continua, como o vento segue em frente. Eu não consigo não me emocionar pensando nesses pequenos significados de 24 Frames, e o que eles parecem sugerir para um diretor no fim de sua vida. O que ele, o filme e o diretor, significam pra mim.

No fim das contas eu fico triste que esse é o último filme do meu diretor favorito. Mas eu fico feliz que ele o fez. 24 Frames vai me acompanhar pro resto da minha vida, e provavelmente vai seguir em frente depois que ela acabar também.

O que eu assisti ontem à noite é um post rápido todas as manhãs com algumas impressões dos filmes e séries que eu assisti na noite anterior.

Esse fim de semana eu fui no Festival de Cinema de Gramado pra assistir à mostra de curtas gaúchos e dar uma conferida nos longas da mostra principal. Aí vai o que eu mais gostei.

18 e 19/08

Imagem do filme Antes do Lembrar Antes do Lembrar

Mostra de Curtas Gaúchos

O grande vencedor da noite foi Um Corpo Feminino, documentário que levou os prêmios de roteiro e filme. É emblemático e necessariamente conflitante — com uma entrevista negando a outra tanto quanto a complementa. É um lindo filme que eu queria ter visto mais, talvez desse um bom longa. Meu favorito da mostra, porém, é Antes do Lembrar, um lindo filme-ensaio que explora como as histórias se formam e como as significamos. É lindo e ambicioso — vai do paleolítico ao núcleo familiar de uma aldeia indígena. Íntimo e vasto ao mesmo tempo.

19/08

Imagem do filme Mormaço

Mormaço (2018)

O filme de estreia de Marina Meliande é fantástico. Literalmente, mas também qualitativamente. Um drama e mistério sobre uma advogada trabalhando para defender uma comunidade que precisará ser desalojada com as obras das Olimpíadas do Rio de 2016 enquanto ela mesma precisa pensar sobre ela ter que se mudar também. Quero dar um tempo pra escrever mais, mas por enquanto isso: Mormaço transforma em imagem o quão estressante e avassalador é quando nossas comunidades são destruídas. Um grande filme que também compreende que algo delas perdura, não importa o que as destrua. É um dos meus favoritos do ano.

O que eu assisti ontem à noite é um post rápido todas as manhãs com algumas impressões dos filmes e séries que eu assisti na noite anterior.

O candidado à prefeito de Nova York, Anthony Weiner, dando uma entrevista
em uma praça pública

Weiner (2016)

Uma das coisas que eu gosto em Veep, a comédia da HBO sobre a (agora ex) vice-presidente dos EUA Selina Meyer, é como a graça da série é também extremamente dolorosa. A gente ri da total incapacidade de empatia e da completa falta de conexão com o mundo que a Casa Branca tem. E eu já escutei que Veep, mais que outras séries “sérias” sobre a política dos EUA como The West Wing, é o que há de mais próximo da realidade, tanto em como as coisas operam dentro do congresso americano, tanto do linguajar dos personagens.

Bem, Veep é ficção, mas Weiner é um documentário, quase uma reportagem, sobre como o candidato democrata a prefeito da cidade de Nova York consegue se destruir e se afundar no lodo que ele cria ao redor de si mais e mais, e como ele é incapaz de enxergar o mundo de outra forma que não seja fazendo as pessoas quererem votar nele e comprarem as brigas dele. É um excelente documentário sobre como ele se destrói, claro, mas o filme se transforma em um bom retrato da queda do partido democrata nas eleições de 2016 (o Trump aparece, inclusive, e Hillary é uma presença em todo o filme — é meio que profético).

Vendo hoje, passadas as eleições e com o Weiner até preso, esse é um filme de Huma, e como ela se confronta na ideia de defender sua própria vida do marido e das opiniões externas. Não tem alguém que queira se arrastar para fora do quadro mais que Huma quando as fotos começam a vazar, e é doloroso de assistir ela se afastando mais e mais da vida que ela construiu ao lado de um cara que se afundou completamente e fez questão de levar ela junto.

Assisti na Netflix e eu recomendo muitíssimo, foi uma revisão que me impressionou mais e mais nessa segunda vez.

O que eu assisti ontem à noite é um post rápido todas as manhãs com algumas impressões dos filmes e séries que eu assisti na noite anterior.

Acabei acumulando o fim de semana, a sexta e a segunda, mas bola pra frente que foi uma cambada de filme bom!


