Irrelefante

Anotações sobre minha maratona de Kelly Reichardt nesse fim de semana

Eu não ando tendo muita oportunidade de ver filmes durante a semana. Eu chego cansado do trabalho e geralmente janto e vou dormir. Por isso eu ando aproveitando os finais de semana e vendo o máximo de filmes que eu consigo. Eu os escolho durante a semana e no sábado mato a vontade toda de uma vez (domingo de manhã eu assisto algo no MUBI, algo que já virou tradição). Como eu ia passar esse último final de semana sozinho, aproveitei para fazer algo que eu queria fazer há um tempo: assistir todos os filmes da Kelly Reichardt, minha nova diretora favorita.

O que mais me atrai no cinema de Reichardt é a maneira como ela aborda o relacionamento entre o ser humano e a natureza que resiste ao seu redor. Seja aqueles que buscam nela um refúgio (Antiga Alegria) ou que precisam atravessá-la para encontrar uma nova vida (O Atalho), os personagens nos filmes da diretora precisam lutar com a natureza de alguma forma — e esse embate acaba por revelar um pouco da natureza deles mesmos.

É uma relação emblemática — como a natureza luta para sobreviver com uma sociedade que se expande pra cima dela, e como as pessoas que criam essa sociedade lutam para sobreviver nela. Talvez a relação me interesse porque Reichardt encontrou um cenário perfeito para essa dualidade: as cidades pequenas no Oregon (e, em Certas Mulheres, em Montana). É algo que eu entendo completamente. Como morador de uma cidade pequena no interior, fui criado no meio de regras e limites em relação à natureza ao redor de onde vivo — como não devemos desfazer teias de aranha ao redor da nossa casa, porque elas diminuem a quantidade de mosquitos, mas nenhuma aranha é poupada quando entra em casa. É uma harmonia sempre em conflito, e uma bela tradução dos conflitos dos seus personagens — pessoas na beira da sociedade que precisam entender ou encontrar um lugar nela.

Cena do filme “O Atalho”

Os filmes de Reichardt contemplam essa natureza com uma beleza respeitosa: seus planos são longos e muitas vezes estáticos, ou com movimentos vagarosos. A diretora segue seus personagens com uma certa distância espacial, permitindo que vejamos como eles enfrentam seus dias — suas tarefas diárias ou os pequenos obstáculos que precisam superar para ir do ponto A ao B. Mas Reichardt é segura de sua direção, e seu minimalismo estético é apenas uma impressão, porque seus filmes nunca são devagares por serem devagares — há sempre algo acontecendo, a história sempre segue em frente, sempre há um desenvolvimento no personagem. Ela só decide percebê-lo em ações pequenas, no processo de trabalho. Em O Atalho, talvez seu filme mais formalmente expressivo nesse sentido, nós acompanhamos um grupo de colonos que atravessa o terreno árido de Oregon a procura de água para seguir viagem para um novo lar. É um filme de lindas imagens, que Reichardt consegue fazer refletir a dureza da jornada deles: o horizonte é plano e seco, e o vemos constantemente. O céu é implacável, e parece que a qualquer momento ele pesará nos ombros daquelas pessoas. Ao invés de perdurar essa jornada, a diretora preenche-a com pequenas tarefas — montar uma barraca, costurar um sapato, estender as roupas.

São ações melancólicas, mas apenas porque são cotidianas. Kelly Reichardt parece ter um apreço por essas pessoas que precisam realizar trabalhos manuais para sobreviver. Ela os vê no processo, no resultado e na decepção. Isso porque é através dessas pequenas ações que os personagens de seus filmes parecem se transformar. Em Antiga Alegria, ao encontrar os banhos termais com um amigo que não via há tempos, um homem percebe que aquela amizade (e talvez uma possível atração sexual) já acabou. Reichardt usa da procura pelos banhos termais, que demora mais tempo do que eles previram, à preparação da banheira — enchê-la de água quente e colocar água fria para assustar, como as tarefas que eles precisam realizar para finalmente entender o que estão fazendo ali. De maneira semelhante, a diretora cria uma cena extensa em Movimentos Noturnos onde uma personagem precisa comprar fertilizante, dividindo-a em pequenos momentos em que ela percebe a câmera de segurança, o homem que precisa negociar e os funcionários que percorrem o lugar — e ela entende, bem como o espectador, que a cada segundo que ela passa ali, mais suspeita ela vai parecer.

Cena de “Certas Mulheres”

De certa forma, os personagens dos filmes de Kelly Reichardt tem jornadas semelhantes às que ela procura proporcionar para seus espectadores. Através desse minimalismo estético e das tarefas mundanas, Reichardt procura compreender esses personagens através de um momento de autodescoberta — quando Wendy percebe que Lucy ficará melhor sem ela, ou quando os ativistas de Movimentos Noturnos ficam em silêncio após conseguirem explodir uma represa. Em um breve momento, eles percebem seu lugar naquele ambiente, finalmente compreendem algo sobre si mesmos. Porque Reichardt nos sugere tão poucos significados sobre suas ações — ou melhor, apenas significados suficientes —, nós podemos apenas imaginar o que é finalmente compreendido dentro deles.

Essa dualidade existe em toda a filmografia da diretora, mas ela mesma reflete sobre. É constante a figura indígena — em Antiga Alegria, é uma das histórias que Kurt conta para Mark; em O Atalho, é o oponente; em Movimentos Noturnos, é o ideal e, em Certas Mulheres, é um sobrevivente no meio de um shopping. Afinal ali está alguém que encontrou uma harmonia com seu papel na natureza, e que por isso a sociedade entra em conflito com. Viver entre esses dois mundos, e tentar se entender no meio dele, é fadado ao fracasso (não é a toa que todos os seus personagens ou vivem às margens da sociedade, ou fracassam naquilo que se pretendem). Mas, por um breve momento em Certas Mulheres, em que uma cuidadora de cavalos olha ao seu redor no rancho e sente o ar ao seu redor, ela percebe algo que eu percebi algumas vezes no meio da minha cidade pequena: um sentimento estranho onde eu não sei onde o meu corpo acaba e o meu ar começa. É quando finalmente a gente se sente parte de algo, unido com alguma coisa. O sentimento acaba, porque Jamie precisa terminar de limpar o estábulo, mas por um breve momento a gente consegue entender o que poderíamos ser, o que poderíamos atingir. É melancólico que a gente só possa sonhar com isso, mas devemos seguir em frente antes de que o céu caia sobre nossos ombros.


No meu Letterboxd eu escrevi um pouco sobre cada um desses filmes.