Irrelefante

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Ontem de noite eu não tinha muita coisa pra pensar (ou melhor, eu devia estar pensando num post que eu tô escrevendo mas não tava conseguindo evoluir) e fiquei fazendo equivalentes entre Star Wars e Harry Potter.

Se a gente for parar pra pensar a atual franquia de Harry Potter, essa ridícula Animais Fantásticos & Onde Habitam sofre de vários problemas que acometeram a trilogia de prequels de Star Wars. Há uma tentativa muito errada de “conectar” as várias histórias que na série original nos davam aquela impressão de que esse era um mundo extenso e muito além da história do Potter, fazendo todas as histórias do passado que a gente ouvia serem muito mais próximas uma das outras, com umas conexões meio bobas. Também tem o uso de personagens que são só citados, e como eles geralmente são muito menos interessantes do que as histórias que nós imaginávamos deles. Tem uma troca de cenário (Estados Unidos não é nem um pouco tão interessante quanto a Inglaterra mágica). E tem uma autora tão afundada na própria cabeça que não consegue ver que ela está minando tudo o que havia de mais lindo na série — e assim excluindo uma parte de seus leitores no caminho.

Eu sou daqueles que acha que Os Últimos Jedi talvez seja o melhor Star Wars já feito, muito porque desvirtua tudo o que a série fazia até ali e realmente expande aquela galáxia, tornando ela muito maior e mais imprevisível do que todos os outros filmes antes fizeram (ok, talvez O Império Contra-Ataca tenha feito isso). É um novo fôlego pra uma fórmula batida, e se a Warner decidir dar novas mentes pra uma possível terceira série de filmes nesse mundo do Harry Potter, pode ser pra melhor. Eu mal posso esperar um Os Últimos Jedi no mundo de Harry Potter.

Eu atualizei o meu Letterboxd com os filmes que eu vi nessa última semana de junho. Como eu ando vendo bem menos filme do que antes de começar a trabalhar, e tenho menos tempo do que antes, eu acabo só logando eles pela semana e procuro escrever pelo menos um parágrafo ou alguma impressão no Letterboxd no final de semana.

Os filmes dessa semana são:

  • Hereditário (⋆⋆⋆): terrorzão bem bom que vi na terça com a Aldry, a Paola e o Gui. Vale cada susto.
  • Jogador Número 1 (⋆⋆): achei que ia me divertir bem mais, mas a histórinha tosca me incomodou bastante.
  • Missão Impossível: Protocolo Fantasma (⋆⋆⋆⋆): basicamente a cena em que a Sra. Incrível se infiltra no QG do Síndrome em Os Incríveis, só que agora em live-action e com duas horas. É tão divertido quanto deveria ser.
  • Tomorrowland (⋆⋆): eh, ninguém conseguiria salvar um roteiro que quer fazer tanta coisa ao mesmo tempo. Eu acho que esse filme deveria ser uma animação, também, dado a açào que parece que veio de um filme do Looney Tunes.
  • The Tale (⋆⋆⋆⋆): eu ainda tô engolindo esse filme, que me abalou bastante e me fez pensar num bocado de coisa. Mas é excelente e eu recomendo completamente.

Anotações sobre minha maratona de Kelly Reichardt nesse fim de semana

Eu não ando tendo muita oportunidade de ver filmes durante a semana. Eu chego cansado do trabalho e geralmente janto e vou dormir. Por isso eu ando aproveitando os finais de semana e vendo o máximo de filmes que eu consigo. Eu os escolho durante a semana e no sábado mato a vontade toda de uma vez (domingo de manhã eu assisto algo no MUBI, algo que já virou tradição). Como eu ia passar esse último final de semana sozinho, aproveitei para fazer algo que eu queria fazer há um tempo: assistir todos os filmes da Kelly Reichardt, minha nova diretora favorita.

O que mais me atrai no cinema de Reichardt é a maneira como ela aborda o relacionamento entre o ser humano e a natureza que resiste ao seu redor. Seja aqueles que buscam nela um refúgio (Antiga Alegria) ou que precisam atravessá-la para encontrar uma nova vida (O Atalho), os personagens nos filmes da diretora precisam lutar com a natureza de alguma forma — e esse embate acaba por revelar um pouco da natureza deles mesmos.

É uma relação emblemática — como a natureza luta para sobreviver com uma sociedade que se expande pra cima dela, e como as pessoas que criam essa sociedade lutam para sobreviver nela. Talvez a relação me interesse porque Reichardt encontrou um cenário perfeito para essa dualidade: as cidades pequenas no Oregon (e, em Certas Mulheres, em Montana). É algo que eu entendo completamente. Como morador de uma cidade pequena no interior, fui criado no meio de regras e limites em relação à natureza ao redor de onde vivo — como não devemos desfazer teias de aranha ao redor da nossa casa, porque elas diminuem a quantidade de mosquitos, mas nenhuma aranha é poupada quando entra em casa. É uma harmonia sempre em conflito, e uma bela tradução dos conflitos dos seus personagens — pessoas na beira da sociedade que precisam entender ou encontrar um lugar nela.