10/08

Duas mulheres se abraçam em uma piscina vazia, com pinturas grotescas nos azulejos

3 Mulheres (Three Women, 1977)

É o filme mais diferente que eu assisti do Robert Altman, e agora é também o meu favorito dele. Não porque é diferente — Altman é um diretor que eu amo assistir, como ele cria e percorre por várias histórias que parecem sem rumo e sem conexão, mas que se complementam temática e emocionalmente. Não é bem isso que acontece em 3 Mulheres. Também é um filme de multiprotagonistas bem distintas, mas a trama é justamente sobre suas distinções começarem a se conectar e se confundir até que suas personalidades começam a trocar. É o diretor explorando aquilo que o interessa em seus outros filmes de uma forma absolutamente singular.

Não é à toa que o filme é fruto de um sonho do diretor. É palpável como é um filme que não respeita muito das lógicas que Altman aplica a seus filmes (acho que é o filme onde ele menos exercita sua empatia por todos os personagens) e como justamente isso parece criar essa sensação de surrealidade, onde nada parece fazer muito sentido, mas faz muito sentido estarem juntas nessa lógica própria que elas possuem. É lindo e perturbador. Sissy Spacek tem essa qualidade alienígena de dar a impressão que sua personagem se expressa e é aberta ao mesmo tempo que nunca é possível entender completamente seus sentimentos (é justamente o que faz sua personagem ser tão marcante também em Terra de Ninguém), e a Shelley Duvall tá sensacional percebendo que está vivendo num sonho real.

Assisti no Popcorn Time.


11/08

A estação espacial Estrela da Morte vista do espaço

Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, 2016)

Eu dei uma pirada no Letterboxd tentando explicar tudo o que esse filme faz de bom, e como ele ainda assim é decepcionante. O “problema” é que ele é decepcionante só no final — quando entrega um último ato onde finalmente um filme do Star Wars tem a coragem de se transformar em um filme de guerra, de observar os dois lados e ver o peso do conflito. É um excelente terceiro ato em um filme que simplesmente não o suporta. Ainda quer muito ser um filme Star Wars, e precisa pagar as cartas marcadas de ter uma história de honrar/questionar sua família para poder tornar-se o que é, e tem toda aquela nóia da Força que por algum motivo é o que mais chama a atenção nessa série desde os prequels. É uma pena, porque o diretor cria imagens fantásticas e não consegue sustentar elas nesse vai e não vai. Queria tanto que abrasasse o gênero que ele tá flertando, seria algo novo e fascinante para essa série, mas acabou se transformando em um Episódio 3.5.

Dois homens conversam em uma sala de projeção de cinema

Assisti no Telecine Play.

Grandeur et décadence d’un petit commerce de cinéma (1986)

É um telefilme do Jean-Luc Godard. Eu achei que seria bem mais acessível, mas na verdade é bem godardiano. Eu não tenho muita capacidade mental pro que Godard faz, mas eu sou fissurado em assistir o que ele faz mesmo assim. Aqui o que mais me interessou foi ver como ele usa a TV — ele tem uma excelente explicação do que diferencia TV e cinema que um dia tenho que postar por aqui — para contar uma história banal como essa. É bem mais ensaístico (e bem humorado) do que eu esperava que fosse pra um Godard dos anos 1980, e eu não tenho lá uma opinião formada por esse filme. É mais uma das descobertas que eu só tenho que agradecer pelo MUBI ter colocado em exibição.

Assisti no MUBI. Saiu no domingo.


12/08

Uma doutora escuta, através do estetoscópio, o movimento no estômago de um adolescente

A Garota Desconhecida (La Fille inconnue, 2016)

Eu tenho que me lembrar o quanto eu amo os filmes dos diretores Jean-Pierre e Luc Dardenne. São extremamente humanistas e contam essas pequenas histórias de pessoas tentando levar suas vidas enquanto enfrentam algo que evita que elas sigam em frente. Em A Garota Desconhecida, é sobre uma jovem médica que substitui um doutor em uma clínica familiar enquanto aceita uma oferta de emprego em uma clínica conceituada. Até que ela não abre a porta do consultório à noite e, na manhã seguinte, descobre que uma mulher morreu ali perto. É uma obra prima de delicadeza, como todos os filmes do Dardenne são, mas também é um filme de detetive, onde as ações da nossa detetive são basicamente cuidar e se importar com a comunidade que ela está atendendo. É belíssimo e extremamente sutil em sua abordagem — e nos lembra sobre como os problemas sociais que nos cercam também são nossos, mesmo que não nos afetem diretamente.

