Irrelefante

Spore faz 10 anos

Imagem do jogo Spore Essa imagem revela muito sobre a minha personalidade.

Hoje é 5 de setembro e eu recebi uma notificação no meu email sobre um novo post nos fóruns de Spore, fóruns que eu modero há mais de uma década já. O título do post é “Pessoal, lembrem-se que o aniversário de Spore é dia 7 de setembro”.

Errado.

Errado, porque Spore é o jogo mais importante da minha breve existência. Foi o jogo que me interessou por game design. Foi o jogo que me fez querer aprender a fazer sites, e que acabou me dando emprego. Foi o jogo que eu encontrei uma comunidade na internet que me deu abrigo e me animou por várias madrugadas, quando era na madrugada que eu podia acessar a internet. E o meu Spore chegou em 5 de setembro de 2008. Pelo menos a caixa dele chegou nesse dia. A caixa branca, laminada, que vinha um jogo, um documentário sobre o jogo, um manual caprichado e um livro sobre o desenvolvimento. Eu li aquele livro zilhões de vezes. Eu tenho passagens dele decoradas na minha mente.

Spore chegou muito antes de 2008 na minha vida, pra falar a verdade, e seus impactos vão durar muito mais do que esses dez anos. Em 2005 eu ganhei dos meus pais The Sims 2, e passava meus dias jogando. Na madrugada, eu ficava acessando o OSimBR pra baixar mods, ou o exchange pra baixar conteúdo personalizado. Dia 9 de agosto de 2005 (eu lembro bem, era a madrugada do aniversário da minha mãe), eu vi uma notícia sobre o novo jogo do criador de The Sims. Eu me apaixonei.

Eu passei a madrugada lendo sobre esse novo jogo. “Um simulador que fará você controlar uma criação desde a fase molecular até o império galáctico” a prévia no UOL Jogos dizia. “Tudo no jogo será criado pelos jogadores, e será distribuído automaticamente na internet” prometia a prévia do GameSpot. Eu nunca me empolguei tanto por algo quanto por aquele jogo que a gente mal tinha visto em 2005. Spore era a promessa mais empolgante de todas. Um jogo definitivo.

Eu tinha 11 anos naquela época, e aquela madrugada deve ter durado umas duas semanas. Eu aprendi a criar um blog no Blogger. Eu comecei a postar todas as notícias que eu encontrava nesse blog. Por três anos, eu conheci pessoas que também assistiram e liam as notícias que eu li, entrei em contato com a Electronic Arts, aprendi a desenvolver sites. Tudo porque eu estava apaixonado por um jogo que, a cada notícia, era adiado. A cada novo vídeo, um recurso era descartado. Spore foi a maior promessa do mundo dos jogos, e foi uma das maiores decepções também.

Não que eu seja amargurado quanto a isso. Eu amo o jogo que eu joguei em 2008, eu amo até hoje. Spore foi o primeiro jogo que me deu liberdade e confiança de fazer o que eu bem entendesse, e me retribuía. Do jeito atrapalhado e insignificante, mas ele retribuía. Em 2006 meu pai comprou um computador pra que eu e minha irmã pudéssemos jogar The Sims sem ficar enfurnando ele pra sair do computador dele (sábio e paciente, sempre), e em junho de 2008 eu fiz o meu primeiro investimento: economizei tudo o que eu podia pra comprar uma placa de vídeo pro computador poder jogar Spore. Quando o jogo finalmente chegou, meses depois, e eu finalmente instalei ele, eu senti que eu nunca mais precisaria sair da frente do computador. Tudo o que eu queria estava ali.

É um jogo decepcionante. Não tinha como não ser. Havia bugs, vários, mas eles eu nem me incomodava. O jogo era bonito, e isso que me interesava. Eu podia espichar aquele pedaço de massinha de modelar pra qualquer lado, e criar uma banana que sabia voar. Era isso que sempre me animou em Spore. O maior problema é que eu não me interessava muito pelo jogo onde eu podia levar aquela banana a ser um desbravador do meu planeta. A Maxis soube fazer simuladores de cidade como ninguém, mas na tentativa de não tornar Spore em algo maçante, eles tornaram o simulador de cidade — um dos vários jogos dentro de Spore — em algo extremamente chato. O maior problema do jogo talvez seja esse: é um jogo com uma excelente ideia, mas que os jogos que os compõe são mais sombras de ideias melhores (Pac-Man, The Sims, Populous, Civilization) do que necessariamente jogos bons. Não interessava muito o que você fazia no jogo, porque o jogo não tinha muito interesse em te fazer mergulhar nessas fases como as inspirações dele tinham. Mesmo a melhor coisa de Spore, suas ferramentas de criação, se tornavam algo chato: é incrível poder criar sua criatura, e editá-la quando quiser, mas quando você chega no estágio de Civilização o jogo quer que você, já no início, crie vários edifícios e veículos. O que era bom ficava cansativo.

Foi uma noite complicada, essa do 5 de setembro de 2008. Eu estava dividido entre a empolgação de finalmente jogar o jogo que eu passei anos esperando, e o gosto amargo da decepção de ele não ser muito bom. Foi quando o criador abriu uma última vez, e me pediu pra criar uma nave. Foi quando a nave que eu criei começou a diminuir e diminuir, até que o planeta que eu estava virar um pontinho no meu monitor de 1024x768. E o sol da minha estrela diminuiu e diminuiu, até ele mesmo virar um pontinho na minha tela. Spore me mostrava a galáxia. E eu poderia viajar pra qualquer ponto dela.

Eu me apaixonei por Spore de novo naquele instante.

Não é um jogo perfeito, mas Spore é um jogo fascinante. Seja pelo que ele fez de errado, seja pelo que ele quis fazer certo. Seja pelo que ele faz muito bem. Quando eu atingo o estágio espacial de Spore, e preciso guiar minha civilização pra ter uma boa relação com outros alienígenas, que eu preciso encontrar planetas pra colonizar e estabelecer rotas comerciais com outras espécies, e que a próxima estrela que eu visito é um planeta em forma de cubo, ou tem um artefato misterioso pra minha coleção; eu lembro do jogo que me foi prometido em 2005, e que ainda vive, meio torto, meio confuso, no meio daquilo tudo: um jogo infinito, que eu posso explorar pra sempre, e que vai me retribuir com algo novo e lindo sempre que eu estiver disposto a voltar pra ele, porque ainda há uma comunidade viva ao seu redor, e porque essa comunidade continua criando coisas fantásticas, e porque no fim de tudo, Spore, o maior jogo de todos e o pior jogo de todos, é lindo por ser como aquilo que ele nos permite criar: desengonçado, mas único.

Eu vou continuar recebendo notificações do fórum de Spore enquanto o jogo sobreviver. E eu espero que sobreviva mais um tempo. Já são 10 anos, e nenhum outro jogo almejou ser tão grande como Spore, e certamente nenhum outro jogo conseguirá ser como Spore. Não haverá outro Spore, mas eu sempre vou ter o meu. Spore é um verdadeiro paradoxo. Falho, mas fascinante. Imperfeito, mas lindo como nenhum outro jogo foi.

E vai ser por muito tempo o meu jogo favorito.