Irrelefante

O Digg Reader salvou a minha vida na internet

Eu não tive muito bem no último ano. Eu enfrentei uma depressão que eu demorei demais pra aceitar, eu fiquei desempregado de vez e eu terminei a faculdade (não é uma coisa ruim, mas muita coisa mudando de uma hora pra outra parece que faz um mal pra cabeça).

Isso me fez repensar muito do meu comportamento. Eu falei um pouco sobre como eu decidi ter uma “dieta cultural” mais saudável mês passado, por exemplo. Em 2017, eu decidi consumir informação de uma maneira mais saudável, também, o que basicamente significou deixar o Facebook e o Twitter de lado quanto a conteúdo. São vários os motivos, mas alguns são:

  1. Plataformas como o Twitter e o Facebook analisam e rastreiam aquilo que a gente clica e lê através de seus sites e apps.
  2. Essas análises acabam por alimentar o algoritmo das timelines, indicando que a gente se interessa por esse tipo de conteúdo e, então, recebendo mais conteúdo assim.
  3. Como é fácil ser atraído por matérias sobre perfil psicológico de criminoso, posts tipo look at this asshole e manchete de notícia obviamente falsa, a gente cai num vórtice em que recebe mais, consome mais e distribui mais conteúdo assim.
  4. Facebook, Twitter e, principalmente, YouTube viram agentes mais e mais ativos naquilo que a gente consome diariamente, tirando nosso poder de curar o conteúdo que a gente recebe e consome.

Lá por março do ano passado, quando eu me irritei com timelines de maneira geral, eu me lembrei que a solução para os problemas que o ambiente que as redes sociais criaram já existia, e precedia tudo isso: o bom e velho RSS.

Eu usei muito o RSS nos anos 2000. Eu gostava de acompanhar vários blogs de gente bacana, além de sites como o Eurogamer e o sagrado The Dissolve. Em 2013, quando os feeds RSS começaram a ceder espaço para feeds alimentados por pessoas e organizados por algoritmos, o Google percebeu o quanto perdia dinheiro dando o poder de escolha aos usuários e descontinuou o melhor leitor de RSS da época, o Google Reeder, para priorizar serviços que podiam ser analisados e rastreados, como o Google Notícias ou o aquele grande sucesso conhecido como Google+.

Com a morte do Google Reader, surgiu um bando de usuários que estavam sem um serviço e que procuravam um bom substituto e, com isso, um bocado de agregadores apareceram na internet: tem o Feedly, que é o mais pop; o InoReader, que tu precisa ter doutorado pra aprender a usar; o Feedbin, que é pago mas é parrudo; o The Old Reader, que é basicamente uma cópia do Google Reader pra quem prefere manter ele vivo.

Quando o Google Reader acabou (e o desespero tomou conta), começou a corrida pra testar todos esses agregadores — e mais alguns — para fazer a escolha certa. Eu acabei escolhendo o Digg Reader. Ele era absurdamente simples, tinha apenas o que o RSS suportava, e isso era suficiente.

Um RSS é, nada mais, que um padrão web que define um método rápido e alternativo para ler o conteúdo de um site. Um site que oferece um arquivo RSS é, basicamente, uma lista de links para seus artigos mais recentes, acompanhado de data, um título e um conteúdo (geralmente um resumo). Ele é extremamente leve e sem nenhuma firula. Tem gente que coloca analytics nele, mas geralmente um arquivo RSS é o mesmo há anos: uma lista de links. O Digg fez basicamente uma interface pra ler esse arquivo, que era atualizado automaticamente toda a vez que tu abria a página. Eu configurei os meus feeds em 2013 e, com a explosão do Facebook e do Twitter como feeds de notícia, o meu Reader, cuidadosamente curado e organizado, foi prontamente esquecido.


Então, ano passado, quando tudo aquilo aconteceu e eu tava farto da opressão que o Facebook me causava cada vez mais, eu decidi voltar a usar um leitor RSS. Quando eu lembrei que eu tinha uma conta no Digg, foram só dois segundos pra fazer login e pum. Tava tudo lá, exatamente do jeito que eu tinha deixado (mais uns 28392 itens não lidos). Deus salve o Digg.

Muita gente já falou isso, mas o RSS é tipo encanamento, ele está em todo o lugar — não só em sites. Ultimamente, esse padrão aberto e potencialmente modulável de internet não é muito popular. Quando eu entrei no Twitter, em 2008, eu podia acompanhar minha timeline pelo site ou por RSS. Hoje em dia Twitter e Facebook desativaram seus feeds RSS para forçar o uso dos apps oficiais. Em uma internet que é cada vez mais fechada por trás dos portões das grandes empresas de conteúdo, o RSS é como um esgoto mantido para todo o mundo acessar tudo livremente.

O melhor? O RSS não está desesperado em me mostrar o próximo post que eu preciso ler, ou uma foto ou um link que me mantenham dentro do feed dele. Quando eu abro o meu leitor de manhã, uma dúzia de posts me esperam pra começar o meu dia. Eu leio os que me interessam, eu mando pro Instapaper aqueles que quero ler com calma depois. Nada de intrusão. Meu dia começa logo depois dessa lidinha.

Meu Reeder hoje mais cedo Meu Reeder, hoje de tarde, com a maioria dos posts já lidos.

Mês passado o Digg me mandou um email avisando que ia desativar o Reader. Duas semanas depois, depois de testar (de novo) vários dos mesmos serviços que testei há cinco anos, eu exportei todos os meus feeds em um arquivo de 6kb e importei em outro serviço. Meus feeds — essa listinha boba de sites que eu gosto de acompanhar, de autores que eu gosto de ler e de assuntos que genuinamente me interessam escritos em um ângulo que eu acredito ser aquele que melhor expressa as coisas para mim — continuam vivos. Funcionam em qualquer lugar, e me surpreendem todos os dias com um link para um novo blog bacana que eu não conhecia, ou pra um artigo totalmente fora da minha zona de conforto. Eu acesso eles, me divirto, copio o link e torço pro meu leitor encontrar um feed RSS.

Sem notificações, sem interação mas com uma comunidade que existe nessa presença entre links, como as pessoas que ligam para os seus programas de rádio de manhã. É assim que o leitor RSS me conectou com pessoas e me salvou na Internet.