Assisti no Telecine Play. Eu recomendo muitíssimo, é um dos meus favoritos do ano.

Uma mulher olha ao redor assustada enquanto um assassino se aproxima dela por trás

A Morte Te Dá Parabéns! (Happy Death Day, 2017)

Perdi de assistir esse filme no cinema quando meus amigos vieram todos me recomendar e… bem, não gastei grana à toa, mas A Morte Te Dá Parabéns! é bastante divertido. Eu sou mais um fã de terror como Corrente do Mal e A Bruxa, onde a gente não entende muito bem o que está nos dando medo, mas A Morte Te Dá Parabéns! é quase que uma comédia de como os erros matam a protagonista até ela conseguir fazer um level perfect em um jogo onde o jogo é a própria vida dela. A sacada é boa e o filme aproveita pra fazer umas coisas bem divertidas. Com certeza vou assistir com a Aldry e a Paola quando a gente se juntar pra comer pipoca e brigadeiro de novo.

Assisti no Telecine Play.

Uma garota toma banho de piscina

Sharp Objects 1x6: Cherry (2018)

O primeiro episódio que eu não adorei de Sharp Objects é também um episódio que eu particularmente achei um saco. Eu adoro como essa série desenvolve muito mais a sensação da protagonista de estar na cidade onde passou sua infância e como tudo isso traz boas e más memórias e é difícil de escolher o que você vai sentir ao mesmo tempo, mas Cherry não explora nada novo, e ao mesmo tempo mantém o mistério — que serve como desculpa nessa série — em um banho maria bem sem graça. Talvez seja um episódio que realmente signifique algo quando a gente entender plenamente o que passa na cabeça de Camille e quando descobrirmos o que realmente aconteceu com sua irmã, mas caramba não precisava castigar tanto assim a gente, né?

Assisti no HBO Go.


13/08

Philippe Petit se equilibra na corda bamba estendida entre as duas Torres Gêmeas

O Equilibrista (Man on Wire, 2008)

Eu não esperava me emocionar tanto com a história do homem que fez a performance na corda bamba entre as Torres Gêmeas, mas James Marsh (o diretor do belíssimo Projeto Nim) está muito mais preocupado com as pessoas que se aventuraram a tornar tudo isso possível — e a empolgação delas para fazer essa performance, em tornar um espaço público tão não natural em um palco. É também um belo retrato de como isso foi o fim de um grupo de amigos, que seguiram para fazer outras coisas em seu próprio caminho depois, e o quão natural (mesmo que triste) é perceber que, depois de tanto, a gente não precisa mais fazer parte da vida das pessoas que amamos. Extremamente pessoal e inacreditável de assistir, O Equilibrista foi um ótimo filme pra começar a semana.

Assisti no Telecine Play.

O que eu assisti… é um pequeno post todas as manhãs sobre o que eu assisti no dia anterior.

Dois homens riem em uma festa

Looking: O Filme (Looking: The Movie, 2016)

Tava feliz que eu tinha revisto alguns bons amigos depois de meses deles terem se mudado pra outra cidade, e decidi rever um filme que é basicamente sobre isso. Eu tenho certeza que Looking: O Filme é um dos maiores fan-services já feitos, mas é um dos melhores também. Os showrunners Michael Lannan e Andrew Haigh criam aqui uma versão da série que cabe muito bem em um filme: um final de semana em que Patrick volta para ver seus amigos depois de fugir de um relacionamento que ia afundar, e se depara com todas as formas que os conflitos que ele não terminou continuam existindo. Haigh é um diretor incrível que cria diferentes dimensões que Patrick precisa atravessar: a cada encontro ele precisa subir uma escada, sair de um túnel ou atravessar um espelho quase que literalmente. Quando alguém finalmente faz isso pra ele, no clímax, é um dos momentos mais belos que a série já fez.

Dirigido por Andrew Haigh, assisti na HBO Go.

Homem nu cobre suas partes íntimas com um porta-retrato

Um Peixe Chamado Wanda (A Fish Called Wanda, 1988).

Eu nunca demorei tanto pra rir em Um Peixe Chamado Wanda como nessa revisão, mas eu também nunca ri tanto depois que começou. Continua sendo extremamente divertido e surpreendente, e cada vez mais um reflexo de duas culturas que se embatem e são necessariamente muito parecidas. É também um filme muitíssimo livre sexualmente, mesmo que não exiba nada gráfico, e espirituoso tanto na demonstração do sexo quanto da violência. É uma obra-prima em como construir personagens e piadas sem se preocupar em levar um tempo, porque sabe que vai retribuir cada segundo dessa confiança do espectador com uma situação necessária. É surpreendente como a gente não ri tanto deles pelo que eles são, mas como o que eles são acabam fazendo com eles. Coitada da peixe chamada Wanda também.

