Irrelefante

Todos os posts publicados em 10/2018

O novo corte de A Árvore da Vida tenta decifrar o filme original

O que torna A Árvore da Vida um filme tão especial pra mim é esse sentimento de que ele conta a maior e a menor das histórias, ao mesmo tempo, como se o filme fosse um espírito vagando pelo mundo tentando compreender o que essas memórias — das maiores, como o nascimento do universo, às menores, como o nascimento de uma criança — podem significar. Elas podem significar nada, é claro, mas as vezes, quando esse bebê aprende a andar ou planeta “aprende” a gerar vida, elas podem significar tudo.

Essa modulação da grandiosa história do universo e da íntima história de Jack, um garoto crescendo nos subúrbios texanos na década de 1950, é tratada em A Árvore da Vida de uma maneira que parece negar uma “forma”. Talvez seja errado considerar que, no cinema de Terrence Malick, uma imagem leva à outra. Ao menos aqui elas parecem gerar umas às outras num fluxo contínuo e inexplicável que nunca deixa de parecer ser a única forma possível de contar tanta coisa ao mesmo tempo. É natural que a história da família O’Brien fique de lado enquanto observamos um cachorro atravessar a rua com uma pata manca. Quando um filme nos apresenta tudo com tanta vida como A Árvore da Vida, parece ser natural que tudo se inclua nessa história, que se enquadre tão bem no plano, que siga existindo mesmo quando sai do quadro.

É um filme que parece ser construído à perfeição justamente porque é possível sentir essa falta de forma. Malick construiu em sua obra-prima uma representação da natureza, pura e simplesmente, vista além do humano — ou, mais difícil ainda, questionando-se como é olhar pra vida sem ser um humano, e se é possível fazer isso. É um filme onde a narrativa se constrói perante nossos olhos, nunca parece pré-moldada. O que esse novo corte (com uma hora a mais de filme!) traz, então, é clareza. Ideias que pareciam apenas existir em meio ao tumulto do crescimento, como a paixonite jovem de Jack ou o impulso de roubar a roupa íntima da mãe, ganham mais desenvolvimento. Os próprios pais ganham uma construção narrativa — o pai do Sr. O’Brien inclusive ganha uma sequência inteirinha pra ele; a vontade de independência alimenta ainda mais o mistério (e as comparações com a natureza) da Sra. O’Brien.

Em um filme tão único e tão perfeito em sua imperfeição como é A Árvore da Vida, essas cenas adicionais se tornam muito mais curiosas do que realmente necessárias. Elas não chegam a quebrar o fluxo de imagens que Malick constrói, mas elas realmente se fazem sentir. A história da família O’Brien não é mais apenas o núcleo de uma história maior, um prisma pelo qual a gente pode assistir todo o resto, ela é a história dessa versão estendida do filme — e o futuro de Jack e o passado absoluto parecem estar lá muito mais para serem lados opostos da convergência entre o pai e a mãe. É, ao seu modo, uma nova Árvore da Vida, um filme que sempre será incompleto porque sua imensidão temática não cabe em lugar algum (e que Malick volta a dissecar, de formas diferentes, em todos os seus filmes depois dele — Viagem do Tempo é basicamente a sequência espacial em forma de longa-metragem; enquanto algumas cenas adicionais aqui parecem resquícios de Cavaleiro de Copas).

Se essa versão estendida fez algo em mim — que não conseguia parar para me concentrar em suas lindas imagens, seu avassalador uso do som, e sua catártica destruição emocional porque eu mesmo contemplava o fim do país ao mesmo tempo em que o universo surgia na tela — foi me apaixonar mais pela Árvore da Vida anterior, um filme que cada vez mais parece ambicioso por tentar compreender como o planeta nos enxerga: belo pelo que pode alcançar, triste porque é breve, furioso porque não consegue sempre compreender o mundo ao seu redor. Quando consegue, porém, enxerga um garoto tocando violão à luz do sol, se transformando no próprio som do bosque. Algo une tudo isso, A Árvore da Vida não sabe exatamente o que é, mas faz de tudo para nos fazer enxergar.