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TUDO É COMPLETAMENTE ESPECIALMENTE INCRÍVEL

Uma Aventura LEGO tinha um zilhão de chances de dar errado. Poderia acabar sendo um grande comercial das peças de montar, ou um monte de referências que crianças não entenderiam e que os adultos não gostariam (como nos dois últimos Shrek). Mas não: Uma Aventura LEGO acertou em cheio.

Imagem de Uma Aventura Lego

Primeiro, sim. É um grande comercial da LEGO, mas isso não é de todo ruim. Usar todo o universo de coleções que a empresa possui para criar um mundo inteiramente feito de peças de montar é no mínimo incrível. Em alguns momentos, inclusive, eu esqueci completamente que o filme era feito em computação gráfica e achei que era um stop-motion usando os brinquedos reais. São ruas, casas, prédios e cenários inteiros feitos apenas com as peças de montar. Até mesmo a água é feita com as peças “um por um” (inclusive, as nomenclaturas que usamos quando estamos montando os sets são usados pelos personagens, um deleite).

Mas Uma Aventura LEGO vai além porque é tudo o que o cinema quis mostrar. Ele leva a imaginação a sério permitindo que completamente qualquer coisa apareça na tela. Isso quer dizer que aqui é o único filme em que será possível conferir personagens como Batman, Dumbledore, Michelangelo, Michelangelo (o pintor), Gandalf, Super-Homem, Lanterna Verde, Mulher-Maravilha, Shakespeare, Han Solo, Chewbecca e C3PO em um cenário. É mágico poder assistir metade das referências de sua infância juntas em um só quadro de filme.

E é isso que torna Uma Aventura LEGO tão especial. Ele pega os imaginativos mundos criados pelas crianças com os conjuntos de LEGO e dão movimento. Mas a essência da brincadeira está sempre lá: enquanto os personagens correm em um carro turbinado, eles atravessam o Velho-Oeste e a lua, um mar cheio de piratas, um arranha-céu maligno e uma nuvem que parece ter sido criada por John Lennon e a Lucy no céu com diamantes.

Imagem de Uma Aventura Lego Benny, o astronauta da década de 50 e um dos mais adoráveis personagens do filme.

Tudo é incrível em Uma Aventura LEGO. Tudo é possível também. Com os cenários feitos inteiramente de peças de LEGO e usando todas as centenas de licenças que a LEGO possui, os diretores criam um incrível filme cheio de criatividade e humor, uma mensagem importante (para tanto filhos quanto pais) e torna possível que o mundo de imaginação que todas as crianças sonham quando crianças se torne real em um filme.

(Ah, sim, você vai ficar com a música-tema na cabeça por alguns dias).

Dos filmes de 2011

Pra ser bem sincero, eu achei 2011 bem morno em matéria de cinema. As distribuidoras ferraram com muitos filmes bacanas, seja colocando-os em circuitos quase que impossíveis ou lançando-os diretamente em bluray, quando não só em DVD.

É algo chato porque ficamos dependendo da bilheteria americana para saber se um filme será distribuído com alguma decência por aqui. Hanna, de Joe Wright, é um exemplo disso; Tetro, Um Lugar Qualquer, Filme Socialismo e Inquietos foram reduzidos a horários horríveis e salas precárias; produções nacionais, como Os 3 e Trabalhar Cansa sofreram dos mesmos males.

Além de, claro, ter um número bem pequeno de produções que prestem em 2011. Poucos dos que eu vi são realmente bacanas, e a maioria dos que eu estava ansioso para ver foram chutados para os primeiros meses de 2012. Salvaram o ano os filmes mais antigos, que me foram apresentados — tanto em DVD quanto em bluray —, as produções menores que chegaram aqui e, claro, os filmes premiados de 2010.

Mas vamos lá, os filmes que eu gostei de ver em 2011. Só contam filmes que eu vi pela primeira vez nesse ano, o que reduz bastante o número:

Um mágico ao lado de sua cartola em primeiro plano. Ao fundo, uma plateia vazia

O Mágico (L’Illusioniste, França). As Bicicletas de Belleville é um lindo filme animado, um dos melhores da década passada. O diretor Sylvain Chomet mostra de novo seu potencial com esse belíssimo O Mágico, baseado em um roteiro inacabado do Jacques Tati. É um tanto triste, mas ainda assim esperançoso e tocante. É a melhor animação do ano.