Dirigido por Charles Crichton, assisti no Popcorn Time.

Mãe em uma loja de roupas com sua filha adulta e sua filha adolescente

Sharp Objects, 1x5: Closer (2018)

Essa primeira temporada de Sharp Objects (e talvez única, mas é incerto se toda a minissérie da HBO que faz sucesso vai virar série como Big Little Lies fez) é surpreendente, e cada vez mais interna: Camille está mais e mais próxima de um embate com a mãe, e o golpe dessa semana — ter a certeza de que a mãe nunca a amou, o que ela mesmo confirma com uma calma mortal — pode ser definitivo. É uma descida ao caos interno de Camille que é surpreendente (e Amy Adams é fantástica a cada segundo do episódio), mas a série não para de começar e estender arcos narrativos de outros personagens e dos crimes que catapultaram a narrativa toda, e eu não sei se os próximos três episódios vão conseguir balancear tudo muoto bem. É esperar pra ver.

Dirigido por Jean-Marc Valée, criada por Marti Noxon. Assisti na HBO Go.

“O que eu assisti ontem de noite” é um postzinho rápido toda manhã com algumas considerações sobre o que eu assisti na noite anterior, seja filme ou série.

Um jovem observa seu cavalo pastando numa planície

The Rider (2017)

Eu finalmente consegui assistir um dos melhores filmes do ano, e é absolutamente incrível. Uma linda história de um amor que nunca desaparece, mesmo depois de destruir a vida daqueles que amam. The Rider é uma jornada emocional bastante forte e emblemática sobre essa fascinação dos homens de domarem cavalos, e como essa relação afeta muitos de maneira permanente — são criaturas maiores e mais fortes que nós, afinal de contas: domá-las nos dá poder, perdê-las nos mostra o quão pequenos somos. The Rider entende isso com perfeição: não há coisa mais bela do que ver seus personagens galopando com essas criaturas nas imensidões que Zhao encontra, e não há coisa mais triste do que ver as sequelas de quando isso dá errado, e quão permanentes são os efeitos dessas tragédias. É um filme que entende o quanto de nuance é preciso visualizar uma história como essas, e Zhao consegue capturar a questão econômica, a masculinidade, as relações de poder, sem nunca deixar a história de seu personagem para trás. Ela vê a comunidade de seu filme com carinho e com distância, nos fazendo querer conhecê-los mais, mas apenas entregando o necessário. Pode não ser um documentário como muitos queriam que fosse, mas é verdadeiro, e maravilhoso.

Dirigido por Chloé Zhao. Assisti no Popcorn Time.

“O que eu assisti ontem de noite” é um postzinho rápido toda manhã com algumas considerações sobre o que eu assisti na noite anterior, seja filme ou série.

Um homem olha, assustado, em uma sala escura

1977 (2017).

Hm, esse é terrível. A história parece ser muito menor do que o filme quer que ela seja (o efeito dela acaba bem cedo também), e o filme não aproveita o único potencial dela, que é observar o luto e a culpa na cabeça dessa família. 1922 é tão preocupado em querer dizer algo e mostrar algo de maneira criativa que acaba tentando fazer de tudo e não faz nada. É chato, terrivelmente longo pra um filme de um pouco mais de 1h40 e as atuações são terríveis. Nem a fazenda. talvez uma das coisas mais interessantes de se filmar, visto que ela é a própria natureza domada que tenta sempre se libertar de nós, é explorada de um jeito interessante aqui.

Assisti no Netflix.


Uma mulher e sua filha sentadas e visivelmente cansadas em um banco de uma praça

Gilmore Girls, 3x08: Let The Games Begin (2002)

O episódio logo depois do melhor que Gilmore Girls já fez (They Shoot Gilmores, Don’t They?), Let The Games Begin é uma das melhores provas sobre como o episódio anterior é fantástico e suas cicatrizes ficam na série até o final. De um modo mais direto, o episódio começa na manhã seguinte à maratona de dança, e tá todo mundo querendo morrer; e é o primeiro episódio que começa a explorar Lorelai e Luke como um provável casal. Nada de muito especial acontece aqui, mas tem um momento maravilhoso em que o Richard convida as Gilmore pra passear em Yale com uma entrevista “surpresa” pra Rory. No final, as três estão bravas com Richard por motivos diferentes, mas o que ele fez nelas é semelhante: as enganou para conseguir o que queria. A sutileza de Gilmore Girls, nos seus melhores momentos, é uma dádiva.