Cena do filme “O Atalho”

Os filmes de Reichardt contemplam essa natureza com uma beleza respeitosa: seus planos são longos e muitas vezes estáticos, ou com movimentos vagarosos. A diretora segue seus personagens com uma certa distância espacial, permitindo que vejamos como eles enfrentam seus dias — suas tarefas diárias ou os pequenos obstáculos que precisam superar para ir do ponto A ao B. Mas Reichardt é segura de sua direção, e seu minimalismo estético é apenas uma impressão, porque seus filmes nunca são devagares por serem devagares — há sempre algo acontecendo, a história sempre segue em frente, sempre há um desenvolvimento no personagem. Ela só decide percebê-lo em ações pequenas, no processo de trabalho. Em O Atalho, talvez seu filme mais formalmente expressivo nesse sentido, nós acompanhamos um grupo de colonos que atravessa o terreno árido de Oregon a procura de água para seguir viagem para um novo lar. É um filme de lindas imagens, que Reichardt consegue fazer refletir a dureza da jornada deles: o horizonte é plano e seco, e o vemos constantemente. O céu é implacável, e parece que a qualquer momento ele pesará nos ombros daquelas pessoas. Ao invés de perdurar essa jornada, a diretora preenche-a com pequenas tarefas — montar uma barraca, costurar um sapato, estender as roupas.

São ações melancólicas, mas apenas porque são cotidianas. Kelly Reichardt parece ter um apreço por essas pessoas que precisam realizar trabalhos manuais para sobreviver. Ela os vê no processo, no resultado e na decepção. Isso porque é através dessas pequenas ações que os personagens de seus filmes parecem se transformar. Em Antiga Alegria, ao encontrar os banhos termais com um amigo que não via há tempos, um homem percebe que aquela amizade (e talvez uma possível atração sexual) já acabou. Reichardt usa da procura pelos banhos termais, que demora mais tempo do que eles previram, à preparação da banheira — enchê-la de água quente e colocar água fria para assustar, como as tarefas que eles precisam realizar para finalmente entender o que estão fazendo ali. De maneira semelhante, a diretora cria uma cena extensa em Movimentos Noturnos onde uma personagem precisa comprar fertilizante, dividindo-a em pequenos momentos em que ela percebe a câmera de segurança, o homem que precisa negociar e os funcionários que percorrem o lugar — e ela entende, bem como o espectador, que a cada segundo que ela passa ali, mais suspeita ela vai parecer.

Cena de “Certas Mulheres”

De certa forma, os personagens dos filmes de Kelly Reichardt tem jornadas semelhantes às que ela procura proporcionar para seus espectadores. Através desse minimalismo estético e das tarefas mundanas, Reichardt procura compreender esses personagens através de um momento de autodescoberta — quando Wendy percebe que Lucy ficará melhor sem ela, ou quando os ativistas de Movimentos Noturnos ficam em silêncio após conseguirem explodir uma represa. Em um breve momento, eles percebem seu lugar naquele ambiente, finalmente compreendem algo sobre si mesmos. Porque Reichardt nos sugere tão poucos significados sobre suas ações — ou melhor, apenas significados suficientes —, nós podemos apenas imaginar o que é finalmente compreendido dentro deles.

Essa dualidade existe em toda a filmografia da diretora, mas ela mesma reflete sobre. É constante a figura indígena — em Antiga Alegria, é uma das histórias que Kurt conta para Mark; em O Atalho, é o oponente; em Movimentos Noturnos, é o ideal e, em Certas Mulheres, é um sobrevivente no meio de um shopping. Afinal ali está alguém que encontrou uma harmonia com seu papel na natureza, e que por isso a sociedade entra em conflito com. Viver entre esses dois mundos, e tentar se entender no meio dele, é fadado ao fracasso (não é a toa que todos os seus personagens ou vivem às margens da sociedade, ou fracassam naquilo que se pretendem). Mas, por um breve momento em Certas Mulheres, em que uma cuidadora de cavalos olha ao seu redor no rancho e sente o ar ao seu redor, ela percebe algo que eu percebi algumas vezes no meio da minha cidade pequena: um sentimento estranho onde eu não sei onde o meu corpo acaba e o meu ar começa. É quando finalmente a gente se sente parte de algo, unido com alguma coisa. O sentimento acaba, porque Jamie precisa terminar de limpar o estábulo, mas por um breve momento a gente consegue entender o que poderíamos ser, o que poderíamos atingir. É melancólico que a gente só possa sonhar com isso, mas devemos seguir em frente antes de que o céu caia sobre nossos ombros.


No meu Letterboxd eu escrevi um pouco sobre cada um desses filmes.