Pernas de uma bailarina posicionadas para dançar em meio a um fundo escuro

Cisne Negro (Black Swan, Estados Unidos). Aronofsky tem todo um poder com seus personagens, e sabe criar histórias de impacto. Cisne Negro tem a melhor delas e consegue ser um filme que anda lado a lado com o fantástico O Lutador, com uma técnica cinematográfica ainda mais surpreendente, e em certos momentos arrasadora.

Três homens em uma forca sendo observados por uma multidão em uma cidade no meio do deserto

Bravura Indômita (True Grit, Estados Unidos). Os irmãos Coen mostraram entender da temática do faroeste com Onde os fracos não têm vez, e com Bravura Indômita mostram seu lado menos cínico (e com mais humor).

O vulto de uma criatura com olhos vermelhos em meio à floresta

Tio Boonmee, que pode recordar de suas vidas passadas (Lung Boonmee Raluek Chat, Tailândia). Não sei se eu gostei de Tio Boonmee, mas ao sair da seção dessa obra de Apichatpong Weerasethakul foi impossível dizer que não valeu a pena. Silencioso e contemplativo, o filme é uma poesia sobre a vida e e o silêncio da morte. Pode ser uma experiência estranha e, em determinados momentos, indecifrável. Mas ainda assim necessária para a alma.

Uma mulher observa a nevasca por uma grandiosa janela à noite

Vincere (Vincere, Itália). Vincere é aquele tipo de cinema que eu amo, que eu encontrei em 2009 com Um profeta. O italiano Marco Bellocchio quebra a crueza e apresenta um lindo filme, arrasador na beleza e na crueldade dos destinos dos personagens. O meu favorito do ano.

Um grupo de crianças observa uma mulher pela janela de sua casa na Alemanha Rural

A Fita Branca (Das Weisse Band, Alemanha). Eu demorei pra ver esse vencedor da Palma de Ouro por, principalmente, ser contra ele ter ganho e Um profeta não. Mas Michael Haneke é irresistível e a brutalidade de seu novo filme, que em momentos me lembrou e muito ao Elefante de Gus Van Sant, é instigante. Seu modo clínico de representar a humanidade é singular e avassaladora.

Pai e filha dormem no sofá em uma tarde de sol

Um Lugar Qualquer (Somewhere, Estados Unidos). Sofia Coppola tem um lugar reservado em meu coração, não pela beleza de seus filmes, mas pelo talento que existe dentro deles. Compensa sua aparição em O Poderoso Chefão Parte 3 com uma carreira como observadora. Um Lugar Qualquer flerta com o imbatível Encontros e Desencontros e o bom Maria Antonieta, mas é mais fatalista e, de certa forma, mais sensível em sua abordagem. Não é o melhor da diretora, mas um dos melhores que os EUA nos ofereceu em um bom tempo.

Garota se debruça sobre sua caça enquanto o pai a observa

Hanna (Hanna, Estados Unidos). Eu gosto de Joe Wright. Mais que isso, acho ele de um talento muito diferente do que se vê por aí hoje em dia. Ele vê o cinema como uma arte em movimento e faz questão de tornar isso o centro de seus filmes. Hanna, sua entrada no cinema de ação, mostra que ele entende muito bem da abordagem americana da coisa, mas o filme é mais autoral do que se espera — e muito, muito cinemático.

Mulher sentada à mesa observando os restos de sua torta enquanto toma uma caneca de café

Reencontrando a Felicidade (Rabbit Hole, Estados Unidos). Reencontrando a Felicidade é um daqueles raros achados na locadora, principalmente com um título ruim desses. Há um bom tempo que Nicole Kidman não fazia um filme tão bom e tão forte. É um filme de tato magnífico que surpreende com uma sequência excepcional e trilha sonora fantástica.

Homem com capa escura e um capacete em meio a uma câmara nuclear vazia

X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, Estados Unidos). Eu acho X-Men um baita filme, e X-Men 2 melhor ainda. O terceiro é uma decepção e eu não tive coragem de ver o spin-off do Wolverine, mas X-Men: Primeira Classe é bacanudo, classudo e divertidíssimo. Em muitas partes me lembra um 007 antigo, e com atuações (e uma direção de arte) de primeira.