Assisti no Netflix.

Eu vou tentar criar o hábito de escrever toda manhã sobre o filme (ou episódio de série) que eu assisti na noite anterior. Começando hoje.

Um prédio de ponta-cabeça na cidade de Moscou sob a luz do sol

Os Hinos de Moscóvia (Gimny Moskovii, 2018)

Parte da retrospectiva do Festival de Curtas de Oberhausen esse ano, eu fiquei fascinado o quão eficaz esse filme é. Ele trafega por Moscou com imagens em ponta cabeça, tornando nosso ponto de referência o céu. É um filme-ensaio que observa a arquitetura da cidade, e tornar o ponto de referência algo tão diferente realmente funciona: as construções (belíssimas) que o filme circula ganham uma nova proporção e suas formas perdem muito do sentido inicial, mas esse é exatamente o ponto. Tirando a referência do humano de perto e observando-as de um modo completamente diferente, Os Hinos de Moscóvia parece ter a liberdade de observar esses feitos arquitetônicos sem qualquer amarra. É uma pena que ele exiba prédios com referências humanas mais pro final, porque isso meio que acaba com a mágica do filme, mas até ali é surpreendente (e a trilha-sonora é belíssima).

Dirigido por Dimitri Venkov, eu assisti esse filme no MUBI (sai hoje à meia-noite).


Três pessoas deitadas em uma cama, cobertas por um edredom

Adeus Entusiasmo (Adiós entusiasmo, 2017)

Fiquei meio decepcionado com Adeus Entusiasmo, porque no início eu achei que ia amar: a história de uma família em um apartamento que parece um labirinto, com uma mãe que nunca aparece em cena e que a gente não entende muito bem a relação entre os irmãos e ela. Primeiro o filme parece que vai ser sobre essa situação e vai tentar explorá-la sem explicar. O filme nunca explica exatamente o que está acontecendo, o que é bom, mas parece que com o tempo ele vai ficando menos interessado justamente nisso, o que não é muito bacana, porque parece que todo o envolvimento que tu tinha com a ideia foi desperdiçada. Acaba que o filme está mais interessado com as pessoas externas àquela casa mais do que o que os une dentro dela, e isso faz com que a falta de noção do lugar perca muito sentido (a gente nunca tem muita ideia de que forma essa casa tá disposta ou qual seu tamanho, porque o filme usa um 2.85:1 que te tira a noção espacial desse ambiente cavernoso, algo que eu acho bacana). Acaba que o filme vira uma confusão de ideias, mas são ideias interessantes de se ver, mesmo que sejam desperdiçadas depois.

Dirigido por Vladimir Durán, parte da seleção Descoberta Especial no MUBI (sai de exibição em três dias).

Terminei Uma Criatura Gentil do Dostoiévski hoje de manhã. Caramba, como eu senti raiva quando comecei a ler essa novela porque era incrível como o autor consegue desenvolver o mundo do narrador, a personalidade do narrador e a impressão que o narrador tem do mundo que o carca com tanta facilidade. É tão natural e flui tão bem a leitura (eu leio bem devagar) que as vezes eu esquecia completamente como o escritor delimita formalmente a história que ele tá contando.

Minhas reações sobre o livro amadureceram conforme eu ia progredindo (ainda bem), porque Uma Criatura Gentil tá sempre mudando, mesmo que a forma se mantenha a mesma. Primeiro eu fiquei meio 😕 pelo livro ser sobre o marido de uma mulher que se matou. Depois eu fiquei meio 🤔 porque o livro era sobre as impressões do marido sobre a sua esposa, que cometeu suicídio. E acabou comigo bem 😲 porque é um belo retrato de um ser humano desprezível a ponto de ser completamente cego perante a pessoa que vivia junto com ele por todo aquele tempo, tão intoxicado dentro de si mesmo e da sua própria honra que acabou não percebendo a doença da esposa até ser tarde demais. No fim, o livro só confirma todas as impressões que o narrador tenta evitar que tu tenha com aquelas explicações egocêntricas.

Que baita livro, esse. Minha próxima leitura acho que vai ser… não sei. Preciso de uma sugestão.