Um dos planos mais emblemáticos da década e ainda assim a Criterion arrasou. Mal posso esperar pra pôr minhas mãos nessa edição especial.

Capa da edição de A Árvore da Vida pela Criterion

A trilha-sonora de Lean On Pete

Eu não consigo parar de pensar em Lean On Pete, o novo filme do Andrew Haigh (e que eu tô suspeitando que não vai ser lançado nos cinemas por aqui). É um lindo filme, que tem aquela simplicidade e intensidade dos outros filmes do diretor. E isso não é pouca coisa, porque Weekend, 45 Anos e Looking são alguns dos meus filmes favoritos dos últimos anos.

Agora contemplem por uns instantes a música composta para Lean On Pete. Ela por si só já é belíssima. Tá sendo a minha companheira nos últimos dias.

Os filmes de Cannes que eu quero ver, edição 2018

Todo ano eu fico meio assim com Cannes, porque lendo a lista dos selecionados nada parece muito empolgante. “Ah, um novo do Von Trier! Quanto será que ele vai me irritar agora?” foi a reação mais forte que eu tive ao conferir a lista no início do mês. Agora que o festival acabou, que o Notebook já viu de tudo e postou notas sobre eles, eu começo a ficar interessado nas coisas tudo e preciso correr atrás.

Pra me organizar e acompanhar esses filmes, aí vai a lista do que eu quero ver de Cannes esse ano:

Competição:

  • Everybody Knows: o novo do Asghar Farhadi com Pelenope Cruz. Abriu o festival com críticas mornas, mas eu não consigo não me empolgar pra um novo do Farhadi. Ou da Penelope Cruz. Parece uma delícia de assistir.

  • O Livro de Imagens: eu lembro quando fiquei sabendo que Filme Socialismo tinha sido selecionado pro Un Certain Regard e tinha me deixado completamente fascinado pelo trailer. Eu vi o filme com o João no laptop no meio de uma aula de programação. Mal posso esperar pra ver esse (que levou uma Palma especial???).

  • Sorry Angel: eu só li sobre esse filme hoje, mas é um conto gay do Cristophe Honoré que não fez muito barulho. Exatamente o meu tipo de filme.

  • Shoplifter: assistir o vencedor da Palma é sempre obrigatório. Esse ano que parece que eles finalmente deram a Palma pro merecedor (algo que não acontecia desde o quê, 2011?), finalmente é empolgante. Kore-eda é lindo sempre, vamo ver esse aqui.

  • Under the Silver Lake: foi bem mal recebido mas eu gosto muito do It Follows então ok.

  • BlacKkKlansman: puta merda se esse filme não parece tudo o que eu sempre quis ver do Spike Lee e que ele chegou muito perto com Chi-Raq.

  • Guerra Fria: o novo filme do diretor de Ida parece lindo e muito triste, bem o que eu gosto mais em Ida.

  • 3 Faces: Panahi homenageando Kiarostami? Muito minha cara.

  • Feliz como Lazzaro: o mais intrigante da competição e que parece lindo. Vai ser lançado por aqui pela Netflix e eu tô triste.

  • The Wild Pear Tree: o novo do Ceilan (que ganhou a Palma em 2015) fechou a competição e não fez muito barulho. Mas tem quase três horas e todo filme dele é como assistir uma homilia. Lindo, misterioso e que fica na tua cabeça por algum motivo indefinido.

Fora de competição e exibições especiais:

  • A Casa que Jack Construiu: eu não tenho interesse nenhum em um filme que o Von Trier parece embelezar sua própria misoginia, mas ao menos isso vai dar uma boa sessão + cerveja com o Erê.

  • O Grande Circo Místico: do Carlos Diegues. Parece lindo.

  • Dez Anos na Tailândia: novo do Joe & amigos, caralho.

  • Fahrenheit 451: vai vir pro HBO, é claro que eu vou ver.

Un Certain Regard:

  • Long Day’s Journey Into Night.

  • Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos: levou o prêmio do júri e foi o queridinho da crítica esse ano. Que orgulho.

  • Dunbass: o novo do Loznitsa (eu ainda quero assistir o Uma Criatura Gentil dele, esquecido na competição do ano passado) é simplesmente o filme que eu mais quero ver de Cannes esse ano.

Semana da Crítica:

  • Wildlife: esse filme do Paul Dano parece bom demais pra ser verdade.

Quinzena dos Realizadores:

  • Pássaros de Passagem: novo filme da equipe de O Abraço da Serpente, um dos meus filmez favoritos dos últimos anos. Um drama familiar no meio do conflito do narcotráfico colombiano. Parece lindo.

  • Climax: o novo do Gaspar Noé que tão dizendo ser o melhor dele!!!!

Bastante coisa esse ano. Queria ter visto um James Gray ou uma Claire Denis nessa lista também, mas ainda tem Veneza, né.