Garoto deitado sobre uma pilha crescente de antiguidades caindo

Harry Potter e as Relíquias da Morte — Parte 2 (Harry Potter and the Deathly Hallows — Part 2, Inglaterra). Divertidíssimo. Além de ser um filme de aventura dos mais emocionantes, foi divertidíssimo ver a reação do público durante uma seção lotada. A parte dois não é tão excepcional quando a parte um, mas tem uma emoção cativante.

Pincéis e lápis de cor no peitoril de uma janela

A Árvore da Vida (The Tree Of Life, Estados Unidos). Terrence Malick fez seu filme mais religioso até aqui para pedir perdão. A essa altura A Árvore da Vida pode até não ser o filme que todo o mundo falou no lançamento, mas é inegável dizer que é um exercício de cinema único. Poético, Malick busca o perdão enquanto nos entrega uma jornada sensorial entre o tempo e o espaço. Único e belíssimo.

Rosto de uma mulher visto através da portinhola de um portão

Eu Receberia As Piores Notícias de Seus Lindos Lábios (Brasil). A apropriação da musa, o drama do autor. O embate entre o idealista e a criatura que ele enxerga.

Mulher retoca o batom se olhando no espelho

Cópia Fiel (Copie Conforme, França). Juliette Binoche dá uma pitada de charme ao belíssimo filme de Abbas Kiarostami. Difícil decifrar o que acontece aqui, mas eu me apaixonei mesmo assim.

Homem com uma câmera observa o mar na proa de um navio

Filme Socialismo (Filme Socialisme, França). Lembra muito Koyaanisqatsi em determinados momentos, mas Film Socialisme parece ser mais duro com o espectador. Film Socialisme não é de uma digestão muito fácil, mas talvez seja essa a intenção.

Um pedaço de pano preso em uma cerca balança ao vento

Não Me Abandone Jamais (Never Let Me Go, Inglaterra). Melodramático pra caramba, Não Me Abandone Jamais me capturou de jeito. O melodrama do filme pode acabar deixando-o meio sem força, mas sua aura fria me deixou arrasado por umas boas semanas.

Mulher assustada deitada em uma maca hospitalar

Contágio (Contagion, Estados Unidos). Meio B, Steven Sondenberg trata com seu Contágio de um momento saboroso pela canastrice: o caos ainda não instaurado, nem suas consequências, mas sim sua propagação. Pode ser meio problemático a partir de sua segunda parte (quando o dramalhão de família toma conta), mas é divertidíssimo.

Jovem casal se beija enquanto estão deitados no asfalto molhado

Inquietos (Restless, Estados Unidos). Meio do caminho entre os ensaios sobre a morte de Elefante e Paranoid Park e seus filmes mais lineares como Milk: A Voz da Igualdade e Gênio Indomável, Gus Van Sant vai ficando mais e mais trágico com o passar da curta duração do filme, até ser um belo ensaio do amor que fica quando a vida vai.

Homem preso grita em um balde para abafar o som

A Pele Que Habito (La Piel Que Habito, Espanha). Desconfortável pra caramba, mas talvez o filme que mais mostra um Almodóvar no ápice de seu domínio cinematográfico.

Três filmes

O filme de aniversário desse ano, “Onde Vivem Os Monstros”, é aquele tipo de filme que eu amo ver. Lindo e profundo em seu conteúdo. Cada cena, cada metáfora, é milimetricamente pensada para ajudar o garoto Max em sua jornada para entender sua infância. Uma jornada clara, pode-se dizer, que todos passaram e vão passar. Por mais atordoante e estranha que essa fase seja, ela tem um fim. E, após ele, só sentimos saudade. É o que Max vê: não se pode viver nesse mundo de imaginação para sempre.

“(500) Dias Com Ela” é um dos filmes mais deliciosos que já vi. Tudo nele é acertado: a música está no lugar certo na hora certa; as cores que aparecem em cada cena, que são escolhidas a dedo para lembrarem da Summer; as atuações são fantásticas; o roteiro é muitíssimo bem bolado. Mesmo assim, se tem algo que supera tudo isso, é pequena Chloe Moretz, que simplesmente arrasa nos papéis que faz. Ótimo. Revejo mais de 500 vezes.

“O Profeta”, filme francês vencedor do Grande Prêmio em Cannes no ano passado. É sensacional e incomparável. Não vi uma trajetória de personagem tão instintiva e absurdamente sensorial que essa. Incrível. Poderoso. Um dos melhores.